A temperatura tem passado dos 40°C dia sim, dia também - já vi termômetro marcando 45°C às 18h. No Paraguai ar-condicionado não é artigo de luxo e sim item de sobrevivência, como calefação nos lugares onde a temperatura fica abaixo de zero. Toda casa tem. Nunca tomei tanta água nem tanto banho e estou com marcas de regata e mochila nos ombros.
Quinta-feira 23h faltou luz no meu apartamento. A temperatura devia estar beirando os tais 40°C. Sem luz, sem ar, sem ventilador, sem condições de dormir. Eu e meu amigo resolvemos abrir as cervejas da geladeira. Papo vai, papo vem, luz não volta; eram quase 2h quando enfim o sono venceu.
Acordei um pouco depois das 7h, com sol na cara e celular descarregado. Ainda não tinha luz no ap, mas eu tinha que ir à universidade fazer uns experimentos. Minha surpresa ao sair de casa foi ver que havia guardas de trânsito nos cruzamentos da avenida, porque os semáforos não estavam funcionando e não havia luz em lugar nenhum. Desde que cheguei aqui já vi mais picos de luz do que consigo contar, mas geralmente são coisas setoriais e mais rápidas. Começou a bater o "ué..."
2,5km de caminhada, chego à universidade, e nada de luz. Eita. E agora? Me dou conta que posso carregar meu celular no notebook e faço isso; aí descubro que além de não ter energia, não tenho sinal de celular e muito menos internet. Sento e espero; meu amigo chega, meu orientador chega; ficamos os três sentados esperando quem ia nos acompanhar nos experimentos, incomunicáveis e sem saber o que fazer. Chega então outro rapaz que trabalha no lab e nos dá a boa nova: devido à onda de calor, o consumo de energia de San Lorenzo (a cidade-satélite de Asunción onde estou morando e onde fica a universidade) aumentou muito, sobrecarregou um transformador da sub-estação e ele pegou fogo. Aparentemente de alguma maneira isso afetou também a torre da Tigo, a empresa de telefonia. Não havia previsão de restabelecimento dos serviços. Uau.
Ele tinha ido à universidade só pra desligar os disjuntores do lab e proteger os equipamentos de eventuais oscilações de energia. Acabou conseguindo contactar meu coorientador no telefone (outra operadora, que sorte) e decidimos que iriamos trabalhar no hotel onde meu orientador estava ficando (diferente de mim, ele só passou uma semana em Asunción; e sexta era justamente o último dia e o objetivo era acompanhar os tais dos experimentos impossibilitados pela segunda vez na semana por queda de energia. Da primeira vez fomos discutir dados de simulações numéricas no meu apartamento; dessa vez isso não foi possível). Pegamos um ônibus, chegamos ao hotel, pedimos permissão pra usar o restaurante como escritório e ficamos lá trabalhando em coisas que poderiam ser feitas em qualquer lugar do mundo. Eventualmente meu coorientador chegou e trouxe mais boas novas: o transformador que queimou interrompeu a luz da cidade inteira, e a previsão de restabelecimento era 5 dias. CINCO. DIAS.
- Isso é uma semana inteira! - Falei, chocada. - É um sexto do período que a gente tá passando aqui!
Meu coorientador começou um sequência de telefonemas em busca de um lugar onde a gente pudesse trabalhar ao longo dos dias sem luz na universidade. Eu me imaginei cinco dias incomunicável no calor e no escuro e tive um acesso de pânico e fui ver preço de passagem pra casa.
- Quero saber se o presidente da empresa de energia está sem luz. - Resmunguei.
- Uma cidade satélite da capital cinco dias sem luz! Isso é pra bater panela! - Disse meu amigo.
- Bater panela? Isso é pra incendiar ônibus! - Respondi. - Vai estragar tudo na geladeira, não vai dar pra dormir direito, não vai dar pra fazer nada direito...
- Vamos deixar vocês nesse hotel - disse meu coorientador., depois dos telefonemas infinitos - E tem um colégio técnico da UNA em Luque, vamos trabalhar lá.
- Certo...
- Ah não, não tem vaga nesse hotel hoje.
- A gente tava combinando de dormir na casa da minha amiga hoje, a gente fica bem.
- Certo, vocês entram amanhã aqui.
Durante a tarde, teve pico de luz no hotel. E eu fui ficando nervosa. Eu e meu amigo pegamos o ônibus pra casa às 18h, pra fazer nossas malas ainda no claro. Era pra ser um percurso de meia hora. Começou a ser um percurso muito estranho. Perguntamos. Descobrimos que estávamos no ônibus errado. Os ônibus dessa cidade não tem uma lógica que eu entenda; vários tem o mesmo nome e cor, mas um numerozinho escondido revela que os percursos são distintos. Desde que cheguei aqui, vou a todo lugar com o Waze ligado. Meu celular estava sem bateria. Foi batendo o desespero. Onde diabos a gente tava e como ia chegar no ap? O plano era descer em um lugar movimentado e ir em busca de um táxi, mas o ônibus entrava em ruas cada vez menores e mais esburacadas. Pânico. Era o fim do mundo. Pedimos informações; uma senhora só faltou nos levar pela mão para o lugar certo. As pessoas são gentis no apocalipse.
Foram mais 2 ônibus, uma hora e meia e muitas perguntas até chegarmos em casa. Ônibus velhos, sem ar, lotados. 40°C. Eu só queria um banho. Abri a torneira pra lavar a mão, e não tinha água. Gritei uma série de palavrões e quase cai no choro.
Estava escuro. Eu estava nojentamente suada. Fiquei só de top e arrumei minha mala tateando o guarda-roupa. Meu amigo ainda tinha um resto de bateria e conseguiu sinal pra ligar pra nossa amiga, que pediu pro irmão dela nos dar carona. As pessoas são gentis no apocalipse. Jogamos tudo de geladeira fora; estava tudo encharcado de gelo derretido e já ficando com aparência ruim. Os vizinhos desciam com malas. Os guardas de trânsito já tinham ido embora e os cruzamentos estavam caóticos, com as pessoas fugindo da cidade. Era realmente o fim do mundo. Consegui tomar um banho na casa da minha amiga 23h, e só então relaxei um pouco e lembrei que estava morrendo de fome.
.Desabei de sexta pra sábado. Ontem e hoje pelo menos foram dias mais tranquilos. E segundo as notícias a luz já foi restabelecida. Fiquei sabendo que aqui as empresas dão prazos grandes para garantir que conseguirão cumprir.
Aparentemente algo do tipo nunca tinha acontecido. Apocalipse em San Lorenzo, eu fui. Devo ser pé frio.
domingo, 21 de fevereiro de 2016
Memórias do apocalipse
Rabiscado por
Marina
às
21:56
Temática(s): Intercâmbio
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2 comentários:
Adoro seus textos! Originais, verdadeiros, analíticos ( como todos nós de exatas), objetivos e envolventes!! Fã de RISCOS NO GUARDANAPO! Bjs princesa!
Excelente Marinoca!! Muito legal. Incentivo pra quem quer escrever e não tem coragem. Escrever é um pouco como tirar a roupa (em púlblico). Até que você se dá conta de que quem está nu é o rei. Parabéns, manda ver. Fã instantâneo. Beijo.
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