segunda-feira, 29 de outubro de 2018

Observações pós-eleições - Parte I

Queridas leitoras e queridos leitores, perdoem-me a ausência eleitoral. O caldeirão da política que tomou o país subiu-me nas veias e paralisou-me as palavras nos dedos. A profusão de de desinformação fez com que cada letra por mim digitada fosse responsável por portar a verdade, e eu não sou dona da verdade. Nestas últimas semanas estive dedicada a estudar e a tentar ocupar a universidade e as ruas. Retorno ao blog com uma compilação de pensamentos e conclusões das leituras, conversas e militância destas semanas frutíferas. 

Primeiramente, gostaria de pedir a todas e todos que tentem se manter seguros e cuidar dos seus. A essa altura, acho que já é consenso entre os nossos que a violência não se origina apenas de um decreto presidencial que possivelmente a ordene, mas da ideologia propagada e agora vitoriosa nessas eleições. Os bullyies da escola cresceram e alguns já estão armados.

A escalada de violência contra minorias elegeu seu representante, e portanto aqueles que sempre estiveram em risco no país - negros e negras, LGBTs e indígenas - estão mais ameaçados do que antes. Tenho pessoas que me leem que fazem parte de alguma(s) destas categorias; e de vocês eu admiro a resistência. Cuidem-se.

Aos leitores que como eu integram a esquerda branca classe média, digo: temos que lutar pelos direitos deles e os nossos. Nós, esquerda branca classe média, temos que nos fortalecer e resistir. Quem tem o privilégio de não estar sob a mira direta da arma tem o dever de descer do pedestal de salvador da pátria a nível intelectual e ir conversar com as pessoas, se posicionar e ocupar os espaços. 

(Enquanto mulher, eu certamente estou mais ameaçada que os homens brancos; mas ainda acredito que não me matariam. Não tenho nenhuma intenção de estampar post no facebook com a minha cara ensanguentada depois de repressão violenta a ato e acho que esse é sim um risco real, mas ainda assim não me matariam. Marielle, Mestre Moa e Charlione não pode dizer o mesmo. Na Amazônia, índio e ambientalista são mortos com alguma regularidade. Sim, eu tenho medo por mim; mas tenho consciência de que não sou eu que estou sob o maior risco)

Em segundo lugar, gostaria de lembrar que o afeto e a felicidade são formas de luta. Ressalto: não falo aqui de uma felicidade forjada para esconder sentimentos difíceis, como insatisfação e medo. Estes sentimentos devem ser enfrentados de frente, com desabafo e abraços e talvez terapia. Falo da felicidade de saber que se tem amor, abrigo e um ideal. Não é hora de se render ao pânico, raiva ou ao desalento. Estes são sentimentos normais, mas não podem ser vitoriosos. Eu não quero que isso soe auto-ajuda, mas precisamos cuidar da nossa saúde mental. Precisamos estar fortes para enfrentar o porvir.

Em terceiro lugar, gostaria de conversar sobre o modo como se organiza a política no Brasil e como foi feita a campanha. Ainda preciso estudar muito para concluir qual modelo de governo considero ideal, mas ter um governo presidencialista inegavelmente tira o foco das propostas e o transfere para uma pessoa. Esta campanha evidenciou isso ao eleger um candidato que faltou todos os debates e deu respostas contraditórias a praticamente tudo; ficando sempre num dito não dito, "não é bem assim...". Quem não se chocou com as atrocidades contra os direitos humanos ditas por Bolsonaro pode escutar dele o que quis - desde promessa de assassinato de opositores até política conciliatória; de menos impostos e menos governo a aumento para bolsa família. 

(Atualmente tendo a crer que o governo ideal seria parecido com o que temos atualmente, mas em uma versão que desse certo - tem uma entrevista do Boulos na qual ele fez uma piada que eu achei engraçadíssima e repito para todo mundo: "tem gente que acha que política é quem Big Brother, que você vota para quem fica na casa, mas não interfere no que acontece". De fato, a democracia precisa ser mais participativa. Precisamos de mais espaços para discutir os rumos da cidade e do país e de mais plebicitos. A burocracia envolvida torna impossível que cada pessoa vote individualmente para cada lei; mas os representantes deveriam representar de verdade. A cidade deveria ser dividida em agrupamentos de não mais que 100 pessoas que se reuniam e elegeriam um representante; e este representante levaria as ideias do grupo para instâncias maiores, em uma hierarquia de pirâmide. Se assim desejasse, cada pessoa poderia também se manifestar nas instâncias. Se alguém quiser me recomendar literatura específica ou compartilhar ideias sobre o assunto tomando um café ou uma cerveja por favor se manifeste)

Não sejamos ingênuos: a ausência do debate de ideias foi do interesse do grupo do Bolsonaro, que está eleito com uma agenda neoliberal e impopular. Uma das análises que vi foi de que a violência institucional do governo Bolsonaro provirá justamente da reformas neoliberais, porque é impossível retirar mais direitos da população sem que a população se manifeste. Considero esta parte da análise bastante acertada. Conto com vocês na rua contra as reformas. Conto com vocês na rua pelos nossos direitos.

(Esta análise foi feita pelo Maurício Mulinari em uma aula pública promovida pelo Mulheres na Engenharia. Além disso, na análise dele, o governo Bolsonaro será apenas mais um capítulo no aprofundamento da crise do capitalismo brasileiro. Fui uma das pessoas que promovi a palestra, mas discordo da análise da corrente Revolução Brasileira de que o caminho seria o socialismo. Eu tendo a ser mais reformista. Eu preciso estudar mais.)

Meu quarto tópico são as grandes protagonistas das eleições, as fake news.  

Decisões políticas não são feitas com base em dados, e sim em sentimentos. Este é o único motivo pelo qual tantas pessoas acreditaram em notícias bizarras - como que o Haddad estaria distribuindo mamadeiras com formato de pênis, por exemplo. Elas acreditaram porque queriam acreditar; porque o descrédito nas instituições políticas vem sendo construído há anos e o PT representa em grande parte do imaginário brasileiro a política velha e corrupta. Não sou petista, e por isso a análise da imagem do PT não cabe a mim. Pretendo discorrer um pouco sobre os outros alvos das notícias falsas que circularam nas redes no próximo texto.

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