sábado, 16 de abril de 2011

Feminismo, Machismo e Achismo

Não sei se já comentei por aqui, mas na NDSU tem um grupo de estudantes latinos cujos encontros eu vou, sexta-feira sim, sexta-feira não. Os encontros geralmente acontecem no Equity and Diversity Center - um prédio da universidade que parece uma casinha e, como o próprio nome diz, tem por objetivo promover a igualdade de direitos. Há bottons do tipo "É assim que é uma feminista", ou "Amor é amor", escrito em letras coloridas. Hoje, depois de começar a planejar uma festa onde venderemos batatas, estávamos lá. A maioria batendo papo, eu distraída olhando os livros da estante. A sessão de feminismo, para ser mais exata.
Eu sou meio cismada com tudo que tenha um "ismo" no final. Ismo para mim sempre quis dizer várias certezas juntas, e eu costumo ser convicta das minhas indecisões. E gosto demais de ideias isoladas para querer comprá-las em um pacote. Mas a verdade é que feminismo, como a maior parte das coisas com as quais não concordo (e aqui uso "não concordar" não como sinônimo de "discordar", mas apenas no sentido de não abraçar, mesmo. Nem a favor nem contra), é apenas mais um assunto sobre o qual eu nunca tinha pensado direito.
Isso até um simples discurso de uma colega de classe. O discurso foi parte de um trabalho em grupo no qual se discutia gênero, e o qual no geral era bom enquanto trabalho de faculdade, mas não ia muito além da discussão de clichês. Mas então esta garota começou perguntando:
- Quem aqui se considera feminista?
Eu não levantei a mão.
- Hm... - Ela continuou. - E quem acha que homens e mulheres são iguais?
A pergunta foi muito súbita para mim. Iguais? O que exatamente você quer dizer com iguais?
Eu estava sentada na primeira fileira, então não vi quantas pessoas levantaram a mão enquanto a minha continuava inerte.
- Pois sabam que achar que homens e mulheres são iguais é a base do feminismo.
E foi por aí afora, falando daquelas sociedades primitivas curiosas que os sociólogos adoram, cujos papeis tradicionais de homem e mulher estão invertidos. E a pergunta rodando na minha cabeça: você acha que homens e mulheres são iguais?
Iguais. Primeiro me veio a mente a questão da anatomia, pênis-vagina. A biologia. Eu cursei dois anos de Biologia, então eu realmente acredito na influência biológica no nosso comportamento - claro que o homem é um bicho social, mas até que ponto?
Aliás, pausa. O homem é um bicho social. Há várias pessoas que não gostam do homem na frase atrás - a masculinização da humanidade contida nisso. Aquel@s que escrevem assim, para tirar a mulher de dentro dos parenteses do(a). A primeira vez que eu vi uma frase assim eu achei interessante, mas logo se tornou chato. Primeiro por um motivo muito besta: como raios você lê esse @? Eu Já Me Agonio Com Frases Onde Todas As Palavras Começam Com Letras Maiúsculas Porque Parece Que Você Está Sempre Fazendo Pausas. Segundo porque, apesar de sempre assassinar a gramática voluntária ou involuntáriamente, eu sou apaixonada pela minha língua, e não gostei dess@ invasor@. Terceiro porque eu nunca me senti desvalorizada por ser um ser humano. E quarto porque essa escrita vem frequentemente associada a panfletos de extrema esquerda com os quais eu não concordo, ou porque são de grupos que promovem ações muito radicais ou porque são de grupos que apenas reclamam e não fazem nada.
(Em tempo: não são tod@s que escrevem assim que tem essa postura ruim, não é toda esquerda que tem essa postura ruim. Estou expondo generalizações da minha cabeça. Este é -mais- um post cheio dos meus muitas vezes errados achismos)
Mas voltando. Quais são as diferenças reais entre homens e mulheres? E o que é biológico, e o que é social? Mulheres fazem compras e homens gostam de futebol. Social besta. Homens são melhores em matemática e mulheres são melhores em comunicação. Mito? Eu sou uma garota na engenharia, e não há muitas de nós. E eu gosto muito de números, mas a minha visão espacial é bem ruinzinha e para mim é muito claro que meu cérebro é linguístico - eu penso em palavras. Quando tenho que aprender um caminho novo, faço uma narração mental; quando tenho que lembrar de um caminho antigo, sinto-me desligando à força uma parte do meu cérebro para fazer a outra pegar no tranco, deixando minhas pernas ou o volante trabalharem enquanto eu tento não criar histórinhas.
Mas ei. Essa sou eu. E isso foi algo que eu sempre tive muito claro na minha cabeça: minhas virtudes e limitações são minhas. Como indíviduo, eu sou um péssimo espaço amostral. Existem garotas com uma visão espacial muito boa. Minha Roomie brasileira, por exemplo. Dentre os melhores alunos da minha turma há garotas, do mesmo jeito que há garotas que são as melhores em muitos outras áreas das exatas e muitos homens que se destacam nas letras. Aí entra a parte bonita da coisa, quando eu entendi finalmente o que quer dizer igualdade: quer dizer que todo mundo é diferente, e que todo mundo deve poder fazer o que gostar e o que quiser. E é irrelevante se a maioria das mulheres é isso ou a maioria dos homens é aquilo, porque igualdade diz respeito a indivíduos. Então sim: eu acredito que homens e mulheres são, ou pelo menos deveriam realmente ser, iguais.
Isso quer dizer que eu sou feminista? Eu sempre me achei uma mocinha bastante independente, mas ao pensar em feminismo o que me vinha a cabeça era  algo meio antigo, sabe? Quem ainda quer queimar sutiãs? 
Aí eu decidi que tinha que entender o que era afinal o feminismo. Então, meio por acaso, eu descobri o Blogueiras Feministas. É um blog mantido por várias mulheres que fala de diversos aspectos da valorização da mulher, de literatura água com açucar a violência doméstica. Tenho lido vários textos de lá. Algumas coisas das quais discordo, muitos achismos. Mas o que são ideias, se não achismos? Acho que aprendi algumas coisas e tenho pensado bastante a respeito de outras. E finalmente concluí que sim, que sou feminista. Porque, como disse a minha colega de classe, feminismo quer dizer igualdade. E liberdade.
Eu costumava pensar em machismo como algo de país totalitarista. Claro, tem o machismo nosso de cada dia também, mas eu o via como coisa menor, detalhe... Agora vejo que não é. Fiquei meio escandalizada ao perceber machismo em mim, neste blog até - por exemplo: por que eu pedi desculpas ao falar de absorventes? (Mais uma pausa no texto: o post sobre cantadas que escrevi há alguns dias atrás nasceu de pensamentos dessa linha, porque em um dos posts do Blogueiras Feministas uma garota fala que há dominação nas cantadas masculinas. Li o post-resposta do acusado, que apesar de tudo pareceu uma pessoa razoavelmente razoável enquanto a blogueira realmente fez comentário feios, e fiquei pensando o que eu realmente achava sobre cantadas.).
Não gosto de pensar na "sociedade opressora", porque parece uma massa uniforme que ela não é. Além do que torna tudo mais difícil: como você vai lutar contra a Sociedade? Mas você sempre pode mudar a si mesmo, e uma meia duzia de pessoas a seu redor. Sempre pode reclamar de injustiças a seu lado.
E depois de pensar em tudo isso, e com muitos outros pensamentos que renderiam outros posts (este mesmo poderia ser dividido em vários), eu decidi que precisava escrever a respeito. Só ainda não tinha encontrado o tom. O que me leva de volta a cena inicial do post, hoje, no Equity and Diversity Center, na frente da prateleira, olhando os livros feministas:
Um cara com que eu conversei poucas vezes se aproximou para puxar papo. Um pouco mais velho do que eu, creio que aluno de pós-graduação.
- O que você estuda? - Ele me perguntou na apresentação habitual, e seguiu no tradicional clichê de "nossa, não tem muitas garotas na engenharia, né?". Até aí, tudo bem. Mas aí ele continuou:
- A maioria das mulheres geralmente não faz cursos tão difíceis. Escolhe cursos mais fáceis, como artes, ou mesmo negócios... Aí elas se casam com um engenheiro para ele sustentar a família.
Olhei para ele, incrédula. Não era piada, nem brincadeira. A gente nem se conhecia, e essa era a ideia que ele tinha de um papo casual entre estranhos. Era sério.
- A pressão social para caras arranjarem empregos mais sérios é maior, porque eles tem que sustentar a família. Já as mulheres não se preocupam tanto, porque no fundo elas sabem que o marido vai sustentá-las. Homens tem que ser engenheiros ou médicos, mulheres vão ser enfermeiras... Mulheres vão ser psicólogas, mas homens tem que ser psiquiatras.
Eu pensei em ficar calada. Eu nem conhecia ele e geralmente só me dou ao trabalho de discutir com as pessoas com quem eu me importo.
Mas eu simplesmente não podia.
- Não é bem assim... Muitas mulheres trabalham para sustentar a família. Muitas mulheres querem trabalhar para sustentar a família. Não querem depender dos maridos. Mesmo porque, se o casamento acaba, como é que fica? Tem muitas garotas no meu ano na engenharia. Minha mãe e médica e trabalhou muito para me criar. E eu definitivamente não quero depender do meu marido!
- Não precisa se irritar comigo...
- Ah, me desculpa. Mas eu realmente não gosto de ouvir esse tipo de coisa. "Ah, não precisa se preocupar, seu namorado vai te sustentar". "Está indo bem nas provas? É porque o professor está pegando leve com você, por ser mulher". "Está indo mal? É porque garotas não levam mesmo jeito". Detesto todas essas coisas.
- Não precisa ficar com raiva! Eu não quero brigar com você, só estou dizendo com as coisas são. A pressão é maior para os homens.
Nisso chegou uma amiga em comum, e ele disse para ela, rindo:
- Ela está irritada comigo!
- O que você disse? - Minha amiga perguntou, desconfiada.
- Que eu acho muito bom o mundo estar mudando e as mulheres poderem escolher o que querem.
- Não foi isso que você disse - Argumentei.
- O que ele disse?
- Que as mulheres geralmente escolhem profissões piores, porque sabem que vão ser sustentadas pelos maridos.
Minha amiga olhou feio.
- Eu não disse isso! Você acha que eu diria isso? - Perguntou para a minha amiga - Eu só disse que a pressão para os homens terem um trabalho sério é maior... Eu acho muito bom as mulheres poderem escolherem o que quiserem.
E ele repetiu os exemplos dos médicos e falou de pais que forçavam os filhos a serem engenheiros enquanto as filhas podiam pintar. E eu lembrei de uma amiga que ouviu da mãe "o que você vai fazer com um diploma de Letras, além de morrer de fome?" e de uma amiga de faculdade de da minha mãe que na formatura  da Medicina entregou o canudo para o pai dizendo "o que você queria" e no ano seguinte foi cursar História. E também de um amigo que ouviu da mãe que morreria de fome fazendo Biologia. E pensei que se de onde esse cara tinha vindo a pressão era realmente maior para os homens, a culpa deles serem vítimas era do machismo também. O machismo enquanto instituição social, sim; mas o machismo de todos eles, o machismo desse rapaz de vinte e tantos anos que estava fazendo pós graduação e achava que o papel da mulher era ser linda e sustentada. E não me arrependi de ter falado.
- Você tem que aprender a expor suas opiniões - disse a ele minha amiga.
- Certo, vou mudar de assunto. Não vou mais falar de trabalho. Mas uma coisa que eu realmente acho que quem tem que fazer é a mulher é cozinhar.
Aí eu perdi toda a minha paciência argumentativa e fiquei calada ouvindo ele falar de comida, enquanto pensava no meu pai e no meu namorado, e no pai do meu namorado na cozinha.
- Eu adoro arroz com mariscos! - Ele disse.
- Meu pai faz um excelente arroz com mariscos - É verdade e eu não pude evitar falar.
- É, hoje tem homem que cozinha melhor que mulher...
E ele continuou falando, e eu na minha.
- Não briga comigo - ele disse.
- Eu não briguei com você.
- Amigos? - Me estendeu a mão.
- Sim. - Apertei.
- Eu não estava brigando.Mas você quer que eu minta ou que te diga o que realmente penso?
- Você pode dizer o que quiser. Aí eu também posso responder o que quiser.
Ele me olhou com aquela cara de quem olha para a moça brava:
- Você me odeia?
Eu ri.
- Eu nem te conheço! Por que eu vou te odiar?
E a noite continuou normalmente, e eu devo a este episódio este post. Fomos à Pink House  e eu fui conversar com outros amigos. De longe vi o rapaz fazendo comentários desagradáveis com outras pessoas, e me perguntei se esse é o estilo dele, e se é intencional ou involuntário. De qualquer forma, foi um lembrete que  machismo nosso de cada dia está por aí. E que eu não tenho porque abaixar a cabeça e fingir que é normal.

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