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Eu só David já moramos juntos há 1 ano e meio, de modo que algumas pessoas já nos consideram casados, ou quase. Tipo o meu padrinho, que engasgou ao se referir a ele nas últimas férias ("manda um abraço para o seu..."); ou mesmo o meu pai, que reclamou quando eu me referi ao David como meu namorado:
- Tá morando junto há mais de ano e ainda chama de namorado?
Fato é que chamo, chamo sim; porque a gente ainda não casou formalmente e nem fez uma festa, e fazer uma festa de casamento é importante pra mim.
A primeira vez que o David falou "Bora casar" foi ano passado, logo depois do pai dele morrer. Isso acabou sendo uma pequena crise porque eu levei a ideia a sério, mas a verdade é que o David não queria casar. Ele queria que pessoas importantes parassem de não poder comparecer às datas importantes. Eu comecei a fazer mil planos e obviamente ele não estava em condições de pensar em planos; e no lá dois meses seguintes eu entendi na pele quando a Dorinha adoeceu e depois morreu.
Enterramos e pranteamos nossos mortos e guardamos nossos planos.
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Os meses se passaram e em breve se tornarão um ano. As saudades mudaram, de preto e cinza avermelhado para amarelo sépia.
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Durante a crise conversamos sobre a importância de fazer uma festa de casamento:
- Mas a gente já mora junto, a gente já decidiu ficar junto o resto da vida. Precisa de uma festa? Gasta tanto dinheiro, dá tanto trabalho, já estou cansado.
- Eu não quero um buffet para 500 pessoas e uma banda famosa. Eu quero uma festa pequena com gente querida para comemorar algo bom que aconteceu na minha vida. Poxa, eu sempre quis encontrar alguém pra partilhar a vida, foi tão difícil te encontrar, eu já me meti em cada roubada, a gente deu tanta sorte! Precisar comemorar não precisa, do mesmo jeito que tem pouca coisa que a gente realmente precisa fazer: acho que só comer, dormir e cagar. No capitalismo também trabalhar pra não morrer de fome, já que não somos herdeiros. Mas eu gosto de datas. Eu gosto de dar significado as coisas. E eu gosto de ter uma desculpa para juntar gente querida, declarar amor, usar uma roupa bonita e bater boas fotos. Eu pensei numa coisa pequena, sabe? Talvez na casa de praia da sua família, no fim de dia, sem igreja porque a gente não frequenta, essas coisas.
Ele concordou, para o dia em que nossos corações estivessem em paz.
4
No fim do ano passado eu finalmente fui de Floripa a Ubatuba, conhecer a casa de praia da família dele. E aí eu vi tudo.
- Amor, eu quero casar.
- Foi por isso que a gente veio aqui, né?
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A Le, que dividiu casa comigo na graduação e é uma das melhores pessoas do mundo, casou e fez um churrasco. Foi lindo.
6
Daí começamos a pensar quando seria possível por o plano em prática. Ser adulto é difícil com todas as datas. E esse ano é meu ano final de doutorado. Ia ter que ficar pra 2021.
Puta injusto não poder marcar nada no meu ano final de doutorado!
Pera.
Aí eu lembrei que já errei muito e não quero mais cair no erro de achar que meu trabalho é minha vida. Que só depois do doutorado eu poderei ser doutora, mas é muito injusto que eu tenha que parar outros aspectos por isso. Conciliar trabalho e vida afetiva e social não é apenas possível como também necessário.
Abri uma planilha.
Anotei datas possíveis e impossíveis.
Achei.
- David, vamos casar em dezembro?
Mostrei as datas.
Discutimos logística.
Ele topou.
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