sexta-feira, 9 de agosto de 2019

O buquê

Vendia flores na porta do cemitério. E, quando os parentes pranteadores iam embora, as roubava das lápides. Às vezes vendia as mesmas flores três ou quatro vezes - nos dias bons ou ruins, dependendo de quem julgasse. Julgava-se justa, porque as flores serviam a seu propósito de lágrimas e homenagem e adubo, assim como os mortos. Reutilizar as flores era como aquelas campanhas governamentais de doação de órgãos. Reutilizar as flores dos mortos deixava mais flores vivas ou apodrecendo longe de cemitérios, talvez em vasos de enamorados ou festas de casamento ou debutante. Lamentava apenas as flores festivas dos vivos não voltarem tão rapidamente à terra como as flores dos mortos. Quando morrer, deseja virar apenas mato e uma árvore. Uma mangueira frondosa para alimentar passarinhos e os passantes que entendem que não há respeito maior à morte do que aproveitar sua capacidade de apodrecer e então brotar na sétima chuva.

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