Capítulos anteriores:
Capítulo 1: Dos planejamentos (ou da falta deles)
Capítulo 2: Da (breve) volta à Campinas
Capítulo 3: Da poesia nublada e molhada de Montevideo
Capítulo 4: De mís diablos en Punta
Capítulo 5: De como o destino quis que eu passasse uma tarde em Valizas
Capítulo 6: Da vontade de virar um leão marinho em Cabo Polônio
Capítulo 7: Da longa caminhada de Punta a Punta atrás de um por-do-sol
Capítulo 8: Da minha exaustão em Piriápolis
Capítulo 9: Das conversas em Colonia del Sacramento
Capítulo 10: Dos dias em que morei em Buenos Aires
Capítulo 11: Das paixões de Mendoza
Fui de Mendoza pra Salta num sábado à noite, nessa vida sem dias da semana definidos de mochila. Não era dos momentos mais comuns de viagem, e acho que por isso o ônibus executivo estava em promoção. Ostentei pagando vinte reais de diferença para viajar que nem gente chique no que foi o mais longo dos meus trechos: dezoito horas. E foi muito bom: as cadeiras reclinavam 150°, e não só 120°, e eu nunca achei que 30° fizessem tanta diferença na vida. Os melhores lugares, aqueles da frente segundo andar, não estavam em promoção e por isso vieram vazios, mostrando que o capitalismo faz direitinho seu trabalho de desperdício. Mas havia apenas três poltronas por fileira, e não quatro; e por isso elas eram mais largas e meus quadris adoraram. No jantar eles serviram vinho, muito vinho - acho que o moço que servia viu que eu gostava de secar garrafas e encheu diversas vezes meu copo - e eu até queria, mas nem consegui terminar de ver o filme que estava passando. Em resumo: o ônibus era melhor que a maioria dos hostels nos quais me hospedei.
(Das minhas habilidades mais úteis na viagem, destaco a capacidade de dormir fácil e pesado. Dos aprendizados pra vida, vi que são absolutamente factíveis os ônibus de longa distância. E, para quem mochila e tem útero, recomendo fortemente meu grande amigo coletor menstrual, que foi tão responsável quanto a classe executiva pela tranquilidade dessa parte da viagem: me poupou o desentendimento com marcas de absorventes desconhecidas - passei alguns apuros com isso quando fiz intercâmbio nos EUA - e aumentando o conforto geral de tudo)
No curto período em que me mantive acordada, os Andes me acompanharam, onipresentes. Só eu dava bola praquela silhueta nas nuvens, enquanto pensava que o norte argentino era um dos lugares que eu mais queria ver: eu tinha lido sobre o museu com múmias incas; sobre o salar; sobre o parque dos cactos; sobre o trem que passava acima das nuvens e sobre as cidadezinhas perdidas em meio a desérticas montanhas coloridas. Era também o lugar onde, se eu assim desejasse, eu poderia mudar minha rota e desistir de voltar por São Paulo - era só subir pra Bolívia, e daí ver o que fazer. Mas depois de três semanas fora do Brasil, o cansaço batia diferente - já me era habitual a dor nas pernas e já me era quase leve a mochila; mas a cabeça e o coração começavam a dar seus sinais de exaustão de tanto novo. Num dia eu quis muito um abraço e fui ao mercado comprar leite condensado, achocolatado e manteiga para fazer um brigadeiro, em busca de algo de casa e uma lembrança de afeto açucarada. Por fim, meu retorno seguiu o mando do misto exaustão e saudade e foi como o esperado: passei uma semana em Salta, subi um tequinho pra Tilcara e depois comecei a descer no mapa.
Salta foi o primeiro lugar que eu achei que realmente teria sido melhor ter ido acompanhada. Não pelas saudades ou porque não tenha conhecido pessoas legais - houve a fofa fotógrafa britânica que não clica landscapes, com quem troquei brigadeiro por chá e links de blogs contando aventuras de viagens; houve um alemão que conseguiu licença do trabalho por alguns meses e está viajando sem rumo e contou que na China tem tanta gente que as pessoas chegam a pagar para domir no corredor, que é possível se divertir independente das palavras porque já passou momentos ótimos com pessoas com total incompatibilidade idiomática, que é super tranquilo ir sozinho pra Patagônia e que não bebe vinho; houve a brasileira voltando do Atacama que me acompanhou em brejas, conversas sobre o país ecrushes e uma Peña, que é uma apresentação de dança típica. Não, o problema da falta de companhia em Salta não foi a solidão, mas o descompasso de calendários para alugar um carro. Como acontece na Argentina, a cidade de Salta é a capital do estado de Salta. E no estado de Salta tem várias cidadezinhas fascinantes de difícil acesso; e assim eu fui novamente forçada a fechar excursões.
Passei dois dias meio à toa na cidade, esperando passar a chuva - se eu ia pagar por passeios, iria ao menos fazê-los no sol. Separei o dinheiro pra chegar em Montevideo, porque o dinheiro que eu tinha comigo estava começando a acabar e eu quase estourei meu cartão de crédito comprando o telefone e não podia mais usar o internet banking no celular perdido e as transações estavam todas mais difíceis. Desisti de fazer o roteiro do trem das nuvens, principalmente porque era caro demais, mas me consolando pensando que envolvia oito horas num ônibus para menos de duas no trem. Comprei comida no mercado para fazer lanchinhos pra viagem e ter o que jantar na volta sem gastar muito. E fechei três roteiros de dias cansativos de lindas fotos, algumas ótimas histórias e um arrependimento.
A verdade é que realmente gostei de Salta. Coisa de nortista, talvez; isso de gostar de outros nortes? É uma grande cidade pequena, com praça principal e igreja e muitos pés carregados de tangerinas; e um daqueles mercadões nos quais as pessoas vendem até as mães e é uma delícia de andar vendo coisas que eu nem sabia que existiam. Eu estava no centrão e o ir-e-vir noturno chamou-me a atenção; tudo sempre lotado naquele horário comercial estranho argentino. As coisas eram mais baratas que em Buenos Aires e Mendoza. A pobreza também saltava a vista, dolorosa, com muitas crianças pedindo em todo lugar e ambulantes vendendo nas ruas meias e outras bugigangas. As cores são todas muito fortes, das contruções de estilo colonial às "artesanias" feitas de maneira industrial na Bolívia. Se eu tivesse mais dinheiro e mais espaço na mala e na vida (lembrando que a única chave que tenho agora é a do meu cadeado de hostel; por hora não tenho um teto fixo), teria comprado mil lembranças. Em vez disso, bati mais de mil fotografias e me faço de descolada dizendo que não preciso mercantilizar memórias.
Depois do check-in no hostel, a primeira coisa que eu fiz na cidade foi procurar o Museu de Arqueologia de Alta Montaña, um dos principais motivos da minha ida para lá e sem dúvida um dos museus mais incríveis que já fui na vida. Já valeu as 18h de viagem. Ele apresenta de maneira detalhada e bastante respeitosa oferendas incas humanas encontradas há alguns anos no alto do Llullaillaco, uma das montanhas andinas mais altas (e com nome mais impronunciável). São três crianças, escolhidas por sua perfeição e linhagem, para trazerem coisas boas ao reino. Não se considerava que elas morriam, e sim que se encontravam com os deuses. Devido a altura e baixa temperatura, são as múmias naturais mais bem conservadas do mundo. E, além delas mesmas, havia vários objetos em perfeito estado em altares, o que permite entender muito sobre a cultura delas. É verdadeiramente fascinante, e faz você lembrar como se demoniza a cultura alheia - em como o catolicismo chamava os indígenas de selvagens e como a Bíblia também tem seus sacrifícios humanos, inclusive o do próprio Cristo.
A cidade também tem outros museus menores, que eu visitei enquanto esperava a chuva passar e não queria ficar ouvindo a música alta do hostel - eu sempre lembrarei dessa viagem quando tocar "Bailando", do Enrique Iglesias, porque contra a vontade escutei mil vezes. No Museo de la Ciudad tem coleção de máquina fotográfica e vestido de noiva antigo; e toca música de fundo tão eclética que rolou até versão em espanhol de Raul. O Cabildo é bem-conservado e àquela altura meio sem graça com aquelas obras coloniais iguais a tantas outras - no meio daquele bando de cruzes, depois da minha visita às crianças do Llullalliaco, eu só pensei que se Cristo tivesse morrido na revolução francesa as igrejas estariam cheias de guilhotinas e se fosse numa favela, teriamos uns revólveres. No meio daqueles quadros de homens brancos, eu só pensei sobre como a gente constrói o conceito de heroísmo. As igrejas da cidade são bem bonitas, mas àquela altura da viagem eu também já estava cansando de igrejas. Fiquei com medo de estar perdendo a capacidade de me encantar com o mundo, ou de ser uma eterna insatisfeita. Ao fim da semana em Salta, às vésperas de completar quatro semanas fora do Brasil, eu percebi que aquela era a transição entre uma viagem curta e longa: eu não aguento viajar em ritmo frenético por mais de um mês. Se eu fosse realmente passar meses de mochila, mesmo que dinheiro não fosse o recurso limitante, eu teria que parar de tempo em tempo em algum lugar - trabalhar umas semanas num hostel, numa fazenda, sei lá; qualquer coisa que me trouxesse algo de rotina. Meu corpo pedia sono e comida decentes, e a minha cabeça pedia um foco. Durante a viagem, encarei escrever o rascunho desse diário e bater minhas fotos como um trabalho, o que talvez seja só uma prova de que sou mesmo uma workaholic meio louca. Ou talvez seja humana essa necessidade de sentir que se tem um objetivo.
Os dias de excursão foram todos bem longos; acordando às 6:30h pra sair às 7h do hostel e voltar depois das 20h. Em todos eles eu ficava maravilhada com os cenários, mas minhas pernas doiam de ficar sentada na van e eu pensava como eu seria mais feliz fazendo meus próprios horários. Tive uma epifânia: aos 15 anos, não quis festa e ganhei de presente dos meus pais uma excursão, que fiz sozinha e não foi muito legal. Por causa dessa experiência, por mais de uma década eu achei que eu não gostava de viajar sozinha. Tudo bem que a moça que sou hoje difere muito da menina de 15 anos (ufa), mas a conclusão foi que na época eu entendi tudo errado: meu problema nunca foi com a solidão; eu amo gente, mas sempre curti uns rolês meio esquisitos e a timidez sempre me fez preferir fazer eles sozinha porque eu não queria atrapalhar ninguém. Eu adoro viajar sozinha! Eu não gosto é de excursão; essa obrigação de fazer o que as outras pessoas estão fazendo nos horários que alguém julgou que é bom. Para uma mulher solteira de quase 30 que está mudando de estado, não deixa de ser bem empoderador perceber o quanto me é prazeroso não depender de ninguém.
Duas das três excursões envolviam subidas intensas, e por isso o guia sugeriu nós comprarmos folhas de coca, que são permitidas em toda a Argentina, mas importadas da Bolívia (segundo o guia, é preciso 1kg de folha de coca, além de todo o resto da química, para produzir 1g de cocaína; apesar disso, as autoridades argentinas preferem não arriscar). Comprei e já tinha mascado e engolido umas cinco quando alguém se compadeceu da minha ignorância e me explicou que eu estava fazendo aquilo errado: não se engole as folhas, porque elas são laxantes (que medo); em vez disso, você as enrola e coloca entre a gengiva e a bochecha e suga como que fazendo um chá com saliva. Felizmente não senti o tal do efeito laxante; e em verdade não senti foi efeito nenhum além de um leve amortecer de lingua. O que talvez seja o sinal de que aquilo deu certo, afinal - não houve enjoo ou dor de cabeça ou fraqueza do chamado mal da montanha. Noutro dia provei as balinhas de coca - mesmo amortecimento de lábios - e achei engraçado nelas ter escrito que se deve evitar tragá-las ou cheirá-las.
No primeiro dia, o ponto alto da excursão foi o parque nacional dos cactos e uma cidadezinha chamada Cachi, que, além de ser uma graça, tem um museu cheio de petroglifos - aqueles desenhos feito lascando pedras, tipo as histórias do Piteco. O segundo dia foi o que eu me arrependi de ter feito - fui porque dizia que era o roteiro paralelo ao trem das nuvens; mas não era exatamente; e passamos tanto tempo sentados na van que eu queria morrer. As Salinas Grandes, o tal do salar, me decepcionou - eu esperava brancura a perdr de vista; e na verdade o horizonte era limitado e ele estava meio marrom. Descobri depois que é porque essa era a pior época para visitas, depois de todo o período de seca acumulando areia sobre o sal. E passar só 30 minutos em Pumamarca, uma cidade que é patrimônio da humanidade e eu já tinha lido que era bom ir para pelo menos uns três dias, foi bem ruim. Nesse dia eu resolvi provar carne de llama, porque era típico e me pareceu quase uma obrigação de viagem e pelo menos aqueles bichos não pareciam ter vida de bife de abatedouro. É ok.
O último dia de excursão foi o melhor não pelos cenários igualmente maravilhosos - formações rochosas e uma cidade coloial famosa pela produção de vinho - mas porque a guia era ótima. Foi só por ela que eu fiquei sabendo que o que eu estava vendo ainda não eram os Andes, mas a pré-cordilheira surgida dos mesmos movimentos tectônicos (nota mental: até as montanhas se movem e quem é congelado pela sua perfeição vira múmia de museu). Ela também contou que entre 1992 e 1998 o então presidente Menen acabou com os trens comerciais da Argentira, gerando cidades fantasmas e fluxos migratórios em busca de melhores condições de vida e consequentes ilhas de pobreza em grandes cidades. Lembrou que os Incas eram invasores na Argentina, embora tivessem uma abordagem relativamente pacífica: chegavam no povoado de seu interesse e ofereciam a possibilidade de integrar o império Inca em troca de uma grande porcentagem em impostos. Em caso positivo, casamentos eram arranjados entre incas e pessoas do povoado, forçando miscigenação para evitar insubordinação. Em caso negativo, as estradas eram bloqueadas na tentativa de isolar o povoado. Nem todos os povoados originários argentinos abordados pelos incas aceitaram integrar o império; e houve um que resistiu a incas e espanhois até o século XVII. Foi nesse dia que eu lembrei que engenharia pode ser bonita, quando a guia contou que as casas isoladas que a gente via no caminho agora tinham paineis solares produzidos na própria Argentina, porque antes eles exportavam matéria prima e importavam os painéis da China e agora possuem formação disso na universidade.
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