terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Diário de mochilão - Capítulo 14: Das aventuras finais em Córdoba

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Capítulo 13: Da Quebrada



A viagem Jujuy-Córdoba nem foi a mais longa de ônibus que fiz, mas foi sem dúvida a pior. Foi a única ruim. Talvez porque na verdade ela tenha sido trecho da que foi a maior - fiz no mesmo dia Humahuaca-Tilcara, Tilcara-Jujuy e Jujuy-Córdoba. Talvez porque eu estava realmente suada do passeio em Humahuaca; e por isso eu e as minhas coisas tivéssemos um constrangedor cheiro de fim de dia, uma mistura de protetor solar e gente. Talvez porque o ônibus era o mais normal das viagens longas. Talvez porque eu estava morrendo de fome e o serviço demorou (lição pra vida: não entre num ônibus de 15h com fome). Ou talvez apenas porque eu já estava viajando há mais de um mês.
Sentou-se a meu lado um rapaz super simpático querendo conversar, perguntando se eu era mochileira, dando dicas e dizendo que um mês era pouco tempo de mochilão. Bom, cada um sabe do seu tempo; mas para mim um mês funcionou bem, obrigada.
- Você é de onde? O que estava fazendo em Jujuy? - Perguntei, e confesso que estava mais interessada em tirar o foco da conversa de mim do que em ouvir a resposta dele.
- Sou de Córdoba mesmo. Estava em Pumamarca com uma moça... estamos juntos há alguns meses.
Lembrei do Velhinho Conversador do trecho Buenos Aires-Mendoza e conclui que ônibus de longa distância são lugares de corações apaixonados. Senti dor nas pernas da viagem e me perguntei se fui feita pro amor.


Chegamos em Córdoba quase na hora do almoço, e conclui que prefiro pegar o ônibus de tarde e chegar de manhãzinha - é mais fácil pra mim dormir mais cedo de noite do que com sol na cara. Chamou-me a atenção a pobreza da cidade na chegada, com muito lixo na rua. Mais uma vez hospedei-me num hostel no centrão, e Córdoba pareceu uma cidade bem normal, meio sem graça até. Com o passar dos dias, meu veredicto é que Córdoba é uma versão menor de Buenos Aires, e por isso bem menos bonita; mas na qual você tropeça numas igrejas incríveis pelo caminho. Comer é mais barato, tem muita festa e muita gente pedindo dinheiro.
Eu quase não bati fotografias, por isso esse post é quase só texto.
Como de costume, tirei o primeiro dia para andar sem rumo. Entrei no Museu Provençal de Sobre Monte pelo motivo habitual - tropecei nele - e acabei achando bem legal: àquela altura da viagem, muitos museus pareciam meio iguais; mas esse era a casa da família adaptada para ser um museu, o que depois descobri que cordobenses gostam de fazer e é uma ideia ótima.
À noite, enviei mensagem para a menina intercambista brasileira que conheci no hostel de Buenos Aires, em busca de companhia - mais uma vez eu estava sozinha no quarto do hostel. Ela estava ocupada naquele dia, mas sugeriu fazermos algo no dia seguinte.
Fiz uma saladona de legumes e estava comendo no terraço do hostel quando um cara me perguntou em espanhol de onde eu era. 
Eu disse que era brasileira e ele abriu um sorriso.
- Reconhece de quem eu sou sósia? - Perguntou.
- Desculpa, não.
- Do MC Catra.
- Sério???
Para ser honesta, eu não lembro da cara do MC Catra até agora. Mas em mesas de bar e viagens, eu uso a lei da melhor narrativa em detrimento do método científico. Eu não me importo nem um pouco de acreditar numa mentira, desde que seja uma boa história. E o sósia do MC Catra me contou várias boas histórias.
Disse que uma comitiva do MC Catra uma vez se hospedou naquele hostel, e que acharam fantástica a semelhança e ofereceram passagem para ele fazer uma turnê de sósia. Ele obviamente topou. Disse que chegou na casa do MC Catra e todo mundo o chamava de papai. Começou a me mostrar no celular as fotos cariocas: muitas mulheres seminuas, umas armas, umas carreirinhas. "Yo hablava 'va empezar la putaria'!". Falou que fizeram make-over de Catra nele, ajeitando a barba e colocando as roupas certas; e que quando ele ficou sabendo que havia funkeiros que já tinham morrido assassinados, ficou com medo que o Catra tivesse querendo um sósia pra usar de escudo humano. Mas que, apesar disso, amou o Rio de Janeiro. 
Usei minha combinação empolgação + cara de paisagem número 3. E pensei que esse diário agradecia a história.
- O que você vai fazer amanhã? - Ele perguntou, depois desses causos todos.
- Não faço ideia. - Respondi.
- Você já foi na casa do Che?
- Casa do Che?
E foi assim que um simpático sósia do MC Catra me apresentou a existência do passeio que eu mais gostei de Córdoba: numa cidadezinha chamada Alta Gracia, há uma horinha de ônibus, tem uma casa onde o Che Guevara morou quando era criança, e que hoje foi transformada num museu. Lá estão a bicicleta e a moto que ele usou para diferentes viagens pela América Latina (nas quais teve epifanias muito mais profundas que as minhas), muitas cartas e histórias. Eu literalmente me arrepiei toda numa das salas. O Che era gente e portanto teve mil erros - fica claro, por exemplo, que ele foi um pai de merda; em cartas lindamente poéticas e absolutamente inúteis na ausência, nesse privilégio masculino de grandes heroísmos enquanto vida particular é considerada menos. Mas não tem como não ser tocada pelo idealismo e luta.
Acabei indo em Alta Gracia dois dias, porque no primeiro o museu do Che estava fechado e eu não poderia voltar sem vê-lo. Aproveitei para estrar nas ruínas jesuíticas (achei sem graça no geral, mas interessante saber que é relativamente recente o habito de identificar tumbas, e que antes todos eram enterrados sem nome em locais considerados sagrados); ficar sentada na beira de uma barragem onde um cachorro nadava e ao redor das quais crianças brincavam e adolescentes conversavam; comer pêssegos direto dos muitos pés que tem nas ruas e depois entrar em outros dois museus que foram casas: o Manuel de Falla, que foi um músico espanhol que morreu em Alta gracia, para onde foi, como muitos, em busca de um ar melhor; e o Gabriel Dubois, um artista plástico. Eu não conhecia nenhum dos dois e adorei tudo.




Em Córdoba, me distraí novamente vendo pixos LGBT e feministas. Os pixos das minas fazem eu me sentir segura, mas um cara pobre estava sendo pago pra apagá-los. Deu saudade de casa e de tudo e me senti sozinha como uma árvore caindo numa floresta, que ninguém sabe se faz barulho. Decidi que estava na hora de voltar. Fui num Atacadão comprar presentes baratos que pareciam caros, e na rodoviária comprar minha passagem pra Montevideo. Seguindo recomendação da intercambista, passei um fim de tarde no Parque Sarmiento e comi um choripan. Voltando pro hostel, uma cumbia tocava numa praça e pensei como gosto do meu sangue latino. Depois vi um protesto contra agrotóxicos. Nessa noite dividi quarto com um espanhol estranho, que estava trocando de roupa quando eu entrei e pediu desculpas por ter usado meu desodorante. Dei os ombros e disse que não tinha problema. Sequei outra garrafa de vinho sozinha no terraço do hostel e ébria fiquei feliz. 
Na minha última noite na cidade, fui a um típico asado argentino na casa da intercambista: um churrasco na laje com as pessoas comendo muita carne depois da meia noite - Deusa, abençoe essa digestão. Todos eram muito novinhos, vinte anos; e me senti meio tia, e chocada por uma das brasileiras realente gostar de fernet. Mas foi divertido. Cheguei no hostel tarde e ainda fiquei no terraço, pensando na vida, até 3h da manhã. Coloquei o celular pra despertar às 8h. Estava novamente sozinha no quarto, meio bêbada. Estava muito quente. Pela primeira vez na viagem, depois de mais de trinta dias, depois de muitos hostels em que estive sozinha, tirei a roupa e dormi só de calcinha.
Acordei com outro hóspede dentro do quarto. Um cara. E eu lá, peito de fora.
Pensei no casal transando, no espanhol se trocando, nos mil caras que vi só de cueca. E resolvi fazer a desencanada. Puxei casualmente o lençol e continuei dormindo como se achasse natural ser vista despida por estranhos.
Quando meu celular despertou, obviamente o outro cara estava dormindo só de cueca, e eu não o julgo. Estava calor. Mas fui tomar banho e confesso que fiz questão de ir embora antes dele levantar.



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