segunda-feira, 4 de junho de 2018

Sobre 3% e as ditas pautas identitárias

Final de semana passado maratonei a segunda temporada de 3% (que sim, tem umas falhas de roteiro e umas partes cansativas; mas no geral é uma série que me agrada, gosto de distopias). Diversão despretensiosa, nenhuma das problemáticas é muito aprofundada (e eu nem queria aprofundar muita problemáticas naquele sábado); mas o que eu pensei foi que a série é um retrato de como não podemos nos focar apenas em pautas identitárias. 
Explico:
Quem me conhece sabe o quanto me irrita o discurso da esquerda que usa pós modernismo como xingamento; como se o feminismo e o movimento negro fossem os maiores inimigos da revolução socialista. Ser contra reformas é privilégio de quem não precisa delas - muito fácil ser contra cota estando dentro da universidade e dizer que representatividade é inútil quando sempre se reconheceu em todas as mídias; muito fácil acusar setores de divisionistas quando as "pautas padrão" sempre foram as suas. Entender que reformas às vezes mascaram o problema e não o resolvem não implica em ser contra elas, implica em querer aprofundar o discurso e buscar novas ações. Se não a esquerda radical chega, ainda que tomando o caminho oposto, no mesmo lugar da direita: que diz que não se deve dar o peixe e sim ensinar a pescar. O desafio é como encarar reformas como meio e não como fim; dialogar para que todos estejam cientes que, mesmo que hoje haja peixes, a fome, nesse sistema, está sempre em torno.
O fato das opressões de gênero e raça serem pilares de sustentação do capitalismo (que precisa de trabalho doméstico gratuito e pobres para trabalhar por quase nada) não quer dizer que o fim do capitalismo automaticamente acaba com todas as outras opressões. Todas as histórias de horror que sempre se escuta do interior movimentos sociais - do esquerdomacho estuprador à mulher negra que curiosamente nunca era ouvida - são a prova disso. Por isso movimentos identitários são importantes, para fortalecer e dar voz. Fora que servem de porta de entrada para movimentos sociais em geral (eu por exemplo adentrei nas pautas de esquerda pelas portas do feminismo).
Onde 3% entra nessa história toda? Bom, apesar de socialmente distópica, na série há uma utopia de gênero, raça e orientação sexual. Há negros e negras, mulheres, homossexuais e trans ocupando posição de destaque tanto na parte rica quanto na parte pobre do mundo (e devo confessar que isso é algo que me agrada bastante na série). É como se dissesse: acabar com o capitalismo não vai acabar com as opressões? Pois bem, acabar com as opressões também não vai acabar com as desigualdades.
(Aliás, algo que me irritou particularmente na série é que em momento nenhum é mostrado as pessoas da parte pobre trabalhando. De onde vem as coisas que são consumidas na parte rica? São produzidas todas à base de tecnologia? Ninguém comenta sobre essa má utilização de recursos então, e achei que isso colabora para tudo ser menos crível - sabe-se que há pobreza porque diz-se que há pobreza, mas ela não é exatamente vista. Exploração do trabalho é um marcador muito forte de desigualdade no mundo real, e uma distopia que não aborda esse tópico perde muita discussão possível - e a graça das distopias está justamente nas discussões!)
Qual então o caminho? Eu não sei, mas sei que passa por não individualizar responsabilidades, por unir forças e ir à luta.

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