segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Sinal digital

Eu não assisto TV. 
Foi minha mãe que me deu minha TV de presente numa visita, e eu fiquei foi brava porque era um presente caro e eu não assisto TV.
Eu não assisto TV. Só de manhã, quando eu acordo, eu gosto de ouvir o Jornal do Brasil sentada no sofá enquanto tomo café. Eu moro a três mil quilômetros da minha família, com dois ex-desconhecidos. A Faísca, a gata da casa, geralmente pula no meu colo durante o café; e o Comancha, o cachorro que é proibido de entrar, deita no meu pé na sala. Eu não assisto TV, mas quando eu assisto TV tomando café com os bichinhos eu me sinto mais perto dos meus pais. 
A globo apoiou a ditadura, a globo apoia o golpe, a globo tem a minha memória afetiva do barulho de fundo que me irrita quando visito os meus pais e isso me acolhe. Deve ser alguma síndrome relacionada à de Estocolmo; isso de ter esse afeto por algo ruim.
Eu não assisto TV. Eu também não leio livros, então a verdade é que não sei o que faço dos meus dias.
Eu não assisto TV, mas, agora que desligaram o sinal analógico, corri para comprar uma antena digital para poder continuar sem assistir TV.

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