terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Diário de mochilão - Capítulo 13: Da Quebrada

Capítulos anteriores:

Capítulo 1: Dos planejamentos (ou da falta deles)
Capítulo 2: Da (breve) volta à Campinas
Capítulo 3: Da poesia nublada e molhada de Montevideo
Capítulo 4: De mís diablos en Punta
Capítulo 5: De como o destino quis que eu passasse uma tarde em Valizas
Capítulo 6: Da vontade de virar um leão marinho em Cabo Polônio
Capítulo 7: Da longa caminhada de Punta a Punta atrás de um por-do-sol
Capítulo 8: Da minha exaustão em Piriápolis
Capítulo 9: Das conversas em Colonia del Sacramento
Capítulo 10: Dos dias em que morei em Buenos Aires
Capítulo 11: Das paixões de Mendoza





Quando me perguntam o que eu mais gostei da viagem, respondo que depende da referência. Por exemplo: o lugar mais bonito foi, sem dúvida, Cabo Polonio: sem luz e com todas aqueças estrelas e mar e leões marinhos. A cidade mais incrível foi Buenos Aires: cidade cidade mesmo; Cidadeusa com poderes mitológicos de criação e morte. Se eu fosse escolher um lugar pra morar, seria Montevideo: tem vida de cidade sem ter caos ou engarrafamentos; tem mar e por-do-sol e os ônibus funcionam. E o lugar mais incrivelmente diferente de tudo foi o norte da Argentina no geral, mais especificamente a Quebrada do Humahuaca.






A Quebrada do Humahuaca abrange várias cidadezinhas na província de Jujuy, no norte argentino; e é patrimônio da humanidade. Hospedei-me em Tilcara, há quatro horas de ônibus de Salta. Tinha lido que era a cidade mais bem estruturada da Quebrada, então foi uma surpresa ver que ela tinha uns 6x6 quarteirões de ruas de terra e casas de adobe (uma mistura de barro e pedra que é excelente isolante térmico) e só. Uma sensação gigantesca de estar perdida no meio do nada. Adorei! Depois dos dias de excursão em Salta, estava precisando voltar a ser dona dos meus roteiros e de mim. Andei sem rumo a cidade inteira. Bati fotos de portas e paredes. Sentei em pedras e pensei e pensei.











- Imaginei que Humahuaca fosse um traficante, e você estivesse na Quebrada dele. - Brincou um moço do Brasil (sim, aquele do amor de nuvem), quando passei minha localização do momento. 
Ri e expliquei o que tinha aprendido com uma das guias das minhas excursões por Salta: Quebradas são construções geológicas entre montanhas. Diferem dos Cânions porque Quebradas unem dois pontos, enquanto os Cânions unem nada a lugar nenhum.
- Tadinho dos cânions, tão solitários! - o moço respondeu.
- E eu que achava ruim me achar meio quebrada! - respondi.
Eu pensei naquilo um bom tempo: em mim e no moço; em escolher ser cânion ou quebrada; em pontos distantes; em montanhas tão belas e altas e de infinitas cores e meu medo de altura e descoberta das fotos em preto e branco e meu coração fundo; em vales, no que vale, tudo vale?; em dias nublados e de como o sol queima. Eu e essa minha overdose sentimental e trocadilhos que oscilam entre poesia e piadas da Praça é Nossa.


Eu era a única hóspede do hostel familiar, no qual consegui entrar por sorte - quem estava cuidando quando eu cheguei era a mãe do dono, uma senhorinha muito doce e pequena que por coincidência estava abrindo a porta quando eu cheguei e me ofereceu um mate. O dono tocava música típica pra mim no café da manhã (num dia, algo parecido com uma flauta. Chamei de instrumento de sopro e ele me corrigiu: ar, não sopro. Noutro dia, violão). Contou-me que passou algumas semanas em São Paulo, tocando numa feirinha, e que gostou do Brasil. Foi ele também que me explicou melhor as pedras empilhadas que eu tinha visto tanto ao longo da viagem: eu já sabia que elas honravam Pacha Mama, a Deusa Mãe Terra. Ele contou-me que elas marcavam onde são enterrados os carnavais:
- Temos duas grandes festas em honra à Pacha Mama. A primeira é dia primeiro de agosto. Nessa, fazemos pedidos. Em fevereiro, temos o carnaval. Para nós, é uma época de agradecimento. Fazemos amuletos para agradecer às graças pedidas e alcançadas. Esses amuletos são feitos por diferentes comitivas, e depois enterrados. As pedras marcam onde eles foram enterrados, para serem desenterrados no próximo carnaval.
Fiquei encantada com aquela ideia de carnaval de lembrança do que há de bom - eu que em carnavais bebo e festejo e beijo para esquecer tudo o que há de errado no mundo e em mim!


O dono do hostel também me indicou os pontos turísticos da cidade e das redondezas, e pareceu não entender que eu realmente estava precisando das horas todas que eu passei deitada depois de todos os dias que tinha passado acordando 6h ou antes. 
Por conselho dele, fui à Pucara de Tilcara, um misto de museu botânico e ruínas que estava fechado devido a uma greve (que presumi que fosse bem justa, pelos horários de trabalho malucos argentinos e porque o dono do hostel falou que os salários do norte são menores que os do sul. Chamou-me à atenção o como era tudo barato na Quebrada - foi onde eu comi melhor; muita quinoa e queijo de cabra). 





Depois fui rumo à Garganta del Diablo, que eu tinha visitado em excursão, mas gostei da ideia de chegar a pé.
- São 4km de caminhada; tem um morro que você contorna e chega.
Pareceu bem simples...
... mas não era. 
Bom, não pra mim.
O morro era alto e íngreme. A subida não era escalada nem nada, mas não tinha pavimento ou proteção nenhuma (obviamente), e meu desconforto com a altura e aquele chão arenoso só aumentava. Em outro lugar, eu tinha me apoiado numa pedra e ela caiu, porque as pedras estavam apenas empilhadas e razoavelmente compactadas, não muito. A adrenalina não estava batendo dum jeito bom, e eu só tinha subido uns pares de metro caminhando.
Aí eu tive outra das minhas epifânias da viagem: eu não precisava subir aquele morro!
Sabe aquela história de que você tem que enfrentar seus medos? Bobagem. Bom, há medos e medos. Mas eu não tenho obrigação de ser corajosa, nem de nada.
Marina, querida, você não tem que provar nada a ninguém, nem a você mesma.
Você tem medo de altura. Tudo bem! Você já aprendeu a dormir no segundo andar de beliches. Mais do que o suficiente. Não muda nada a vida subir a droga duma montanha. 
Desci, sentei numa pedra, estava rascunhando no meu diário sobre como a minha perna já estava roxa porque eu tinha tropeçado num local de prender bicicleta há dois dias atrás olhando pra cima em vez de pra frente ao explorar uma outra cidade e como podia ser verdadeiramente arriscado subir a montanha, na verdade; porque eu sou desastrada e estava sozinha e poderia acontecer algo simples como tropeçar e torcer o tornozelo - eu já torci os dois tornozelos mais de uma vez cada - e sozinha isso já seria um grande perigo. Nisso apareceu um senhor de cabelos brancos, ar de viajante e corpo mil vezes mais sarado que o meu, perguntando em inglês se a subida era longa.
- Não sei, fiquei com medo e não subi. - Repondi. - Não que eu ache que seja realmente perigoso, mas eu tenho medo de altura, e estou sozinha...
- Você pode vir comigo, se quiser. - Ele disse, prontamente.
Olha só o destino desmontando meu argumento do risco de me machucar sozinha!
E assim eu tive que me desfazer da minha desculpa e bancar meu medo.
- Muito obrigada, mesmo! Mas eu prefiro ficar aqui embaixo. Não acho que seja arriscado, mesmo. Mas prefiro me respeitar e respeitar meu medo.
Ele sorriu gentil, continuou indo e eu me senti muito bem com meus pezinhos fincados no chão plano. Não há argumento maior do que a minha vontade; e todos esses meus dias de desbravadora aventureira sem rumo serviram para me dar coragem de abraçar meus medos e desejos de segurança e estabilidade.





Passei dois dias tranquilos em Tilcara, descansando, comendo, andando e batendo fotos das paredes coloridas e dos pixos - foi perto do dia internacional contra a violência contra a mulher, então tinha muita coisa feminista, de lambe à trabalho de escola. Tinha também pixo político e muita declaração de amor - acho que nunca vi tanto "Fulanx, te amo"; e outros mais divertidos cujas fotos estão abaixo. Como nem tudo são flores, tinha uns dois xingando uma moça de puta, também. Me diverti olhando as pessoas, com feições bem indígenas e realmente usando aquelas roupas coloridas que vendem - vi até uma mulher levando uma criança num aguaio num ônibus. Me deu vontade de deixar meu cabelo crescer e me livrar dos meus óculos hipster, em busca do meu sangue nativo também. 








No terceiro dia, fui até Humahuaca, a última cidade da quebrada, que é maior que Tilcara e por isso menos charmosa, devo dizer. Mas também encantadora. A diversão lá foi fazer fotos dos cactos, que nessa época do ano estavam floridos - até os cactos ficam floridos uma época do ano; e parando pra lembrar os espinhos nada mais são que folhas adaptadas de quem teve uma vida muito seca. Agora é verão, tempo de sol e chuva.










Achei que já tinha fotografado tudo o que havia de lindo naquelas montanhas coloridas quando comecei a viagem seguinte. Estava no ônibus rumo à capital Jujuy, câmera no fundo da mochila embaixo dum mar de coisas, quando começou a chover. E então surgiu um arco-íris. Como se não houvesse cores o suficiente nas montanhas, surgiu um arco-íris! 
Acreditem: não há foto, mas houve um arco-íris na montanha colorida.
Ah, eu nunca gostarei mais de preto e branco que de cores, e nunca conseguirei captar tudo o que há pra ser visto e vivido. E essa é a graça.


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