segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Sobre meu carnaval no Paraguai

Semana passada teve o que creio que foi o momento mais difícil da minha estadia paraguaia: a sexta-feira de carnaval. Aqui até tem algumas escolas de samba - coisa pequena. Mas nem é feriado (!) e meu coração carnavalesco pertence a blocos de rua. Eu estava psicologicamente preparada para não abrir facebook nem instagram nem nada, para fugir do recalque; aí meu estômago, acostumado que é a pagar pelos meus pecados, resolveu que, se não entra bebida barata ao som de marchinha, não fica nada dentro. Na verdade ainda não descobri quem foi o culpado - a suspeita maior está em uma supostamente inocente sopa feita em casa - mas eu tive uma intoxicação alimentar das piores, com febre e tudo, e a hipocondria do "é isso, que bosta, vou morrer no Paraguai sexta-feira de carnaval, putz, puta trampo vai ser repatriar meu corpo". A sorte n°1 foi que não é a primeira vez que eu tenho infecção alimentar viajando sozinha (pode-se chamar isso de sorte?), então eu sabia que se não tivesse febre eu só precisava colocar tudo pra fora, descansar, tomar muita água e algo com sal e glicose. A sorte n°2 é que minha tpm geralmente envolve uma dorzinha de cabeça chata (eu estou com uma noção meio deturpada de sorte, não?) e por isso eu sempre tenho dipirona na bolsa, que foi o que eu tomei quando veio a febre. Fato é que não escrevo de outro plano, então sobrevivi. Daí ficam minhas primeiras dicas de viagem deste post: 1) ter uma farmacinha ultra-básica em mãos é super útil; 2) Não, você não vai morrer de infecção alimentar nem de gripe, e é bem pouco provável que você tenha contraído uma doença rara ainda não-catalogada. Mas fica de olho e sempre saiba onde achar um serviço de saúde (no meu caso eu tinha o contato do irmão do meu coorientador, médico), porque de fato ia ser uma decepção pra tua mãe te perder.

Sábado eu já acordei mais bem disposta, e decidida a conhecer os pontos turísticos da cidade. Fiquei decepcionada que o Moovit não funciona aqui (aliás, dica de viagem: 3)Instale o Moovit. É um aplicativo de transporte público que me salvou no Rio de Janeiro. Ninguém sabia me dar informação porque as rotas tinham mudados recentemente. O Moovit garantiu que eu não perdesse meu avião de volta. Essa dica não vale pra Asunción, mas vale pra vida), e fui perguntar pro Google como chegar no centro. No fim das contas, consegui fazendo sinal pro ônibus e perguntando "¿vai al centro?" e acompanhando a rota no Waze (Aqui cabe um parêntese elogioso - os paraguaios são super gentis dando informações).

Os pontos turísticos de Asunción estão bem próximos um dos outros, e essa é a parte do post em que eu coloco minhas fotos para ilustrar o passeio (e assim começamos a campanha: Marina, compre uma câmera decente e pare de postar essas fotos de celular com resolução ruim).

Palacio de Lopez, sede do governo





Panteón de Los Heroes - onde estão vários heróis da Guerra do Paraguai. Atualmente fechado para reforma.



Catedral Nacional de Asunción - estava fechada, foto só da fachada


Avenida Costanera - orla do Rio Paraguai, e o ponto que mais gostei. O que eu posso fazer se gosto de água?



Olhando agora as fotos ficaram até bonitas, mas no dia deu um quê de desespero. Era sábado de carnaval e não havia carnaval, e eu estava recuperando de uma infecção alimentar depois de uma semana onde até parada pela policia eu fui, em uma cidade onde eu tinha visto quase tudo que supostamente se havia para ver numa tarde. Eu e meu amigo sentamos na beira do rio e nos olhamos meio em pânico. O que seria da gente nas cinco semanas que ainda faltavam? Resolvi que era hora de apelar. Uma amiga minha de Campinas tinha me dito que tinha uma amiga que morava em Asunción. Eu morro de vergonha de incomodar os outros, mas respirei fundo e mandei a mensagem pedindo o contato. E qual não foi a minha surpresa quando a menina veio falar comigo antes mesmo de eu contactá-la! Meu celular descarregou e só consegui responder a mensagem de noite, em casa, exausta pelo sol e caminhada e dia quase sem conseguir comer. Marcamos de nos conhecer no dia seguinte.

Meu domingo começou lavando roupa como minha vó fazia, à mão num tanque, porque no apartamento não tem máquina de lavar nem lavanderia por perto. Nunca tinha feito isso na vida e devo dizer que estou surpresa de ver que não tira pedaço e que as minhas roupas ficam mais cheirosinhas do que no normal lavar na máquina. Fica também mais uma dica de viagem: 4) Se vai para um lugar quente, leve só roupas leves. Não ocupam espaço na mala, são mais confortáveis e fáceis de lavar. Nunca fiquei tão feliz de não usar jeans.

Daí depois desse início de dia, meu pai me ligou:

- Marina, o que tem pra fazer aí? - perguntou, depois de me contar como o carnaval estava sendo maravilhoso.

- Nada. - Respondi, emburrada, tomando café deitada no sofá.

- Pode parar! - Ele brigou. - Sempre tem algo pra fazer nos lugares. E se não tem, é onde as pessoas são mais legais, porque elas tem que fazer o lugar. Em lugar muito movimentado, as vezes as pessoas vivem só pro lugar. E hoje você pode visitar esses lugares pelo google. Eu quero ver você conversar com seu amigo num boteco por skype! Pois trata já de parar de reclamar e sai pra conhecer gente!

Foi o melhor conselho do dia. À tarde fomos eu e meu amigo encontrar a amiga da minha amiga no shopping. Paraguaia que fez graduação Unicamp, simpática e falante de tudo. E de repente passeio de shopping virou o melhor passeio da vida. Conversamos um monte, rimos um monte, e ela nos falou milhões de coisas sobre o Paraguai e fizemos um milhão de planos. Depois do shopping fomos comer numa confeitaria famosa, a Bolsi, onde comemos sopa paraguaia (um tipo de bolo de milho com queijo paraguaio, que é tipo queijo minas - segundo ela, uma das lendas é que o nome da sopa é esse porque foi uma sopa indígena que deu errado. Super me identifiquei com os dotes culinários e método de resolução de problemas nativos), chipa-guazu (outro tipo de bolo de milho com queijo), coxinha (que chama coxinha mesmo e é muito gostosa, mas de um jeito diferente, com mais massa); e rimos do fato do tiozão do Natal ter chegado ao Paraguai, como pode ser averiguado na foto postada abaixo:

O tiozão do Natal chegou ao Paraguai

Sopa paraguaia (atrás) e chipa guazu (na frente)

Era noite do Superbowl, e aparentemente os paraguaios curtem, porque havia rua fechada (mas não paramos pra assistir, então não vi o show da diva maravilhosa Beyonce ao vivo). Foi legal andar no centro à noite, ver o movimento - a adolescentada com bebida barata, as pessoas sentadas nos bares, essas coisas que clima (absurdamente) quente proporciona. Esperamos o ônibus por mais de 1h, das 22h às 23h e pouco, mas ele não veio. Desistimos, e a noite acabou aproveitando promoção de drinks em um Friday's e indo dormir na casa da nossa amiga nova. Então o post acaba com a dica mais importante de todas: 5) Conheça um nativo. Não há modo melhor de aproveitar o que uma cidade tem a oferecer. E não tem porque ter vergonha de falar com amigo do amigo do amigo - o pior que acontece é tomar um não, que você já tem...

No dia seguinte, trabalhando na segunda de carnaval. até curti todas as fotos das pessoas se divertindo nos bloquinhos no Brasil.

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