quinta-feira, 11 de abril de 2019

Todo dia as notícias me dão desesperança.

Domingo foram oitenta tiros do exército numa família negra a caminho de um chá de bebê.
Oitenta tiros.
Mais uma morte estatística.
Entendo porque as pessoas não gostam de números e gráficos.
Chamava-se Evaldo Rosa, e era músico. As estatísticas tem nomes. 
Eu desisti de comentar notícias nas minhas redes sociais. Eu não quero dar mais de mim ao Facebook. Eu não quero alimentar quem alimenta a desinformação. Eu nunca vou conseguir expressar a angústia de oitenta tiros, eu nunca vou conseguir consolar a família do Evaldo, eu nunca vou conseguir fazer o estado parar de matar, e ainda assim estou aqui, escrevendo um texto que quando eu vejo não é mais sobre oitenta tiros, mas sobre mim. Impotência pedindo holofotes, já que desisti de pedir likes.
Oitenta tiros.

Na quarta foi o buraco negro.
Achei bonito, a ciência. Não se esqueçam que eu sou cientista.
E então o adendo - uma jovem pesquisadora.
Eu li no ônibus, e de repente minha pose em pé segurando a barra para não cair era a imagem daquele poster famoso, "we can do it". Só para variar, uma vezinha a notícia era boa; e eu estufei meu peito cheio de ciência e orgulho e decidi que venceria mais um dia.

Eu sei que nenhuma imagem de buraco negro produzida nos EUA vai fazer o estado brasileiro parar de matar gente negra. Luto, luto. Eu sei que só representatividade por representatividade não resolve; e sei do meu privilégio de mulher branca classe média de poder lutar pelo meu local de trabalho e não pela minha vida. Ainda assim, a foto da Katie Bolman deixou meu coração quentinho. É preciso momentos de alegria para ter forças para encarar e tentar mudar as mazelas do mundo.

Que educação seja de fato um direito.
Que mais minorias façam ciência.
Que a ciência compreenda, respeite e melhore o mundo.
E, antes e mais importante que tudo:
Que vidas negras valham mais que buracos.

Nenhum comentário: