Ano passado (mas parece que foi em outra vida), quando eu conversava com uma amiga doutoranda de Minas Gerais em um congresso (bons tempos aqueles, nos quais íamos presencialmente a congressos, metíamos todas as nossas mãos simultaneamente em bandejas de pãezinhos e conversávamos aglomerados sobre a comida em ambientes fechados - era onde aconteciam as melhores trocas científicas; nestes momentos e nos afters) e lamentava (pero no mucho) ter tido que mudar meu doutorado porque o equipamento que eu originalmente usaria deu errado, ela me disse que ei, tudo bem, esse é só o começo da sua carreira científica, você vai ter o resto da vida para fazer esses teste, meu orientador me disse e a gente não acredita, mas devia, que o maior produto de um doutorado não é a pesquisa desenvolvida, e sim um doutor.
(Isso obviamente não quer dizer que a pesquisa é secundária ou que pode ser feita de qualquer jeito; isso quer dizer apenas que a falha e mudança de rumo são inerentes à ciência, e aprender a lidar com elas e a coordenar o próprio projeto - habilidades requeridas de um doutor - são os aprendizados fundamentais do doutorado; e que aprendendo isso os resultados necessários para a tese - e não necessariamente os desejados pela tese - virão. Nenhum trabalho encerra um tópico, então há uma vida pela frente para ir preenchendo lacunas, a partir do aprendizado de como aprender e pesquisar.)
Um doutor, pois sim. Até hoje essa conversa me acalenta, e me ajuda a direcionar meu tempo para aprender o que eu acho necessário para doutora que eu quero ser.
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