terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Diário de mochilão - Capítulo 15: Do retorno

Primeiro, no ônibus até Montevideo, outra viagem tranquila na qual eu estava dormindo pesado 2h da manhã, quando as luzes foram acesas para a imigração. Desci meio zonza para ter meu passaporte carimbado enquanto um cachorro ia e voltava da fronteira, e eu poderia estar levando um cadáver sem problemas na minha mochila. Quando acordei de novo, já era de manhã e eu estava sozinha dentro do ônibus e meu mochilão estava jogado no chão - acho que quase fui levada para a garagem.
Passei ainda três dias em Montevideo, dessa vez na maravilhosa companhia da minha tia que mora lá. Na minha exaustão de viagem, só pude agradecer toda a gentileza: a comida de verdade em restaurante e em casa - aprendi o jeito certo de passar um bife e comi os melhores ovos do mundo; a companhia pra praia, pra feira de Tristan e Navaja e pros filmes argentinos; os conselhos pra vida - fique com quem quiser, homem, mulher; dê o que quiser, só não namore gente de direita e lembre que você é responsável pelas suas escolhas e pela sua felicidade.
No meu último dia no exterior, além do corpo exausto, amanheci com a garganta arranhando. Foi pisar no Brasil e desabei: comecei a tossir feito louca. Minha sinusite atacou pesado. Parecia que eu tinha sido atropelado por um caminhão.
Meu corpo não é burro e aguentou quanto pôde, afinal.
Passei mais dois dias voltando em São Paulo, na casa de uma amiga mais que querida, comendo brigadeiro de colher e colocando as conversas em dia. Fizemos juntas tatuagens de joaninhas - a primeira dela e minha quarta; porque joaninhas pra ela (e por ela, pra mim) significam "se você soubesse quanta coisa boa ainda há pela frente, não pensaria em desistir agora". As tatuagens são bem pequeninhas, menores que tatuagens de chiclete, porque a linha entre delicadeza e toalha de casa de vó é muito tênue e nós não queríamos ter que tatuar também nosso nome bordado e rendas. Meu pai me pediu pra comprar whisky no free-shop e a prova de uma amizade verdadeira foi que deixei na casa dessa minha amiga metade da minha mochila, e ela gentilmente me entregou tudo depois em Belém. 
Reencontrei em São Paulo também um moço que já amei mais que tudo na vida e na época fui correspondida; e juntos tomamos cerveja embaixo do MASP e pensamos no menino e na menina de dezoito anos que éramos há uma década atrás e no que eles achariam de nos ver bebendo juntos numa quarta-feira falando de outros amores. Aquilo nos abriu um sorriso e deu a tranquilidade de joaninha no mundo - a vida está sempre absolutamente fora de controle e será sempre uma surpresa; mas a gente sobrevive a tudo feito barata, como diz uma amiga; e os desfechos são os melhores possíveis, como estar ligeiramente ébrio embaixo do MASP numa quarta-feira.
A cidade de volta seguinte foi Campinas. Seis dias de reencontros, alfajores para os amigos mais doces da vida, os bares de sempre, o rapaz do amor de nuvem, um vendaval de sentimentos. Sinto que me despeço de Campinas como quem termina um namoro longo, daqueles em que ainda há amor - depois de tantos anos, como não haveria amor? - mas não há mais futuro; e a gente precisa ainda ficar junto algumas vezes pra ter a certeza que sim, a melhor decisão é terminar. Campinas sempre será parte de mim, como são meus antigos amores; mas não é mais quem sou. Meus sentimentos e minha gripe argentina me deixaram de cama e quase sem voz, e mais uma vez me senti forte ao admitir fraqueza e pedir ajuda e ir ao hospital. E assim, pacientemente pacientando paciente, passei a tarde de domingo no pronto socorro usando uma máscara cirúrgica; entre consultas, injeção, inalação, raio-x, hemograma, receita de antibiótico pauleira (gastei na farmácia o dinheiro que deveria ter gasto comendo direito na viagem) e muitas esperas; observando os outros pacientes e pensando que paixões são mesmo feito gripe, surgidas do nada em lugares movimentados, adquiridas em trocas de fluidos e aproveitando a resistência baixa para deixar a gente de cama, para o bem ou para o mal. Talvez se eu comesse direito; talvez se eu não fosse sedentária; talvez se eu bebesse menos e o álcool não fosse a porta de entrada para outras drogas; talvez se eu amasse menos fumantes; talvez se uma das minhas melhores amigas não morasse na cidade mais poluída da América do Sul; talvez se eu fosse uma boa moça bela, recata e do lar e não grande entusiasta de experiências e erros novos... Talvez eu nem adoecesse, se eu não visse esse charme na leve auto-destruição dos maus hábitos que garantem minha sanidade mental na insanidade que busco nos amores, amizades e em mim. Mas no fim é só mais uma das minhas gripes, eu com esses sistema respiratório ruim e garganta arranhada de quem tem tanta necessidade de gritar e tão facilmente sufoca. Uma gripe ainda há de me matar, se antes não o fizerem meus genes ou o mundo.
- Você está bem? - Perguntaram.
- Vou ficar.
Amanhã completa uma semana que voltei à Belém, ponto inicial da viagem; uma semana que ela enfim acabou de verdade. Acabou o antibiótico e, tirando o fato de ainda estar meio rouca, estou quase saudável de novo. Meu cabelo cresceu nesse mês e meio, e agora minha mãe diz que estou parecendo um porco-espinho. Estou pesando a mesma coisa que estava no início da viagem, embora ache que estou mais forte. Continuo não tendo exatamente uma casa; continuo não sabendo ao certo o que eu quero da vida; no fim uma viagem é só uma viagem e seria muito fácil resolver questões de anos em poucas semanas. Achei que a experiência foi ótima e recomendo a todas e todos, mas foi isso - uma experiência. Meu espanhol melhorou e me sinto mais independente e forte, mas continuo tendo medo de altura e da solidão e de nunca me fixar em lugar nenhum e com o coração um tanto partido. Não desisti da engenharia pra vender minha arte na praia, mas estou muito empolgada que ano que vem vou morar perto da praia; então só falta aprender alguma arte. Descobri que realmente gosto de fotografia e quero aprender mais. Descobri que sou boa em falar com estranhos e que tenho mesmo olhos de contadora de histórias. Não senti saudade dos números e disso tenho algum medo. Senti saudade da universidade e isso me tranquiliza. Minha cadelinha chorou muito ao me rever e agora me segue pela casa, e isso também me tranquiliza - não estarei tão sozinha em Floripa, afinal. Estou com vontade de conhecer o mundo, depois de todas aquelas conversas e histórias; mas agora, nesse exato momento, sinto que meu corpo ainda precisa de cama e meu coração, de família e Natal. Não sei o que farei na noite de ano novo, não sei o que farei em 2017, não sei o que será do Brasil com Temer, não sei o que fazer de mim, mas a vida é mesmo uma viagem sem rumo e eu sei que me viro bem e tenho a sorte de encontrar quem preciso. E ainda bato boas fotos.

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