Descobri que o nome do que eu estou fazendo é distanciamento social, e não quarentena. Bom, manterei o nome do diário para fins de relato.
Houve mortes, muitas - no jornal e no telefone. E não houve os devidos adeus.
Houve parentes contaminados, muitos também. Mas eu não quero falar disso ainda. As pessoas ficam com pena, eu não gosto que as pessoas fiquem com pena, eu acho um péssimo jeito de acolher.
- Se quiser estar para mim para o que eu precisar, seja cúmplice do meu silêncio.
Houve semanas melhores e piores.
Fiz um instagram para a Vivi.
Nesta semana respondi um questionário para uma pesquisa e me dei conta que estou no dia 66 em casa, saindo só para o mercado e para passear a Vivi. Sem nenhuma perspectiva de fim disso, com notícias cada vez mais catastróficas.
Cansaço, raiva, choro, tédio.
Moro num bairro turístico, e nos poucos quarteirões nos quais ando com a cachorra há pessoas comendo em restaurantes de luxo e diversas placas com desenhos coloridos chamando as pessoas a virem usando máscaras; como se máscara fosse vacina. Eu desisti de caminhar ao por-do-sol porque tem aglomeração, e caminhar ao por-do-sol era uma das melhores coisas de morar neste bairro. De repente até o sol se tornou recurso esgotável. Eu fico com raiva das pessoas que estão roubando meu por-do-sol, e do governo que estimula as pessoas a roubarem o por-do-sol.
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