Algum dia do mês passado (não sei dizer qual) fez um ano que comecei minha jornada vegana. (Importante ressaltar que tem sido uma jornada, e não um fim.) Achei que seria divertido fazer um compilado de aprendizados.
1- Veganismo não é dieta. Na verdade, para mim esse foi um aprendizado de antes do início da jornada, porque se fosse dieta eu nem tinha entrado nessa; que a deusa me livre de privações para o controle do meu corpo. Veganismo não é só sobre não comer animais; veganismo é sobre respeitar seres sencientes.
2- Uma dieta vegetariana estrita não é necessariamente saudável (e pra mim foi importante consultar uma nutricionista vegana, para me ajudar a ajustar os nutrientes e me prescrever o suplemento de B12 que eu vou tomar o resto da vida - porque dá para tirar todos os nutrientes dos vegetais, menos a B12. E carne tem B12 porque os bichos são suplementados; então eu mesma suplementar é só tirar uma etapa da corrente.)
3- O segredo para uma alimentação vegetariana estrita é não tentar imitar o pratos que tem ingredientes de origem animal. Não é errado veganizar um prato de origem animal, mas a gente precisa saber que nunca vai ter o mesmo gosto. E tudo bem. O paladar muda mesmo, e há toda uma série de sabores a serem descobertos.
4 - Ninguém será convertido ao veganismo depois de comer comida vegana. O combo jornada veg + pandemia me tornou algo que eu nunca fui: uma pessoa que gosta de cozinhar. E eu estava tão animada com todos os sabores novos que vinha descobrindo que queria mostrar para todo mundo; e o que acontece é que a minha família riu da minha cara quando eu falei que estava fazendo "carne" de casca de banana e "queijo" de amendoim. Eu fiquei bem chateada, mas aí me dei conta que eu já não acho que o que eles comem é comida; por que então eles deveriam achar que o que eu como é? "Carne" de casca de banana tem gosto de casca de banana temperada e "queijo" de amendoim tem gosto de amendoim fermentado; e são gostos maravilhosos, mas não são os gostos da culinária carnista e é preciso quebrar alguns preconceitos para prová-los e aproveitá-los. Se meu objetivo é acabar com a exploração animal, faz mais sentido falar sobre exploração animal do que tentar converter desavisados ao meu bolo sem manteiga e ovo. (importante também dizer que durante as refeições com carne nunca é uma boa hora de falar de dieta vegetariana; e que pregar para quem não quer ouvir é uma perda de tempo)
5- Não é o fim do mundo ter algumas recaídas. Pouco depois de ter entrado nessa jornada vegana, eu passei uma semana em Minas Gerais, num evento. Eu era louca por queijo, aí eu comi queijo. Mas já comi menos queijo do que comeria se não tivesse começado a veganizar, não comprei queijo para levar e foi a primeira vez que eu comi queijo pensando no sofrimento que aquilo significava. Para mim, foi importante. No Natal do ano passado eu provei o bacalhau e comi brigadeiro de leite condensado. Foi louco ver como meu corpo recebeu aquelas coisas de uma maneira diferente - nem era tão gostoso quanto eu lembrava, e eu fiquei meio enjoada. Neste ano, teve um dia que eu comi um pedaço de salmão. Não me fez mal nem nada, mas também percebi que não era algo que eu precisava pra viver. Eu não me orgulho de nenhuma dessas recaídas, mas também não me culpo, porque foram poucas e esporádicas e não interromperam a minha jornada. Foram importantes para descontruir algumas memórias afetivas com a comida, e entender que veganismo não é sobre privação, é sobre posicionamento político.
6- Não basta uma comida não ter produtos de origem animal para ser apta para pessoas veganas. É preciso levar em consideração também como a comida é produzida. Não dá para a empresa que mais vende carne no Brasil vender também um hamburguer vegano; não dá para ser vegano e ter trabalho escravo.
7 - Veganismo envolve todos os produtos, não apenas a comida. A regra do item 6 também vale para produto de beleza, de higiene, eletrônico... é importante só ressaltar sempre que as escolhas devem ser feitas dentro do possível para cada pessoa - nenhuma carteirinha será cassada por usar camisinha que tem produto de origem animal na ausência de uma sem produtos de origem animal, por exemplo (e na verdade é bem tosca essa ideia de cassar carteirinha).
8- A exploração animal está mais presente na nossa vida do que a gente imagina. Eu fiquei realmente chocada de ver que quase tudo o que eu consumia tinha ingredientes animais. Sério. Olha aí.
9- Não vai dar mais para comprar tudo no supermercado. Porque talvez o supermercado explore mão de obra. Porque os vegetais e legumes são mais frescos e baratos na feira. Porque a gente descobre que não precisa de algumas coisas (eu substitui meu amaciante por vinagre, por exemplo). Isso não quer dizer que eu não faça mais compra nenhuma no supermercado; mas passei diversificar as compras e acabei descobrindo vários pequenos produtores e revendedores.
10- Compras passam a exigir pesquisa. Qual marca não explora animais humanos e não humanos? Existem listas em grupos na internet; para mim a grande mudança foi pensar que não deveria mesmo ser tão fácil consumir; que tudo tem a sua história e seu preço ambiental.
11- Ninguém vai mudar o mundo apenas alterando o próprio padrão de consumo, mas isso não pode ser usado de muleta para não se mexer. Ações individuais tem um impacto muito pequeno no todo e grandes corporações sem regulação e fiscalização adequadas fazem enormes estragos enquanto eu e você compramos escovas de dente de bambu. Ainda assim, acho que pensar sobre o consumo pessoal é parte de uma ética, além de trazer reflexões que devem ser levadas para o macro.
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