Quanto tempo você precisa passar num lugar para começar a de fato morar nele?
Eu não posso passar uma noite na praia sem chamar o hotel, casa de amigo ou barraquinha de "casa". Mais por uma questão de comodidade linguística mesmo; mais fácil dizer "estou em casa", "foi pra casa", "vamos pra casa?" do que qualquer outra coisa.
E agora me dei conta que estou há quase 4 meses em Fargo e ainda não me sinto morando aqui. Durmo aqui, estudo aqui; mas morar? Eu ainda peço permissão para usar as panelas e não sei exatamente como limpar a banheira. E nunca convidei um amigo para me visitar.
Aqui, quando me perguntam de onde do Brasil eu sou, respondo que sou do norte, perto da Amazônia; mas estava morando no sudeste, perto de São Paulo. É, eu moro em Campinas. Quando comecei a de fato morar lá? Saí de Belém no início de 2009, mas mais uma vez não é disso que estou falando. Ainda lembro bem do primeiro final de semana em que me senti totalmente sozinha no mundo; e do primeiro julho, que durou um mês e meio pela epidemia de gripe A e pareceu que Campinas tinha sido um sonho distante. Mas não lembro do dia que acordei e me dei conta que morava ali; da primeira saudade daquele lugar como casa; de quando eu me dei conta que me sentia bem lavando as minhas roupas e sendo responsável pela minha bagunça. Mas quando eu dei por mim, estava explicando para a atendente no telefone:
- É que tenho problemas com correios, aí pedi para mandar para a casa dos meus pais...
A casa dos meus pais. Belém então virou a casa dos meus pais? Não; eu ainda tenho uma cama, um armário, uma estante (e uma irmã que mudou a organização de tudo isso sem me perguntar; e roupas que não são minhas em todo lugar). Mas convenhamos: de verdade verdadeira, por mais que eu me sinta pertencente à cidade e que a cidade seja minha, eu não moro lá. Mas sempre vou chamar de "minha casa"; e a kit continua sendo a "minha kit" para diferenciar. Como meu pai, que até minha vó morrer ligava pra minha mãe e dizia "estou em casa!"; e a minha mãe sempre tentava convencê-lo que não; ele estava na casa da mãe dele. Mas enquanto os pais da minha mãe tiveram uma casa, o quarto dela continuou ali...
E mais uma vez sinto que as palavras do inglês são às vezes mais precisas. Home. Lar não é o mesmo que home; lar é uma palavra chata - meio antiquada, meio formal, meio sentimental de um modo cafona. Home diz o que eu quero dizer. Eu tenho dois deles. E não preciso morar neles para eles serem o que são.
Vim para cá para Fargo sabendo que seriam pouco mais de quatro meses; e esse tempinho curto que na verdade está sendo longo me fez encarar tudo como passageiro; eu passageira dessa minha viagem. E é tudo tão diferente de tudo que não tem como fazer virar meu, não com toda a saudade que eu sinto. E eu gosto daqui, e me divirto, mas não consigo porque não quero morar. Não quero ser deste lugar.
PS: Quase todo mundo conhece São Paulo. Só perde pro Rio; "soccer, Ronaldo, Samba festival". E sim, já me perguntaram se eu já vi muitos animais selvagens. Se bem que aqui só tem esquilo; então as capivaras do bosque de Belém e os macaquinhos da mata da marinha sem dúvida seriam animais selvagens.
PS2: Outra palavra que eu gosto do inglês é o utilíssimo verbo "text". E do modo como as palavras são sempre tão óbvias. Inglês é uma língua simples e honesta.
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