Capítulo 1: Dos planejamentos (ou da falta deles)
Capítulo 2: Da (breve) volta à Campinas
Capítulo 3: Da poesia nublada e molhada de Montevideo
Capítulo 4: De mís diablos en Punta
Capítulo 5: De como o destino quis que eu passasse uma tarde em Valizas
Capítulo 6: Da vontade de virar um leão marinho em Cabo Polônio
Capítulo 7: Da longa caminhada de Punta a Punta atrás de um por-do-sol
Capítulo 8: Da minha exaustão em Piriápolis
Capítulo 9: Das conversas em Colonia del Sacramento
Capítulo 10: Dos dias em que morei em Buenos Aires
Depois de ter perdido meu celular numa praça em Buenos Aires, embarquei no ônibus para Mendoza absolutamente mau-humorada. Um casal apaixonado sentou-se nas poltronas do outro lado do corredor e eu pensei que estava me tornando um ser humano horrível, porque aquele amor todo estava me irritando. Tocava reggaeton muito alto (reggaeton é tipo sertanejo universitário aqui, e esse ônibus tinha trilha sonora). Seriam longas catorze horas e eu nem sabia direito o que eu estava indo fazer em Mendoza, na verdade - antes decomeçar o mochilão, quando eu fui googlar "o que fazer na Argentina" ela apareceu como cidade turística e me pareceu uma boa ideia ir lá só para que, quando eu fosse subir para o norte, eu fosse vendo os Andes. Veja bem, eu sou paraense; lá de onde eu venho a gente não tem montanhas. E a ideia dos Andes me encantava - aquela cordilheira gigantesca com tanta história; muralha do pacífico.
Eu tinha lido que Mendoza era famosa por seus vinhos. Me pareceu tão programa de casal, ir tomar vinho! E haja beijo e amor do meu lado... Por que eu não subi direto pro norte mesmo? Ah, lembrei: no hostel badaladinho que fiquei em Buenos Aires, enquanto me maquiava no sábado, eu conheci no banheiro uma menina que trabalhava num hostel em Mendoza, e me disse para ir lá sim e percorrer as vinícolas de bicicleta. Outro dia, no quarto, conheci duas brasileiras que estavam fazendo intercâmbio em Cordoba e disseram que ei, Mendoza era legal; e me recomendaram um hostel que foi o que eu reservei. Então é isso, eu sou esse tipo de gente: que passa 14h num ônibus porque quer ver montanhas num outro caminho, e acredita em grandes conselhos dados por pessoas que acabou de conhecer. Creio que é o que faz de mim uma mochileira.
Achei que poderia me esparramar no ônibus porque não vinha ninguém ao meu lado, mas, algumas paradas depois do terminal, subiu um daqueles personagens típicos que provam que a minha vida é um grandessímo e lindo clichê: cabelos brancos, óculos, rugas, camisa de flanela, sorriso doce e palavras trasnbordantes. Caras leitoras e leitores, apresento-lhes o Velhinho Conversador que salvou minha viagem. Contou-me que era de Mendoza e estava há dois anos nesse ir e vir de Buenos Aires porque estava namorando uma senhora. Contou-me que na verdade eles se conheciam há 55 anos, mas quis o destino que antes eles antes tivessem outros amores. Vi em seu anelar uma aliança prateada e descobri que eu não era tão horrível, afinal - meu coração encheu-se de ternura ao ouvi-lo ligar para a namorada e perguntar-lhe da volta para casa e, na manhã seguinte, do sono. Pensei nos escafandristas do Chico: "Não se afobe não/ que nada é pra já/ o amor não tem pressa/ ele pode esperar..." e na minha irremediável mania de paixões ditas impossíveis.
Velhinho Conversador perguntou da minha viagem e foi me mostrando pontos turísticos no caminho: à noite, a enorme catedral de Lujan, para onde vão peregrinos da Argentina e que alaga quando chove muito devido à poluição. De dia, já mais perto de Mendoza, as parreiras. Senti-me fazendo o tour de vinhos.
Achei o ônibus confortável e eu estava na primeira fileira do segundo andar, então tinha a melhor vista. Estava exausta da correria de Buenos Aires em geral e da correria do celular me particular, então logo depois deles servirem o jantar (porque na Argentina ônibus de longa distância te alimentam; o velhinho reclamou que vem cada vez menos comida, mas pra mim estava ótimo) eu desabei. Acordei um pouco antes das 6h com o sol nascendo. Ainda faltavam umas duas horas de viagem, mas no horizonte, misturando-se com as nuvens, já se via os picos nevados de uma montanha, que logo o velhinho me disse que era o Aconcagua - a mais alta da América Latina, parte dos Andes. Disse que eu tinha que ir até lá, e concordei. Era impressionante.
(Enquanto isso, no rádio, tocavam músicas que Sandy e Jr fizeram versão, e eu por dentro ria)
Diferentemente do Uruguai, na Argentina os ônibus não tem wi-fi. Desembarquei e me dei conta que não tinha salvo a localização do hostel nem feito download do mapa da cidade. Coloquei crédito no meu chip argentino, achei meu hostel no maps e fiquei profundamente frustrada com a minha total dependência tecnológica. Eu tenho a droga dum mestrado em engenharia, não era possível que eu não conseguisse usar um mapa de papel. Eu nasci na década de 80! Peguei um mapa no quiosque de informações turísticas da rodoviária e outro na recepção do hostel e decidi que iria me virar com aquilo apenas. Orgulho da viagem: consegui. Observação sobre isso: serviu para provar um argumento; na cidade seguinte eu e o maps reatamos nosso caso de amor.
O hostel em que fiquei em Mendoza foi um dos mais baratos da viagem, menos de R$20 por noite (a média estava em torno de R$30, um pouco mais em Cabo Polonio e Buenos Aires). Um dos motivos ficou claro assim que entrei no quarto: tinham três triliches. Isso mesmo, triliches: três camas, uma em cima da outra. Fui colocada no beliche do meio, e agradeci mentalmente - se me colocassem no de cima, eu ia embora. Tenho medo de altura. Perdi o medo de dormir no segundo andar, mas tudo tem limite nessa vida. Os banheiros sempre estavam meio sujos, e eram mistos e os chuveiros eram separados apenas por cortinas. Mas o lugar era muito buena onda. Fiz a burrada de reservar as noites erradas - disse que chegaria no dia anterior ao que cheguei de fato - e a recepcionista corrigiu meu erro sem eu pedir, sem reclamar e sem cobrar nada, com um sorriso na cara e me oferecendo um café gostoso. A galera era muito animada. E o café da manhã era bem bom.
Logo na chegada a recepcionista me ofereceu uns passeios - tour por vinícola, excursão ao Aconcagua, cavalgadas. Fiquei meio com pé atrás - eu não estava viajando para entrar em excursão, pelos horários irritantes e pelo dinheiro envolvido. Tirei o primeiro dia para andar Mendoza a pé, e confesso que achei a cidade bem sem graça. O museu principal estava fechado para reforma, as ruínas são bem pequenas, tinha pouca gente na rua, quase nenhuma loja estava aberta (achei até que era feriado, mas depois descobri que era o horário da siesta. Tirando Buenos Aires, nas outras cidades que visitei da Argentina percebi que eles tem um horário comercial que para mim parece bem louco, tipo das 9h às 13h e depois das 17h às 21h). O trânsito é insano - argentinos no geral precisam aprender a usar direito uma tecnologia incrível chamada "semáforo de pedestres", porque o que acontece é que o semáforo dos carros que vem direto fecha, mas os que vem da outra rua em cruzamentos podem dobrar. Em tese a preferencial é do pedestre, na prática você tem que atravessar rezando para não ser atropelada. Se não bastasse isso, Mendoza também tem uns cruzamentos cabulosos que nem semáforo de automóvel tem. Na minha atenção que me é peculiar, tomei uma buzinada e quase fui acertada por um ônibus.
O ponto alto desse primeiro passeio foi o Parque San Martin, que é bonito, mas nem tanto. Sentei e liguei o 3G do celular e me senti culpada - até então eu estava vivendo muito bem sem acesso à internet que não fosse wi-fi; um dos pontos da viagem era desconectar mesmo, e agora lá estavam todos os meus contatos acessíveis a um clique a qualquer minuto, e vice-versa. Todos os problemas distantes podiam me achar e eu podia fugir de todos os problemas ao meu lado. Decidi ficar off - era preciso estar verdadeiramente longe do Brasil a maior parte do tempo para viver a Argentina.
No parque tem um Cerro famoso, e lá fui eu subi-lo a pé. Fiquei meio decepcionada quando o vi, achei baixo. Paguei meu julgamento num trechinho íngreme da subida que me deu pavor na descida, enquanto crianças passavam correndo do meu lado; e lá me cima a vista era mesmo bonita, com todas aquelas montanhas. Mas aí acabou a cidade. Voltei para o hostel e fui pesquisar como chegar no Aconcagua. Vi fotos maravilhosas de gente que tinha feito a excursão. Contei meu dinheiro e fiz umas contas. Ok, dava. Fui obrigada a dar o braço a torcer e pagar por ela, no dia seguinte.
Pensei em usar meu terceiro dia para pegar a excursão mais barata do vinho, que uma australiana de ascendência indiana que estava dividindo quarto comigo disse que era bem legal; mas fui pesquisar os horários do ônibus para ir a Salta, a cidade seguinte, e decobri que se fosse a excursão do vinho meus três dias em Mendoza teriam de se tornar quatro, e eu estava ansiosa para conhecer o norte argentino e não queria passar mais um dia panguando naquela cidade sem graça. Ah, eu já tinha visto as videiras no caminho e bebido muito vinho bom e barato na viagem. Não precisava entrar em vinícola, podia salvar esses pesos.
Fiz questão de dormir cedo aquela noite porque minhas pernas doiam da viagem e da caminhada e teria que acordar antes das 7h e a tal da excursão era o programa mais caro que eu tinha feito até então na viagem. Me irritei um pouco com o barulho da música do hostel, mas logo estava no mundo dos sonhos.
No fim das contas, achei que a excursão valeu cada centavo.
Teve seus contras, claro: Acordar tão cedo e ficar um tempão esperando, porque a van pega todo mundo em seu hotel e isso pra mim é burrice - marcar um local central de encontro permitiria a todos mais tempo de sono. O período que passamos no Parque do Aconcagua - eu passaria fácil fácil umas duas horas só sentada contemplando a montanha, mas pelo cronograma só tinhamos 40 minutos de caminhada.
Apesar disso, foi bem legal: Conheci um moço alemão da mihha idade, e engenheiro mecânico também, que estava estudando espanhol nas férias e ficando numa casa de família e me perguntou qual o meu rolê noturno, porque estava querendo explorar a cidade; um mexicano que estuda vícios no seu doutorado, que provavelmente era a unica pessoa (além dos empresários de ônibus) feliz pelo fato do aeroporto de Mendoza está fechado, porque a universidade estava custeando sua vinda para um congresso e assim ele ganhou passagem para Santiago e pode conhecer não apenas um, mais dois países; um colombiano que estava no meu hostel e fez uma grande propaganda de turismo na colômbia, porque lá tem muitos biomas; e um cara australiano que sentou do meu lado na van com quem eu não troquei nenhuma palavra além de "excuse-me"; mas que, nessas coincidências da vida, eu e o moço alemão encontramos por acaso num bar aquela noite e acabou indo com a gente para a festa mais inusitada da viagem, sobre a qual manterei suspense agora. Confirmei que estudantes são mortos de fome pão-duros independente da nacionalidade, porque a excursão fez uma parada para almoço num restaurante "coma quanto puder", e cara, comemos. Pude também ouvir as fantásticas histórias da guia: o hotel onde se hospedou o Brad Pitt quando gravou "7 anos no Tibete", e onde mulheres se aglomeravam tão intensamente na porta que no fim o moço optou por hospedar-se no quartel; a história da defunta Correa, uma mulher que morreu desidrata ao tentar atravessar os Andes com seu bebê recém-nascido nos braços para encontrar o marido que lutava contra o extermínio promovido pelas elites aos indígenas. O bebê sobreviveu, o que foi considerado um milagre; e até hoje colocam-se garrafas d'água para honrá-la pelas estradas argentinas, de quem ela virou uma espécie de protetora. A história de como o General San Martin e suas tropas cavalgavam de noite, para não serem vistos e manterem o corpo em movimento para não morrerem congelados. O fato do exército argentino ter aporveitado um desabamento para terminar de destruir um hotel que monopolizava umas fontes termais.
E, claro, houve os Andes. Minha surpresa ao ver que as montanhas são feitas de areia compactada, e quem tem cores diferentes de acordo com o mineral que prevalesce. O Aconcagua - que é tão incrível quanto parece. Ou mais. É, acho que mais.
(Em Salta conheci uma fotógrafa britânica - sobre quem falarei mais no próximo post - que disse que não bate fotografias de landscape porque é impossível reproduzir a sensação de estar no local. Acho que ela está certa)
Cheguei ao hostel exausta e quase desisti de sair à noite, mas percebi que o barulho não me deixaria dormir. Bom, se não pode vencê-los, junte-se a eles. Desci do beliche, tomei um banho, pus um vestido, respondi às mensagens do engenheiro alemão, abri um vinho (sim, eu sempre tinha um vinho) e fui socializar com o hostel.
Foi divertido.
Um americano filho de brasileiro veio usar seu português comigo contando que tem vontade de fazer não apenas Belém-Manaus de barco, mas na verdade Belém-Colômbia.
- Eu nem sabia que isso era possível! - Exclamei.
- É. São 15 dias. E é super barato.
Me deu vontade de fazer também.
Um espanhol mostrava uma bastante extensa coletânea de vídeos dele e dos amigos chapados, enquanto contava rindo sobre como maconha era ofensivamente barata na Colômbia e como uma vez eles foram abordados por policiais com uma necessaire lotada de marijuana, e os policiais tiraram a necessaire sem abir e então revistaram a mala minunciosamente.
Umas americanas explicavam que vinham de uma ilha e por isso lá não tinha esquilos, o que causava a outro americano mais interesse e espanto do que as histórias dos becks colombianos.
O americano-brasileiro falou que já tinha ido em festa na Rocinha e que era bem louco, com fogos de artifício e tals.
A recepcionista do hostel ouviu que o papo era sobre música brasileira e tacou uma versão espanhol de "ai se eu te pego", que foi cantada em espanhol pelos hispano-hablantes e me deu crises de riso. Em seguida, tocou "Baile de Favela", que a australiana-indiana que estava dividindo quarto comigo curtiu bastante.
- Eu adoro a batida, mas a letra é nojenta. - Eu disse.
Ela pesquisou no google e levantou as sobrancelhas.
O engenheiro alemão chegou no hostel e todos decidimos ir para a zona de bares. Três dos rapazes - o americano-brasileiro, seu amigo apenas americano e o mexicano dos becks - usavam camisas floridas dignas de fantasia de gringo.
Caminha à zona dos bares e, conforme o esperado, tudo meio caro. Encontramos por acaso o australiano da excursão, que estava bebendo sozinho e se juntou a nós. Andamos de bar em bar, acabamos separando o grupo, e então do nada surgiram duas argentinas que falaram que estavam indo para um festa peronista e perguntaram se a gente queria ir junto.
E eu obviamente quis. Já tinha visto boliches, já tinho visto bares. Agora, festa peronista? Seria a primeira. Vamos nessa!
E assim eu entrei no táxi com mais três estrangeiros que eu tinha conhecido naquele dia (o alemão e o australiano da excursão e uma americana do hostel) seguindo duas argentinas que nós conheciamos há aproximadamente dez minutos, para uma festa de um grupo político sobre o qual eu não conhecia quase nada.
Foi no táxi, explicando o não muito que eu sabia do Perón para a americana (Sabe aquele filme da Madonna, que ela canta "Don´t cry for me Argentina"?), que eu parei pra pensar que talvez - talvez - aquilo estivesse sendo meio louco. E que eu ia dar dinheiro para um grupo político que eu nem conhecia, o que realmente não é algo que eu costume fazer, pelo motivo bastante óbvio de que política é coisa séria. Mas eu já estava no táxi. Ah... vamos nessa.
Chegamos umas 2h na casa onde seria festa, um desses casarões adaptados pra ser recepção. A festa era no quintal, com uma caixa de som e alguém fazendo as honras de DJ e uma luzinhas e balada e bebida sendo vendida num cômodo que deveria ser uma dispensa. Como boa festa argentina, começou a encher depois das 3h. Dividi com o australiano um litro dum drink cujo nome eu não lembro, mas que poderia ser facilmente rebatizado de dor-de-cabeça-com-refrigerante-barato, e fiquei surpresa da americana e do alemão acharem algo tão diferente o que pra mim parecia só mais uma festa de DCE.
- Vocês não tem isso? - Perguntei - Gente jovem tem grupo político, grupo político precisa de dinheiro, gente jovem faz uma festa para se divertir e arrecadar dinheiro pra causa.
- Não! - A americana disse. - Festas políticas são reuniões de gente velha e rica em lugares finos. Eu nunca imaginaria uma festa política assim!
Caramba. E eu que achava que minha geração era apolitizada.
Ou talvez seja só nosso sangue latino encarando a vida.
As músicas estavam bem balada, até que, dada hora, começaram uns hinos peronistas que todo mundo cantou junto. Em São Paulo eu já fui pra festa de coletivo de esquerda que puxou "Fora Temer" no meio da balada; em festa de organização de DCE sempre tem umas palavras de ordem. Quando eu entendo o que está acontecendo eu já fico meio tímida; sem entender só me fez perceber o quanto tudo parece religioso e foi meio assustador. Gritar junto por uma causa faz a gente se sentir forte, mas o quanto do que se grita é pensado e o quanto a gente se deixa levar na emoção? Depois dos hinos, um rapaz pegou o microfone e começou a fazer o que creio que tenha sido uma imitação do Perón, e me chamou muito a atenção o termo "companheiro". Me perguntei se esse é o futuro do Lulismo, meio política e meio seita. Me lembrei que já é meio que o presente. Pensei no quanto eu ainda preciso estudar mais política e lutar por um mundo melhor sem cair num discurso de religião. Deuses não fazem as leis dos homens e não endeusarei gravatas. Mas repito Fora Temer da minha cabeça e pulmões.
Ainda nem tinha amanhecido e eu já estava moída, me senti culpada e então lembrei que tinha acordado 6:15h e já eram quase 5h. Quase 24h direto, ok, eu não sou argentina pra sempre voltar com o sol, posso dormir. Eu e a americana voltamos e os rapazes continuaram.
Coloquei meu celular para despertar às 9h, para café e a cada vez mais difícil arrumação de mala antes do check-out. Acordei bem antes disso com um leve tremor no beliche e uma alta trilha sonora de filme pornô:
- Oh, yeah, fuck! That's so good... fuck, fuck, don't stop, fuck!
Demorei uns instantes pra acreditar. Sério que tinha um casal transando na cama embaixo da minha? Os beliches tinham cortininhas, e, confesso, eu mesma tinha pensado que dava pra transar sem ser visto. Mas eles não faziam a menor questão de não serem ouvidos. Veja bem, já morei em kitnet de paredes finas, já fiquei com moços que moram em república, a gente acaba sabendo quando as pessoas estão transando. Mas num hostel? Com três triliches? Na cama embaixo da minha? Achei que essas coisas só aconteciam em filme. Minhas definições de "dividir intimidade" foram atualizadas, fiquei feliz pelo triliche ser pesadão e não tremer muito, senti um teco de inveja e virei pro lado pra continuar a dormir, o que felizmente foi fácil.
O dia seguinte foi bem normal. Check-out, banho, sorvete com os novos amigos, rodoviária pra comprar a passagem praquela noite, tarde com a australiana-indiana. Almoçamos juntas num local que nos deu de brinde empanadas, que ela não comeu porque não come vaca; e eu me imaginei viajando num local onde me dariam pastéis de cachorro e eu nem reconheceria. Pesado. Conversamos sobre futuro e profissão e amor e me dei conta do quanto eu estava com saudade de conversar mais do que o tradicional o-que-você-faz-há-quanto-tempo-está-viajando. Fiquei bem menos tempo sozinha do que esperava ao longo da minha viagem sozinha, mas chega uma hora que você não sente falta só de pessoas. Você sente falta das pessoas que você conhece, com quem você pode falar dos seus sonhos e planos. Falta de intimidade. A conexão fica mais rápida e fácil na solidão, mas ainda assim não é fácil. E por isso foi gostoso deitar com minha nova amiga na grama de uma pracinha qualquer e falar um pouco que fosse da vida de verdade, que existia além das nossas longas viagens.
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