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São pequenas coisas que me fazem acreditar que estamos evoluindo enquanto sociedade - não magicamente, mas por muita luta.
Quando eu entrei na engenharia, há quase dez anos atrás, era socialmente aceito os homens - alunos e professores - dizerem que nós, futuras engenheiras, éramos "engenheiros fêmeas" e que deixávamos a sala mais cheirosa. Hoje creio que esse tipo de atrocidade não passa mais tão impune ao menos. Não em voz alta.
Semestre passado o Mulheres na Engenharia, coletivo feminista que faço parte, recebeu um convite para uma palestra na Semana de Engenharia Mecânica da UFSC. Fiquei muito feliz.
- O que podemos fazer para tornar o evento mais igualitário? - A organização perguntou.
Eu falei o padrão - não basta fazer uma mesa com mulheres; tem que chamar mulheres para todas as mesas. O mesmo para outras minorias. Eles me ouviram com interesse.
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Fizemos a paletra do Mulheres na Engenharia eu e uma amiga, e levamos um monte de números. Quando se quer discutir minorias em um ambiente de exatas, há que se lembrar que contra dados não há argumentos.
Um dos termos mais interessantes que aprendi nos meus estudos feministas foi "ameaça do estereótipo". Funciona assim: vários estudos de psicologia mostram que, ao serem confrontados com estereótipos, pessoas pertencentes a minorias tendem a ter um desempenho inferior do que teriam sem essa pressão. Há estudos principalmente sobre a questão racial, e sobre mulheres também.
(Sempre que vou em um evento de engenharia, faço o "teste do pescoço" - aquele infalível para desigualdade, que consiste em virar o pescoço e contar quantos negros você está vendo em um determinado espaço. Em eventos de engenharia, sempre há poucas mulheres; mas sempre há mais mulheres do que negros. Ressaltando que a desigualdade racial, no Brasil tão atrelada à cor da pele, tem peso maior do que a desigualdade de gênero em profissões elitistas, como a engenharia é.)
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Tento lembrar da ameaça do estereótipo sempre que falo para outras engenheiras ou estudantes mais jovens que eu.
(É engraçado isso de ser doutouranda; já cheguei no ponto da academia que entendi que na verdade ninguém sabe ao certo o que está fazendo, portanto o segredo é levantar a cabeça e seguir adiante, que nem eu fazia nas filas para entrar em festas proibidas para menores aos quinze anos. O mundo todo é esse lugar em que a gente tem que fingir que sabe ser adulto e a medida da sanidade é saber esconder a loucura bem.)
Tento lembrar também da síndrome do impostor, aquela que nos faz achar fraudes não merecedores de estar onde estamos. Penso nessas duas coisas para ganhar coragem e para tentar dar um ar motivador. É difícil encarar as coisas horríveis que a militância feminista traz.
É preciso olhar a desigualdade de frente para saber que abusos são inaceitáveis e que não se está ficando louca.
É preciso força para então sair da posição de vítima a qual fomos ensinadas a ficar.
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Depois da palestra do Mulheres na Engenharia, uma professora falou de sua trajetória. É a única professora da engenharia mecânica da UFSC. É uma mulher incrível, daquelas pessoas que eu olho com cara de boba de admiração.
"Eu não sou feminista", ela fez questão de dizer, quando fomos convidá-la para falar em uma mesa do coletivo, há alguns meses atrás. Disse isso com aquele medo das feministas típico de quem foi jovem nos anos 1980. Hoje eu acho que ficar querendo converter essas pessoas é das maiores bobagens do movimento. Acho que uma trajetória de lutas individuais às vezes vale mais que uma carteirinha. Às vezes, tudo o que nós, jovens de hoje, precisamos, é de alguém real para nos espelhar.
Engenharia é uma profissão elitista, e tentar pensar em sociedade dentro da engenharia sempre será lidar com contradições. Hoje tenho mais medo de um feminismo elitista do que de quem não se diz feminista. A gente quer lutar para ter o "direito" de explorar?
Paulo Freire sempre; Paulo Freire e a necessidade da educação libertadora para o oprimido não desejar se tornar o opressor. E é tão fácil desejar se tornar o opressor quando já se o é em outras esferas; classe, cor.
Que sociedade queremos construir?
É preciso foco para as lutas serem efetivas. Para conseguir mudar.
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- Cheguei onde cheguei porque tive muito apoio do meu marido. - Disse a professora também, numa argumentação contra o feminismo que, nas palavras dela, tem muito ódio.
Discordo que haja muito ódio. Eu entendo que mulheres estejam raivosas, mas concordo com ela que precisamos pensar nossos métodos de ação. Vidas sem dúvida valem mais que vidraças, não é disso que estou falando. Refiro-me ao chocar por chocar apenas. Mais do que uma questão de certo ou errado, penso mais em uma questão de ser estrategicamente efetivo.
E depois fiquei pensando no papel do amor.
Dizem que feministas odeiam homens, mas não é verdade. "Não todos os homens", como eles adoram dizer. Odiamos apenas os homens que odeiam as mulheres, poderíamos dizer. É que o amor fica difícil, quando se entra em contato com todos os abusos escondidos sob a égide do amor, especialmente o amor heterossexual.
Violência não é amor, mas somos ensinadas a sermos vítimas e os homens a nos violentar. E, mais uma vez, precisamos encarar a violência para conseguirmos romper os ciclos. É preciso reconhecer para romper. Salvarmos umas as outras, e a nós.
Sair do papel de vítima é um dos grandes desafios a nós, mulheres. Não nos colocamos no papel de vítimas pro fragilidade, mas fomos nele colocadas socialmente. Não há liberdade sem quebrar esta amarra.
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Estamos organizando um grupo de leituras no coletivo. Acabamos recentemente um livreto da Alexandra Kollontai, uma russa da época da revolução comunista, "A Nova Mulher e a Moral Sexual". Para mim, foi chocante ver que temas que discutimos hoje - amor livre, liberdade sexual, igualdade entre os gêneros, etc - já eram discutidos há 100 anos atrás. No livro da Kollontai, tudo parece muito resolvido e encaminhado no mundo das ideias; mas o final do livro é um conto que mostra como várias coisas ainda estavam muito erradas - jornada dupla feminina, mulher perdendo emprego porque o empregador julgava ser papel do homem ser o provedor, liberdade sexual sem compromisso afetivo com homem pagando por sexo à mulher que tornou-se prostituta por falta de outras opções. Apesar do balde de água fria da história final, o livro traz várias reflexões interessantes de comentar. Por exemplo, fala sobre como o debate sobre o papel do amor ressurgiu na União Soviética após a guerra civil, pois em tempo de guerra havia urgências maiores. Discute o papel do amor ao longo da história - do amor exclusivo entre homens da antiguidade greco-romana, já que mulheres não eram consideradas membros reais da sociedade; do amor platônico medieval no qual a donzela inatingível motivava grandes façanhas do cavaleiro; do amor-propriedade burguês que cria a família como estrutura de acumulação de riqueza e usa a mulher como mão de obra não paga. Fala que o novo amor deve livre e com responsabilidade afetiva, de como a união entre duas pessoas serve para a construção de laços e para o bem coletivo. Achei tão bonito.
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Eu sinto muito não estar achando o texto onde li isso agora, mas foi uma frase que me marcou: amor livre é amor livre das amarras da igreja e do estado. O amor pode ser livre e monogâmico. E, acima de tudo, o amor deve ser respeitoso.
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Homens não costumam ser perguntados como conciliam família e trabalho. Feministas tem o estereótipo de "odiar homens". Uma frase clichê é "não sou racista, tenho até amigos negros". É por essas razões que não gosto de ter que mencionar meu namorado quando falo de trabalho, ou que sou feminista. Meu relacionamento feliz irradia para todos os aspectos da minha vida, mas antes dele eu tive que aprender a ser uma, e que o amor era só um aspecto da vida. Minha heterossexualidade não é minha capa "não odeio homens". Desejar amor é natural, mas falar do meu relacionamento em uma palestra sobre trabalho soa tão esquisito quanto falar "sou ótima engenheira, mas também sei limpar banheiro". Idealmente, todos saberiam limpar banheiros, porque banheiros são usados por todos e parte da vida. Eu gosto muito de escrever e falar sobre amor, mas em outros momentos. E só tenho a agradecer.
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Eu adorei participar daquele evento.
terça-feira, 28 de agosto de 2018
Sobre feminismo, engenharia, amor romântico e várias digressões
Rabiscado por
Marina
às
16:38
Temática(s): Comentando, Feminismo, Sobre a Ciência e a Academia
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