segunda-feira, 24 de junho de 2019

Sobre falar com paredes e defender vidraças - um causo

Voltei a fazer terapia, e uma das teclas nas quais a minha psicóloga tem batido é que preciso falar em primeira pessoa, em vez de dizer "as pessoas fazem tal coisa". Linguagem impessoal é hábito de cientista, acho eu. Mas minha vida é minha, e não ciência... Guardemos a ciência para a ciência, então.
Daí por isso, em vez de dizer que a esquerda ainda não se recuperou das eleições de 2018 (o que eu até acho que é verdade, mas quem sou eu para falar em nome de toda essa bagunça díspar englobada no guarda-chuva esquerda), direi que eu ainda não me recuperei das eleições de 2018. Mas algumas coisas ao menos eu aprendi. Uma delas foi a não gastar meu tempo de militância batendo palma para maluco dançar. Pelo bem da minha saúde mental e daqueles que lutam a meu lado; pelo bem do nosso tecido social. Não é ser "esquerda cirandeira" querer ter direito a algumas horas de desconexão e paz. Fingir que algo ruim não acontece não vai fazer a coisa deixar de acontecer; mas usar tom de denúncia para replicar comentários preconceituosos ou estúpidos ditos por pretensos intelectuais de direita apenas deprime as pessoas que leem os tais comentários. 
(E aqui eu estou falando de youtubers, colegas de trabalho e afins; e não de políticos com cargos públicos. Políticos com cargos públicos tem que ser cobrados quando falarem absurdos; e independente das falas tem que ter as ações monitoradas. Youtubers, colegas de trabalho e afins que falam comentários preconceituosos ou estúpidos abertamente não costumam estar abertos à reflexão, então discutir com eles tende a ser tão efetivo quanto falar com uma parede. Passar adiante os absurdos por eles proferidos é dar mais voz a um discurso que já deveria ter sido superado; e o tempo gasto explicando o óbvio poderia ser melhor gasto de outras maneiras. Tempo é realmente um bem precioso).
Foi por isso que eu não quis nem passar a informação adiante quando chegou a mim um e-mail escrito por um professor da UFSC (eu não vou citar nomes porque sei lá o que é passível de processo)  se opondo a um encontro de mulheres na energia solar dizendo que a relação entre mulheres e energia solar era que mulheres bonitas pegam sol de biquíni; e que boas pesquisadoras não precisam de cotas. O cara se orgulha de ser dessa direita histérica. Há alguns meses, o Guilherme Boulos foi dar uma aula magna na UFSC; e o tal professor gravou um vídeo e divulgou em suas redes sociais conclamando os alunos que fossem "cidadãos de bem" a impedirem essa aula de ocorrer cantando o hino nacional. O que que eu ia fazer? 
O tal do e-mail chegou em horas diferentes em vários grupos de mulheres que faço parte no whatsapp. Dentre eles, o coletivo feminista da engenharia da UFSC. Falamos em fazer uma nota de repúdio; se saísse uma nota de repúdio a gente até assinaria, mas... O tempo que a gente gastaria escrevendo uma nota de repúdio é melhor gasto lendo e debatendo teóricas feministas; que inclusive é algo que fazemos há um ano e meio. O comentário machista do professor não repercutiu fora do meio universitário;e no meio universitário tem vários lugares onde qualquer pessoa que queira entender sobre feminismo e obstáculos que mulheres enfrentam em ciência e tecnologia pode se informar; inclusive o nosso grupo de estudos. Hoje minhas preocupações são bem maiores do que não ser xingada por um cara que não vai parar de me xingar. Eu estou lutando por uma ciência mais preocupada com a comunidade e a ecologia; pela manutenção e ampliação de direitos sociais. Queria eu que esse cara fosse o maior dos meus problemas.
Pois bem.
Mas o mundo gira, e eis que no dia da greve geral me chegam nos mesmos grupos de whatsapp uma sequência de vídeos deste mesmo professor tendo uma série de ataques de raiva. O bonito ignorou as assembleias que decidiram por greve das categorias, ignorou o piquete, estacionou o carro e foi dar aula normalmente. Quando voltou, os pneus estavam vazios e o carro, riscado - os riscos não dá para ver no vídeo, mas ele alega que o carro está riscado.
- Grava! Chama o reitor! Manda para o MBL! Esta universidade está cheia de filhos de puta!
Eu ri. Eu gargalhei. Eu vi o vídeo umas cinco vezes.
As autoridades: o reitor e o MBL.
E o vídeo seguinte, perfeita abertura de distopia, na qual ele, professor universitário, vai rasgando e arrancando um cartaz no qual lê-se "contra os cortes  na educação".
Eu fui julgada pelas minhas risadas. Porque não podemos apelar para a violência. Porque riscar carro é coisa de moleque e não resolve nada.
Olha, resolver não resolve mesmo. Sem dúvidas eu jamais proporia ou votaria a favor de riscar um carro como solução.
Mas... "violência"? O cara ganha mais de vinte mil por mês. Pintar carro é baratinho perto disso. É só uma dorzinha de cabeça, até serve para movimentar a economia. 
Por outro lado, se os cortes não forem revertidos a UFSC corre o risco de não abrir no segundo semestre; alunos podem ficar sem bolsas de permanência em vários lugares do Brasil e a Reforma de Previdência tenta fazer com que muitos trabalhem até morrer.
"Violência"
Aquele professor está longe de ser o maior dos meus problemas, mas tenho um total de zero arrependimentos das minhas risadas.

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