Fizemos a mudança numa sexta à noite, aquela em que alagou algumas rodovias e por isso as filas - já moro há mais de um ano em Florianópolis, já chamo engarrafamento de fila - estavam mais caóticas que de costume. Foi minha terceira mudança em um ano e meio e o fato do frete ter sido ótimo foi uma surpresa - eu ainda não acredito que couberam uma cama box de casal, duas escrivaninhas, duas casinhas de cachorro grandes, um espelho, uma máquina de lavar, uma bicicleta e muitas caixas em uma caminhonete.
Por que eu já esperava o pior do frete: o primeiro quebrou meu filtro; o segundo me deu cano; o terceiro (que na verdade foi o segundo, porque o segundo não foi) me ligou na véspera perguntando se eu tinha algum amigo para ajudar.
- Amigo não tenho, por que?
- Porque só podemos mandar um funcionário, precisamos de alguém para ajudar a carregar o peso.
- Eu ajudo.
- Tá.
Mandaram um moleque com a cara cheia de espinhas, contador de causo e com riso fácil. Primeiro dia de trabalho, ele disse enquanto carregávamos a cama; queria era estar trabalhando com o sogro mas ele não tinha vaga. Encaixou tudo orgulhosamente e bateu a foto da caminhonete cheia. O motorista anterior foi demimitido porque estava fazendo frete por conta com o carro do patrão, ele me disse; trabalhadores, tomai os meios de produção.
Depois do cano do primeiro frete eu passei uns dias dormindo em um colchão inflável na casa nova, que agora também é casa velha, só porque eu saí brigada da casa velha velha e desde então aquele lugar me dava desespero. Eu tive sorte demais na minha primeira aventura dividindo casa com desconhecidos; e o problema de ter sorte de primeira é que a gente fica achando que as coisas são fáceis. Naquela noite, dormi feliz na minha caminha. Achei que fosse morar naquela kitnet até o fim do meu doutorado; do mesmo jeito que achei que moraria nas duas casas anteriores. É até difícil de acreditar, mas eu não gosto de me mudar.
Mas aí o David, meu namorado, veio passar um final de semana em Florianópolis cuidando da minha cachorra; aí ele arranjou um emprego e nunca mais foi embora.
Ele só tinha trazido cinco camisetas.
No primeiro mês ele ficou lá em casa porque ele ainda não tinha recebido e a grana tava curta.
No segundo mês ele trouxe a mudança da cidade dele; um total de duas mochilas. Nesse mês a gente morou junto porque ele estava pagando o cartão de crédito.
No mês seguinte cairiam o dinheiro dele e as nossas desculpas.
Tem gente que sonha em ser pedido em casamento com uma chuva de flores caindo de um helicóptero. Eu sempre tive horror a esse tipo de demonstração pública, acho que pressiona a outra parte, acho que decisões a dois são tomadas na cama com pernas enroscadas em uma manhã de domingo. Também acho que morar junto não é o mesmo que casar, mas é grande.
- E aí?
- Bora?
- Morar junto?
- É. Definitivamente.
- Você quer?
- Quero.
- Eu também. Isso tá sendo bom demais pra gente abrir mão.
Foi assim. Era quarta a noite e eu tinha chegado em casa há pouco, suada pós treino. Não lembro o que tinha pra jantar. Era dia dos namorados, mas a gente estava boicotando o dia dos namorados, por isso se perguntarem a gente só decidiu no dia seguinte.
Foi tão bonito que eu nem sei escrever de um jeito bonito, tipo aquelas fotos de celular feias que a gente faz da lua. O amor existe feito a lua, uma abstração presente e difícil de retratar. Fincamos os pés no amor.
E por isso, porque de repende viramos dois, eu topei mais uma mudança. A máquina de lavar não passava pela porta, e por isso jogamos ela pelo muro do vizinho. Foi pela porta estreita que desistimos de ter um sofá; e quem me conhece há mais tempo sabe que para mim o símbolo de uma casa estável sempre foi um sofá - morei tempo demais em kitnets onde um sofá não cabia; um sofá simboliza que não moro num lugar onde só dá pra dormir, que posso até receber visitas. Um sofá é um móvel de descanso e diversão; e minha vida foi por muitos anos apenas utilitária.
Não temos sofá, mas temos dois puffs enormes e a sala-cozinha mais aconchegante e um escritório que também serve de quarto de hóspedes se enchermos o colchão inflável. A vida ganhou outros símbolos e eu finalmente achei uma lar em Floripa. Eu me sinto em casa.
segunda-feira, 20 de agosto de 2018
Casa
Rabiscado por
Marina
às
18:00
Temática(s): Colecionando Causos
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