quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Escrever está difícil.

Eu sou bolsista de doutorado do CNPq. Eu dediquei os últimos 10 anos da minha vida à minha formação universitária; 13 se considerar que eu comecei e não terminei a biologia. Nos últimos cinco, cultivei o sonho de ingressar como docente nesta que é uma instituição cheia de falhas e defeitos e assim tão desesperadoramente linda, a universidade pública.

Eu literalmente cresci na universidade; porque meu pai era mestrando quando eu nasci e eu tenho várias memórias de brincar em gramados e desenhar na costa de tese. Ele virou professor e as teses-rascunho acompanharam toda a minha jornada escolar: rascunho de redação, cálculos de matemática, treino de vestibular.

Estão tentando destruir a universidade pública, e isso me dói de tantos jeitos que eu nem consigo escrever, Eu tentei me fazer de jornalista e trazer dados; e é fundamental trazer dados, mas a verdade é que minha relação com a universidade é tão pessoal que eu só consigo falar dela como um ente querido.

Eu fico vendo os familiares que votaram "pela família" aplaudirem o fim da universidade pública; e eu tento humanizar o debate com meu rosto, agora que os dados já falharam. Eu tento e não consigo, não consigo, não consigo.

Eu vejo tudo que a universidade pública tem de errado e quero brigar com ela com a raiva e amor de quem briga com a família, a parte da família que não acha que eu sou vagabunda e lamentaria minha morte, real (exagero?) ou a metafórica dos sonhos, tão real quanto a real. Estou mudando meu projeto no terceiro ano de doutorado porque percebi que não acreditava no que fazia, e que se estou lutando por liberdade de cátedra eu tenho mais é que aproveitar a minha. Tenho quatro anos de pré-universitário popular e uma greve estudantil em apoio à cotas nas costas na luta por uma universidade para todas e todos. Eu quero acabar o vestibular e que todas e todos ocupem a universidade e que a universidade ocupe a cidade.

Eu quero que a universidade exista melhor do que existe hoje, e para isso ela precisa ser muito mais pública, e permanecer gratuita, e ter ainda mais qualidade.

Eu quase chorei vários dias por tantos motivos. Nunca tomei remédio para ansiedade, várias vezes senti que estou na cordinha do quase - parada em pânico olhando o nada, travada, sem saber o que fazer, peito apertado, vontade de deitar e me encolher e chorar.

Nos últimos dias as quase lágrimas foram melhores, nos auditórios lotados da UFSC. Vi as estimativas de 5 mil pessoas, acho irreal. 2 mil com certeza. Lá. Juntas. Pela universidade, nossa universidade, universidade que devia ser de todas e todos.

A gente é forte!

Consegui escrever porque vi nossa força. Consegui chorar porque agora posso. Porque houve um respiro. Consigo lutar porque não estou sozinha.  E estamos nos armando de dados e livros e ideias.

Quem não pode com a formiga não atiça o formigueiro.

Nenhum comentário: