quarta-feira, 19 de agosto de 2020

Sobre o tempo dedicado às atividades "extras" do doutorado

 Ano passado (mas parece que foi em outra vida), quando eu conversava com uma amiga doutoranda de Minas Gerais em um congresso (bons tempos aqueles, nos quais íamos presencialmente a congressos, metíamos todas as nossas mãos simultaneamente em bandejas de pãezinhos e conversávamos aglomerados sobre a comida em ambientes fechados - era onde aconteciam as melhores trocas científicas; nestes momentos e nos afters) e lamentava (pero no mucho) ter tido que mudar meu doutorado porque o equipamento que eu originalmente usaria deu errado, ela me disse que ei, tudo bem, esse é só o começo da sua carreira científica, você vai ter o resto da vida para fazer esses teste, meu orientador me disse e a gente não acredita, mas devia, que o maior produto de um doutorado não é a pesquisa desenvolvida, e sim um doutor.

(Isso obviamente não quer dizer que a pesquisa é secundária ou que pode ser feita de qualquer jeito; isso quer dizer apenas que a falha e mudança de rumo são inerentes à ciência, e aprender a lidar com elas e a coordenar o próprio projeto - habilidades requeridas de um doutor - são os aprendizados fundamentais do doutorado; e que aprendendo isso os resultados necessários para a tese - e não necessariamente os desejados pela tese - virão. Nenhum trabalho encerra um tópico, então há uma vida pela frente para ir preenchendo lacunas, a partir do aprendizado de como aprender e pesquisar.)

Um doutor, pois sim. Até hoje essa conversa me acalenta, e me ajuda a direcionar meu tempo para aprender o que eu acho necessário para doutora que eu quero ser.

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