Nesta semana e na semana passada eu pela primeira vez ajudei nas entrevistas de seleção do projeto de educação comunitária no qual dou aulas aqui em Floripa.
(Dar aulas é uma das coisas que mais gosto de fazer na vida, apesar de gostar tão pouco de assistir aulas. Durante um tempo achei que isso fosse uma contradição, até me dar conta que meu problema não era com a aula em si, e sim com toda a estrutura de ensino. Meu cérebro simplesmente não funciona como uma esponja que escuta e absorve, eu sou do tipo que aprende fazendo. E eu acredito na educação enquanto elemento de transformação, e não como elemento de reprodução da sociedade. Uma educação criativa e questionadora. A educação, assim como a ciência e tantas outras coisas, é um espaço a ser ocupado por nós, os que acreditam no diferente.
E obviamente tentar fazer diferente é um desafio. É muito mais fácil vomitar conteúdo. É preciso muito mais tempo para planejar uma aula diferente; é injusto exigir que professores que tem 20 turmas distintas por semana tenham tempo de planejar uma aula diferente. Além disso, aluno não é cobaia. Não se pode negar a eles o direito ao conhecimento acumulado pela humanidade, não se pode negar a eles o acesso à universidade - que, infelizmente, ainda se dá pelo vestibular. Então pensar em aulas aplicadas à realidade e que não sejam meramente conteudistas é sempre lidar com contradições.
E uma delícia. Neste semestre eu dei aula às terças. Toda terça à noite eu chegava a escola exausta. Toda terça à noite eu voltava para casa energizada.
Este parêntese virou um post em si)
No cursinho popular que eu dava aula em Campinas a seleção dos alunos era meramente socioeconômica. Nós sabíamos que eventualmente havia alguns problemas de documentos omitidos, mas aqui em Floripa eles foram além e perceberam que havia um problema de público atingido mesmo. Quando a seleção era apenas por renda per capita, acabava-se privilegiando alunos ainda no ensino médio, que não trabalhavam e ainda moravam com os pais. E obviamente estes alunos tem direito à universidade, todos tem; mas o objetivo maior do projeto é atingir trabalhadores que estão há mais tempo longe da escola. Estas pessoas muitas vezes já tem uma renda "maior" (pouco mais de um até três salários mínimos per capita, isso é o "maior" que costumamos encontrar), mas, devido ao tempo que estão longe da educação formal, tem ainda mais dificuldade com o vestibular e com a educação de uma maneira geral. São estas pessoas que costumamos atingir.
(Em se tratando de critério de admissão de cursinho comunitário eu já vi as mais diversas abordagens. A que mais me irrita é a prova de seleção. Treinar quem já tem facilidade é fácil, o difícil é mudar a realidade das pessoas. Educação popular não é assistencialismo, não é para "salvar um pobre" e dormir bem à noite. É para lutar para transformar a sociedade, acabar com a desigualdade e ampliar o direito à educação.)
Nas entrevistas escutei várias histórias.
Teve o rapaz indígena que contou meio sem jeito que veio da Bahia atrás da namorada, e que sonha em fazer medicina para trabalhar na aldeia.
Teve a menina de 17 anos que já foi presidenta do grêmio e ficou contando sobre as tretas da escola e dos preconceitos dos professores e sobre como achava que era lésbica mas hoje se assumi bi e citou Focault.
Teve a moça lá de Biguaçu que fala igualzinho uma amiga minha e está pensando em começar a vender docinho para morar com uma amiga aqui na ilha e ficar mais fácil de vir estudar.
Teve o rapaz que quer ser programador porque sabe que tem mercado e abriu um sorrisão quando eu contei que sou engenheira.
Teve a outra moça que abandonou a escola porque tinha que trabalhar, foi expulsa de casa pelo namorado da mãe por ser lésbica, vai fazer prova do ENCEJA agora e quer fazer psicologia.
Teve a menina que quer fazer biologia marinha cuja mãe perdeu o emprego mês passado e que fica conversando com a irmã mais velha que já está na faculdade sobre movimento estudantil e feminismo.
Teve a moça que já começou a cursar história em São Paulo, mas não conseguiu se manter na universidade porque tudo era muito caro e agora está morando com uma amiga no sul da ilha, vivendo de bicos e sonhando em ser psicóloga também.
E teve mais gente e mais histórias que se misturam na cabeça e a vontade é sentar e ficar horas ouvindo os causos e abraçando as mágoas e no meio de todos os desmontes que estão sendo feitos pelo governo lutar pela universidade pública de verdade.
No primeiro dia das entrevistas estava tendo também na escola um evento de educação quilombola e eu fiquei assistindo enquanto esperava. Os alunos eram dos morros de Florianópolis e tinham que propor soluções para a comunidade. Tinha projeto de coleta de lixo tecnológico, de reciclagem, de recuperar a cultura africana de plantas comestíveis e medicinais no quintal, de limpeza de áreas, de acessibilidade para pessoas com pouca mobilidade, de vendas entre vizinhos para gerar rede de economia solidária, de rádio comunitária. Todas as ideias estão começando a ser pensadas ainda, mas eles irão em busca de tentar concretizá-las no próximo um ano falando com vereadores e associações e o que mais for necessário. E eu achei tudo tão bonito que quase chorei.
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