quarta-feira, 31 de julho de 2019

Sobre a urgente necessidade de não entrar em pânico

No feminismo aprendi a importância de dividir vivências cotidianas e da descoberta de que sofrimentos que eu cria individuais são na verdade fenômenos sociais. Amizades e a certeza de que não estou louca nem exagerando me fortalecem.

No feminismo também aprendi que as trocas de vivência não bastam, e que tem que ser cautelosas. Nem todos os espaços são seguros para denúncias (quase nenhum é), nem todas as pessoas estão preparadas para receber a carga emocional de acolher uma violência (quase nenhum está).

No feminismo aprendi que existem profissionais especializadas(os) em acolhidas; e que sem elas(eles) grupos de vivência correm o risco de virarem depósitos de experiências ruins, de onde se sai pior do que chegou. Eu chamo de "efeito facebook", porque vejo esse tipo de coisa acontecer principalmente no ambiente virtual, e também porque pude perceber o fenômeno com mais clareza ao me afastar um pouco da rede do Zuckenberg: abrimos o espaço e ficamos sabendo de uma vez só de três feminicídios, dois estupros - sendo um de criança - e uma meia dúzia de relacionamentos abusivos. E a primeira vista não temos nada que possamos fazer com isso além de ter mais medo.

Eu luto por um feminismo que me dê coragem, e não medo. Que liberte, e não que aprisione.

Qualquer grupo feminista baseado apenas em denúncias fica pesado e desesperançoso; e pode levantar traumas e culpas.

Assim aprendi que vivências devem sim ser compartilhadas, mas em espaços seguros. Que dores profundas devem ser acolhidas, por profissionais e amigas próximas. E que o feminismo deve ser propositivo e combativo.

(Recentemente li um livro muito bom e simples que recomendo: "Feminismo para os 99% - um manifesto", que discorre sobre pautas de um feminismo realmente revolucionário, por uma sociedade mais justa e não apenas para a representatividade simbólica de uma meia dúzia de executivas "empoderadas".)

Tudo isso só para dizer que hoje me dei conta que o que preciso é levar para o restante dos meus grupos e visões de esquerda esta mesma sabedoria feminista do não se render ao sofrimento. A gente precisa pensar juntos em soluções e não apenas cavucar problemas. A esquerda não pode ser um depósito de notícias ruins. A esquerda tem que ser propositiva e combativa. Pode chorar às vezes se quiser, mas não pode ter vergonha de poesia e vinho e felicidade e principalmente não pode largar os livros e pdfs e grupos e a rua. 

Que pra cada notícia ruim que a gente lê e divulga em rede social a gente gaste uns minutos de auto-formação e pense no que pode fazer pra mudar isso e se organize.

Que a gente reserve um tempo pra ser feliz.

A resistência é feita de ações e abraços.

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