Estou há um mês escrevendo este texto.
Na véspera do dia que a Dorinha morreu, ela estava respirando pesado, tão pesado que não conseguia dormir. Tia Roberta, que passara a madrugada anterior com ela, disse que a Dorinha chorava porque não dormia e não deixava ninguém dormir; e cantava baixinho tentando se ninar.
Ela estava perfeitamente consciente, e tem hora que consciência é a pior coisa. O David me disse que quando for sua hora vai querer fazer que nem o Huxley, que pediu a esposa para injetar uma dose de LSD.
Dorinha estava doente. Eu comecei a escrever os detalhes da doença mas resolvi apagar, porque tem tanta coisa mais bonita da Dorinha para lembrar do que os sintomas horríveis da doença e ficar detalhando sintomas ou é enciclopédia médica ou curiosidade mórbida ou sensacionalismo. Eu já acho que o mundo dói tanto! Dorinha estava doente e sofrendo; e não darei mais detalhes agora porque ninguém deveria precisar dos detalhes para se desanestesiar e empatizar com sofrimento.
Dorinha estava sofrendo tanto, mas tanto, que naquela véspera eu pedi para Deus, o Deus dela, tomá-la em seus braços de vez. Eu não me senti culpada porque morrer não deveria ser castigo, e sim o fim de uma boa festa da qual saímos felizes e cansados. Dorinha já não estava feliz, só cansada; embora ainda conseguisse, entre uma dor e outra, rir da gente e pedir para minha irmã trazer de São Paulo morangos e jabuticabas. Dorinha não comia comida sólida desde um pouco antes do diagnóstico da metástase no fígado; mas ainda assim pediu para minha mãe fazer maniçoba com charque no dia das mães que seria aquele domingo.
Eu e meus pais saímos do hospital umas 23h; antes da uma da manhã a tia Kátia e a Jackie, que estavam acompanhando a Dorinha aquela noite, ligaram para minha mãe voltar. Aí eu soube o que ia acontecer. Às 4h minha mãe mandou uma mensagem dando orientações de como arrumar a casa e eu liguei para saber como estavam as coisas; mamãe me disse que mal, que Dorinha tinha entrado na morfina e estava em pré-coma. Por menos de um minuto eu ainda fui procurar no google o que era um pré-coma; então eu me forcei a dormir porque amanhã ia ser difícil e alguém tinha que estar descansado. Às 6h a mamãe ligou e fomos eu e papai ao hospital, e a Dorinha já tinha ido.
Ela estava na cama como eu havia deixado no dia anterior às 23h, mas estava morta. Eu não queria falar isso como um detalhe mórbido; mas eu nunca tinha visto a morte assim e se eu não falar a morte me assombrará feito aquelas correntes de adolescente que precisam ser repassadas. Eu não quero que vocês repassem nem que tenham medo da morte; eu só preciso falar dela. Ver a morte em um caixão já é bastante estranho; aquelas flores e o rosto estranhamente maquiado e o algodão no nariz. Ver a morte na cama de hospital ainda é tão desconcertante que eu olhei pro peito imóvel e não consegui sair de perto da porta.
Então tivemos que resolver os pormenores da morte: avisar os parentes, escolher o tamanho do caixão ("o corpo vai precisar de uma dose de formol porque o enterro só vai ser amanhã"), pegar assinatura de todo mundo para abrirem o túmulo onde estão vovó e vovô. Escolher a roupa com a qual ela foi enterrada, comprar comida pra ninguém desmaiar de fome no velório. Fazer café. Aprender a rezar um terço, contratar o diacono para o enterro. Depois fazer o missal do sétimo dia e contratar a igreja e pegar a certidão de óbito e até hoje acho que as plantas dela estão morrendo porque não sei se alguém sabe cuidar.
Aprendi muitas tradições.Tem que deixar a vela do sétimo dia do lado de fora da casa, para a alma nã ficar presa. O terço tem que ser rezado na casa onde ela morava. Tem que deixar um copo de água, vai que ela morreu com sede.
Eu me sentia exausta e ao mesmo tempo ligeiramente aliviada de ter com o que me ocupar. Invejei minha prima Marcela. Dorinha não estará no meu casamento, nem verá meu filho - como este e viu o dela.
Completou um mês no sábado. Ligo para os meus pais para tentar descobrir como está a casa. Pouco a pouco sinto que volto a ser eu, uma eu não exausta e novamente capaz de escrever e assumir responsabilidades e trabalhar e tentar mudar o mundo.
Volta e meia ao longo do dia me veem aqueles flashes horríveis do hospital.
Peguei um daqueles anelões que ela usava de recordação e herança. Dorinha gostava de tudo colorido e cheio de plantas.
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