"Mas por que o Paraguai?", todo mundo no Brasil me perguntava; e eu explicava que meu projeto de mestrado é parte de uma cooperação internacional entre Brasil, Paraguai e França, que meu coorientador é paraguio e que o equipamento que eu vou usar calhou de estar no Paraguai. Geralmente nessa hora meu interlocutor dizia "que droga heim, por que não França?"; e eu meio que concordava, porque né, é difícil fugir do fetiche eurocêntrico. Por outro lado, achava uma falha grave na minha vida já ter ido até a Coreia e não conhecer nenhum país da América do Sul além do Brasil. Estava curiosa pra conhecer o Paraguai e comecei a me despir de preconceitos - se me irrita ouvir que no Brasil só tem macaco, por que eu vou dizer que no Paragui só tem muamba?
Cheguei à noite, e estava bem quente. A primeira coisa que me chamou atenção foram alguns outdoors de boas-vindas bilingues. Eu não sabia, mas o Paraguai é o único país da América Latina que tem, além do espanhol, um idioma indígena como língua oficial - o guarani. É algo bem recente; me disseram que o guarani virou oficial em 1992. Na época da ditadura o guarani era mal-visto; depois se assumiu que era o idioma mais falado no interior (se não o único) e resolveu-se assumi-lo. Basicamente todo mundo sabe falar guarani, as pessoas misturam guarani e espanhol na mesma conversa. Em Asunción se fala mais espanhol.
Meu coorientador buscou eu e meu amigo no aeroporto e nos deixou em uma pousada simples porém confortável paga pela universidade. Ignorei um fio de cabelo comprido embaixo do travesseiro (lembrando que meu cabelo é curto) e aproveitei a camona de casal - mal eu sabia que muito em breve teria problemas com camas...
Na manhã seguinte, tomei café (minha meta de redução de consumo de itens de origem animal foi suspensa quando ganhei um pãozinho na chapa com queijo e presunto e uma caneca de café com leite; com o passar da semana percebi que paraguaios são bem carnívoros. A quantidade de carne em qualquer prato é enorme, e salada, embora exista, não é acompanhamento padrão) e fui andar um pouco pelas redondezas. Cara de cidade interiorana; achei que era porque era bairro afastado do centro, depois descobri que não. Asunción é bem arborizada, tem poucos prédios, muitos carros antigos e alguns ônibus que mais se parecem peças de peça de museu (e outros com ar-condicionado, mil vezes melhores que os de Campinas ou Belém. Ah, a passagem de ônibus aqui reduziu o preço, vejam só). No meu primeiro dia, me assustei com o assédio - sem exagero, uns 90% dos carros que passavam buzinaram pra mim. Teve caminhão diminuindo velocidade pra me assediar. No Brasil eu tento responder sempre - mandar babaca ir à merda é um ato político - mas eu estava sozinha em outro país e fiquei com um pouco de medo. Felizmente a situação melhorou nos dias seguintes, com o número de fiu-fiu ficando equivalente ao Brasil. O sonho é que isso acabe.
Voltei pra pousada, conversei um pouco com a dona (estudei espanhol por três anos na adolescência; tenho um certificado. Isso foi há mais de uma década e não é muito útil esfregar certificados na cara das pessoas. Estou tentando desenferrujar o tal do espanhol e me virando num portuñol bem cara-dura. Com um pouco - ou muito - de esforço e boa vontade dos dois lados, a gente se entende) e brinquei com o cachorro dela, que sentou no meu colo sem cerimônias. Gente com cachorro sempre ganha meu coração.
Então meu coorientador chegou e foi a hora de ir em busca de apartamento para eu e meu amigo ficarmos. O plano inicial era nos hospedar na casa do professor universitário da Universidad Nacional de Asuncion (UNA), mas lá não estava em condições de nos receber. Apesar do nome, boa parte da UNA não fica em Asuncion. A Faculdad de Ingeneria (e outras) estão em uma cidade -satélite, San Lorenzo. Meu coorientador achou que seria melhor a gente ficar no centro de Asuncion mesmo, porque lá tem mais opções do que fazer. Começamos então a peregrinação. O primeiro apartamento que visitamos parecia cenário de filme de terror: escuro, cheiro de mofo, apenas um cômodo, apenas uma janela, móveis de uma madeira escura antiga e um carpete verde que eu não entendo em que momento pareceu uma boa ideia em um país tropical. Eu e meu amigo trocamos olhares de "vamos-pegar-um-avião-de-volta". Depois visitamos um apart-hotel. Opções estéticas questionáveis, mas pelo menos era limpo e claro. Queriam nos deixar em um único quarto, o que não nos parecia confortável para seis semanas. Almoçamos em uma Bellini, uma rede de fast-food igual ao Spolleto, e depois entramos em um McDonalds para usar wi-fi e procurar mais opções de aps. Acabamos achando opções em San Lorenzo mesmo, e optamos por ir para lá. Um dos lugares só poderia ser mostrado no dia seguinte e o outro não atendia; então fomos conhecer a UNA.
(Eu adoro conhecer universidades, e sempre que vejo uma nova que me encanta penso que é isso mesmo que eu quero pra minha vida - essa troca de ideias, esse ambiente com horários incomuns e experiências lindas. Sou filha de professor universitário, cresci desenhando no verso de teses e me apaixonei, o que eu posso fazer...)
A UNA é linda! Toda feita de tijolinhos marrom-avermelhados, cheia de árvores e ambientes abertos, com aluns grafites na parte de arquitetura e com a molecada tomando tererê em todo canto (que nem em toda Asuncion. Acho que se bebe mais tererê que água; é vendido em todo lugar). Tem churrasqueira! Tem mangueira carregada e, paraense que sou, estou até agora pensando em como pegar aquelas mangas! Senti falta das propagandas de festas e dos cartazes anunciando toda e qualquer coisa, mas me senti muito bem lá. Eles não tem bandejão, então o auxílio alimentação que estou recebendo está sendo muito útil. Só fiquei me perguntando se há algum programa de permanência estudantil. Aqui todos tem que pagar uma taxa de matrícula e vários cursos tem uma pequena mensalidade em universidades públicas. Em vez de vestibular, os candidatos a calouros tem um mês de aulas, e depois fazem provas sobre os assuntos dessas aulas. Vi propagandas de cursinhos. Há também universidades particulares, bem mais caras, mas as públicas são melhores. No centro da cidade, vi pixações por uma educação pública, gratuita e de qualidade.
Ao fim do primeiro dia paraguaio, meu coorientador sugeriu eu e meu amigo dormirmos na casa dele, para evitar o trânsito e a longa viagem até o hotel. Topamos. Assim a noite acabou conversa com ele e a esposa e pizza e cerveja paraguaia e no filme 7 cajas, que se passa no mercadão de Asunción. Acho que não são muitas pessoas que podem dizer que dormiram num colchão na sala do coorientador. Me deu vontade de abrir minha casa no Brasil pra couchsurfing.
Começamos o segundo dia paraguaio indo ver mais um apartamento, esse em San Lorenzo. Terceiro andar de um prédio com cara de antigo, bonitinho e sem elevador. Dois quartos, um banheiro, sala, cozinha, lavanderia. Cara de casa de vó, com várias imagens de santos, móveis de madeira, sofá com estampa florida, parede azulzinha clara. Eu gostei. Meu amigo nem tanto. Acabaram as opções. Fechamos e, depois da limpeza, nos mudamos. Eu me diverti mexendo nas tranqueiras deixadas pelos antigos moradores: livros escolares de guarani. Um porta-guardanapo escrito "Strawberries, the most popular fruit in the world" (como meu apelido de faculdade é Morango, me senti acolhida). Uma nota de mil guaranis (tipo uma nota de um real). Um cartão de visita de um investigador de polícia. Eu adoro lugares com história!
Nesse dia também fomos ao supermercado, comprar "itens de sobrevivência". Até então, como mil guaranis valem uns R$0,70, eu estava com a impressão que o país inteiro estava com 30% de desconto pra mim. No supermercado, vi que estava bem enganada. Muitas coisas são importadas do Brasil ou da Argentina, então ficam mais caras, mesmo com a conversão. Mas comer na rua e pegar ônibus é mais barato (no shopping uma refeição fica em torno de GR 25000, e os ônibus são GR 2100 sem ar e GR 3200 com ar).
O apartamento é mobiliado e tem dois quartos: o do casal (com a cama de casal) e o das crianças (com um beliche). Sorteamos e fiquei com o das crianças. Atendendo a pedidos, mandei foto da cama para a minha mãe, que disse que eu não cabia ali. "Imagina, claro que caibo!", respondi. "É impressão pela foto". Na hora de dormir, desmontei a parte de cima do beliche, coloquei um colchão fininho sobre o outro e deitei. "É", pensei, "Não é uma cama de casal, mas acho que vou ficar bem". Estava meio dormindo meio acordada quando... clack! A cama desmontou. É, desmontou. Fiquei alguns instantes deitada torta, me perguntando se resolveria aquilo na hora ou esperaria o dia seguinte... Mas levantei. Liguei a luz, coloquei os colchões no chão e vi que a parte do meio do estrado estava segura por um barbante. Sério, um barbante. Ok para crianças de 20kg, não ok para uma moça de mais de 80kg. Bom, paciência, quando morei numa república vivi três meses sem cama, já dormi muito no chão na minha vida. Então agora a mobília do meu quarto são um ventilador de teto, dois guarda-roupas, dois colchões de solteiro um em cima do outro no chão e um beliche desmontado.
O dia seguinte seria nosso primeiro dia funcional, indo ao laboratório e tudo. Mas amanheceu um dilúvio. É época de chuvas, e o clima parece o de Belém - muito quente e úmido; sol de rachar e tempestades sem aviso. Ficamos sabendo que faltou luz no lab. Então brincamos que estávamos em retiro espiritual - sem internet em casa, sem luz, sem nada. No fim da tarde, já sem chuva, me deu desespero de estar trancada em casa o dia todo e eu e meu amigo fomos andar sem rumo para conhecer as redondezas. Fomos parar em uma praça tinha um carro de polícia, e o guarda chamou a gente. Da série "experiências novas": eu nunca tinha tomado dura da polícia na vida. O cara pediu documento, perguntou o que a gente tava fazendo ali umas trocentas vezes, abriu nossas carteiras, virou minha bolsa do avesso, cheirou a mão do meu amigo. Disse que ali era ponto de marijuana. Fomos liberados com a nossa cara de brasileños perdidos e dizendo que não voltariamos mais ali. Terminamos a noite tomando cerveja em casa, porque afinal drogas legalizadas não fazem mal.
(Ah, aqui a idade mínima pra beber é 20 anos, e propaganda de cigarro é liberada e o aviso que fumar é prejudicial a saúse são só palavras bem pequenininhas)
Quinta-feira finalmente acabaram as aventuras de instalação. E as histórias seguintes ficam para o próximo post :)




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