domingo, 29 de março de 2020

Diário de quarentena - parte 2

Ontem minha mãe me contou que Seu Jorge, o gato, morreu atropelado. Eu passei alguns minutos chorando e depois o dia todo mal. Por um bicho que eu mal conheci e pela minha irmã, que todos os dias da semana passada estava brincando com ele quando a gente conversava. Ela apagou as fotos dele do instagram.

Eu não sei como resolver o dilema dos gatos, que gostam tanto da liberdade mas os cuidadores ensinam que a gente não pode deixar sair de casa. Eu sei que isso pode ser uma boa metáfora, desenvolvam aí.

Eu lembrei daquelas comparações toscas daqueles que faziam arminha nas eleições: carros também matam e nem por isso a gente quer proibir os carros.
Eu acho que talvez a gente devesse.

Seu Jorge foi atropelado por uma moto. A irmã da minha amiga morreu num acidente de moto.

Viver não devia ser tão arriscado, e isso abre um debate de direito à cidade e necropolítica que vou guardar para outra vez.

Eu lembrei do dia em que sai de casa e tinha um gato esmigalhado bem no meu caminho, carne no chão. Eu já tinha parado de comer carne e, depois daquilo, não teria mais como voltar.

Eu pensei nos pedaços do Seu Jorge que o papai e a minha irmã recolheram pra enterrar. Mamãe disse que quando aconteceu a minha irmã não parava de chorar.

Eu tive um momento clichê vegano pensando em todos os bichos sem nome que são mortos todos os dias, e aí ficou ainda mais difícil ficar tranquila.

Às vezes o mundo dói tanto que eu sinto que não vou dar conta.

Depois de fazer 30 anos. eu aprendi a tentar sofrer o necessário - nem mais nem menos que isso -; e tentar direcionar o sofrimento social a ações.

Ontem eu fui entregar uma cesta de comida que a gente arrecadou no pre-universitário a uma das nossas alunas. As aulas foram suspensas logo na segunda semana, mas eu lembrava dela porque na noite em que ela foi entrevistada para o processo seletivo era eu que estava recebendo as pessoas, e ela chegou com seu painel de bijouterias hippies a venda.

Ela mora numa kitnet bonitinha, parecida com as que eu morei na graduação e hoje moro. E estava sem comida.

Ela agradeceu e eu percebi que eu ainda precisava sofrer um pouco mais.

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