quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Dor e dormência

Diziam que a atenção viria com a idade, mas não veio. Por acidente arranhava joelhos e carros e quebrava copos e o próprio coração.
Tinha dificuldades em delimitar limites e fronteiras, foi o que a terapeuta disse.
- Pergunte-se: onde você termina?
- Onde termina o eu? 
A definição padrão vertical vai das solas dos pés aos cabelos.
Depois de muita pensar, concluiu: sinto um pisão no pé e um puxão de cabelo. Sinto dor. E se a capacidade de sentir dor define meus limites, deixo de ser eu nos lugares onde não sinto dor. É assim que não se perde de verdade membros fantasmas ou entes queridos, é assim que os gurus viram unidade com o universo. 
Despertar da dormência, doer como um parto, partir como um todo.

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