segunda-feira, 18 de março de 2019

Sobre a morte

O adeus foi vermelho - não só dos olhos, mas do partido. Aquelas bandeiras no enterro me fizeram lembrar que toda história que vale a pena escutar envolve alguma paixão, e que às vezes a paixão em si vale mais do que aquilo pelo que se é apaixonado. Como chorar em um filme sobre um jogador de um esporte cujas regras deconheço. 

O jogador no caso era do meu time, mas a essa altura isso se torna irrelevante.

A morte é onde todos nos reencontramos, mesmo em vida. A morte é quando os vizinhos se veem no cemitério, os parentes das cidades próximas dirigem alguns quilômetros e os amigos de anos se visitam. Finda uma vida, lembram-se as histórias.

A saudade é a casa de infância - a maior casa na qual já entrei na vida - e há tantos livros. O chão tem carpete, na sala de jantar há uma lareira e um piano. Um filme antigo no interior de São Paulo. Fomos ao quarto dele; um armário de madeira valiosa talhada cuidadosamente, uma tv enorme, a pintura da perede tão velha e as prateleiras mais surradas atulhadas de livros, livros e mais livros. Bandeiras e bonés vermelhos no mancebo. 

Cobrimos a cabeça e a avó acendeu a vela do Shabbat.

A avó é a que chora mais abertamente, por que existe a morte? Por que Deus criou a morte? Morrer devia ser assim, todo mundo junto, quem é mais velho primeiro, para a gente não sofrer. Eu durmo e acordo e não me conformo, por que existe a morte, eu estou velha, eu que deveria ter ido, encontrar meu marido, oh Deus.

A morte foi um cochilo mais longo e inesperado, e o cunhado pastor disse que ele estava na companhia de um anjo de Deus. A terceira filha tirou as garrafas de bebida dele dos olhos da mãe. O médico o proibira de beber. A mãe tem todos os atributos clichês de mãe e por isso vê a todos belos como realmente são. A mãe não se deixa enganar pela máscara de defeitos que usamos.

A mãe me contou que ele sempre fez tudo assim, de decisão imediata. Disse que eles gostavam de conversar, que ele disse que não gostava quando eles se separavam e que foi assim que num sábado ele perguntou se ela queria casar. Ela disse que sim e no domingo ele chegou com um jornal velho embaixo do braço, para procurar casa para morarem; e que apesar do jornal ser velho eles acharam a casa lá. Na segunda foram no cartório e souberam que poderiam casar na sexta, o que ele achou ótimo; e ela disse "calma lá, eu não posso casar sexta, eu tenho que avisar a minha mãe". Foi de súbito também que decidiram ir com os quatro filhos crianças viajar de ônibus até o Chile, e várias outras viagens.

Os quatro filhos hoje são adultos e meu namorado, o caçula, leva a cara do pai na sua. Vivemos eternamente na memória daqueles que amamos, e também no nariz.

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