Há uma romantização de doença mental. É por isso que soa bonito eu dizer que ele é feito de silêncio. Eu, por outro lado, sou como uma janela batendo ao vento, e a beleza do dizer que ele é feito de silêncio faz eu me sentir ainda mais inadequada.
Ele fala com o cachorro e a gata, mas não responde meu bom dia.
O cara mora comigo, mas não me dá bom dia.
"Ele tem depressão", me disse o primo dele, quando eu me mudei para a casa dos dois. E antes que eu me apercebesse lá estava eu, mais dedos que caixa de luvas, como a família que o trata como se estivesse ameaçando se jogar da ponte.
O primo é ótimo, mas nunca está em casa. Viaja o tempo todo a trabalho. Então ficamos só eu e o rapaz feito de silêncio.
Ele circula a casa para não entrar no cômodo em que estou. Às vezes estou na cozinha e o percebo cercando, como um bicho acuado querendo entrar. Então saio. Outras vezes eu chego em casa faminta e quem está comendo é ele; e depois de alguns constrangimentos de tentar ficar no mesmo cômodo eu só decido que não estou com tanta fome, eu decido esperar. Eu me sinto intrusa na minha própria casa. Falo para o primo por whatsapp, ele responde que ele é assim mesmo. Tento entender que o rapaz de silêncio não me odeia, ou pelo menos não me odeia mais do que odeia o restante da humanidade.
Eu adoro a casa. Fica há poucos minutos a pé da avenida beira-mar, e eu vejo todo dia aquele azul, verde, cinza ou marrom. Eu me mudei para Florianópolis pelo mar e agora sei que ele muda de cor. A casa tem um cachorro e uma gata e galinhas. Eu já tenho a minha cachorra, e as pessoas falam que ela é preguiçosa; mas eu percebo o como ela está melhor tendo um quintal. Eu adoro o outro cachorro e dou banho nele e levo para passear junto com a minha, vendo o mar. É uma das coisas que mais gosto de fazer na vida. Eu sou a louca dos dogs, mas me apaixonei pela gatinha muito rápido; ela pula no meu colo e ronrona. Moro com um rapaz feito de silêncio e outro que não mora na casa. Moro com os bichos.
Eu já morava sozinha há dois anos quando vim para Florianópolis, mas era diferente. Em Campinas a vizinha era uma das minhas melhores amigas e todo dia eu chegava e batia na janela dela, para dois dedos de prosa como duas comadres interioranas. Além disso, eu tinha mais amigos. Eu não me sentia sozinha o tempo todo, e minha cachorra tinha o quintal. Nos meses que morei só em Floripa a cachorra teve que se acostumar com rotina de sair do apartamento para fazer xixi, e eu tinha que pegar o carro se quisesse ver o mar. Conheci alguns vizinhos, mas não conectamos - eu não sei que botão aperta, foi tão fácil em Barão... Sei que as despesas do ap solo estavam consumindo metade da minha bolsa e a solidão me comia pelas beiradas; então decidi que queria morar com gente. Morar sozinha era caríssimo, mas o principal motivo pelo qual me mudei foi porque queria morar com gente.
No anúncio da casa eles diziam que tinham uma horta. Eu nunca soube cuidar bem de planta, eu já matei duas violetas. Depois de algumas desilusões amorosas eu comprei quatro cactos; eu precisava provar pra mim mesma que dava conta de manter algum ser vivo. Eu dizia que eram uma banda: o maior era o cactão, e as pequenas floridas eram as cactinhas. Eu pensei que ia ser bem legal morar com gente que tem uma horta, que eles iam poder me ensinar como se faz.
O rapaz de silêncio é quem cuida da horta, e ele não fala comigo. Temos couve e cebolinha, mas eu compro no mercado, porque não me sinto a vontade em mexer em nada que é cuidado pelo rapaz de silêncio, não quando ele não responde meus bom dia.
Nos dias em que o primo fica em casa, ele chama alguns amigos. Chego em casa e eles estão na sala conversando. Sento e converso também. Damos risadas. Dada hora, o primo se dá conta que o rapaz de silêncio está trancado no quarto ao lado da sala. Mudamos as conversas para o quintal, para não incomodar o rapaz de silêncio.
Noutro dia, a família do rapaz de silêncio e do primo vem visitar a casa. Fazem um almoço. O rapaz de silêncio brinca com o sobrinho bebê e sorri, e eu não entendo como pode ser o mesmo rapaz que não responde quando eu dou bom dia e dá voltas na casa para não ficar no mesmo cômodo que eu. A irmã e o sobrinho vão embora e o rapaz de silêncio se tranca novamente no quarto, mesmo o restante da família ainda estando na casa.
Meu namorado vem me visitar. O primo estava em casa só no primeiro dia; eles conversaram e meu namorado o adorou. Todos o adoram, a conversa com ele no primeiro dia foi uma das coisas que me fez decidir que queria morar na casa.
- O rapaz de silêncio não está? - Perguntou meu namorado na frente da porta do dito-cujo.
- Está. Ele é só é... na dele. - Respondo. O rapaz de silêncio realmente se esforça pra ser invisível, trancado de janelas fechadas mesmo no verão. Mas, para mim, isso apenas torna a sua existência mais concreta. Quando ele sai, deixa a porta do quarto aberta, e eu sinto uma mudança no ar da casa, uma circulação de energia. Com ele trancado é como se o ar estancasse e ficasse pesado como pedra, e todas as coisas ficassem cinzas. E eu, que sou uma janela batendo ao vento, paro; não suavemente, mas num baque daqueles que a gente se desculpa.
Digo para meu namorado que o rapaz de silêncio tem depressão. Meu namorado diz que ele não deve estar tão ruim. Ele cuida das plantinhas, isso é coisa de gente feliz. Meu namorado passa cinco dias na casa. Num deles, tem um vislumbre das costas do rapaz de silêncio.
O rapaz de silêncio viaja, e me manda longas mensagens no whatsapp com instruções de como cuidar sozinha da casa. Nós dividimos uma parede.
O rapaz de silêncio nunca é rude, mas ele não responde quando eu dou bom dia, manda mensagens por whatsapp em vez de falar comigo e dá voltas na casa para não ficar no mesmo cômodo que eu.
Por que o rapaz de silêncio me incomoda tanto?
Um dia chego em casa, coloco minha roupa pra lavar e vou brincar com o cachorro. Quando vou checar a máquina, ela está desligada. Nossa máquina de lavar é bem velha e usá-la dá quase tanto trabalho quanto lavar roupa na mão, porque temos que pular ciclos manualmente e parar para colocar amaciante. Achei que fosse o caso e achei que o rapaz feito de silêncio tivesse sido gentil. Coloco amaciante, ligo a máquina e vou jantar. O rapaz de silêncio sai do quarto, passa por mim, tira a máquina da tomada e diz:
- Não pode usar a máquina. Tem que economizar água. Vou consertar a caixa d'água amanhã.
E se tranca no quarto de novo.
O rapaz de silêncio desligou minha máquina de lavar duas vezes antes de falar comigo uma mensagem mais curta que um e-mail.
O rapaz de silêncio decide coisas para a casa e não avisa.
Bato na porta do rapaz de silêncio no dia seguinte. Peço para ele me comunicar das alterações na casa. Ele começa a mandar mais menagens de whatsapp.
Morar com o rapaz de silêncio é como morar com um caseiro que não dá bom dia.
Uma amiga vem me visitar. Disse que estava precisando fugir de Campinas, estava numa fase de pensamentos ruins. Havia passado a noite na ala de emergência do hospital psiquiátrico há alguns meses atrás e só foi liberada quando outra amiga foi buscar.
- Esse menino é autista. - Ela me fala, sobre o rapaz de silêncio. - Ele não olha no olho! E já trocou a toalha de rosto do banheiro duas vezes desde que eu cheguei. Faz eu me sentir culpada, me perguntando se estou usando muito a toalha de rosto.
O rapaz de silêncio é extremamente limpo. Nunca temos louça suja e eu estou o tempo todo tentando não incomodar com a minha sujeira e barulho e vida.
Vem as férias. Viajo. Por whastsapp, o rapaz de silêncio beira a simpatia.
Volto para a casa, ele não me dá bom dia.
Minha família vem me visitar. No primeiro dia, o rapaz de silêncio fica fugindo da minha irmã pela casa. No segundo dia ele viaja. Quando retorna ficam ele e meu pai sozinhos na casa, e me divirto com a ideia - meu pai é daquelas pessoas que conversam como respiram, seria ele capaz de vencer o silêncio?
Não foi.
- Ele é mal educado. - Disse o meu pai.
- Ele tem depressão. - Eu respondo.
Meu pai fica mais brando. Vamos para a cidade da minha irmã, para o aniversário dela. Um amigo depressivo está na festa. Curiosamente, ele dá bom dia para todas as pessoas, assim como a minha amiga que passou a noite no hospital psiquiátrico e todos os outros depressivos que eu conheço.
Quando minha família vai embora eu me sinto mais só do que o normal, e a presença do rapaz de silêncio parece o fantasma dos meus fracassos de vida em sociedade, fechando portas sem emitir ruídos.
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