segunda-feira, 28 de maio de 2018

Sobre assistir à greve dos caminhoneiros

Do alto de meu posto observacional de opiniões com meu achômetro bem calibrado, o que mais me chama a atenção é pensar em todos os desperdícios da cidade.
Os carros estão com menos combustível, os ônibus com horário de sábado, vários serviços reduzidos. E ninguém morreu.
Tenho até assistido mais os jornais na TV. Eles falam horrorizados da morte dos animais de corte - esses animais que deveriam viver algum tempinho a mais nas situações horríveis em que vivem para ganhar peso e virarem meu almoço. O moço da TV está horrorizado que esses bichos podem morrer, como se eles não fossem ser mortos logo. Entendo que a crítica é à perda de uma mercadoria; mas acharia mais honesto se essa mercadoria não fosse só agora tão oportunamente tornada viva. Viver bicho de abate vive em fazenda; em granja ou outros lugares do gênero eles meramente existem.
Outro dia o moço da TV foi no SERASA de Floripa, mostrou que o vendedor de abacaxi estava sem nenhum porque os abacaxis vem do nordeste. Até uns 15 dias atrás o que eu via em todos os cantos de Florianópolis eram goiabas apodrecendo no chão aos montes. Não que eu ache que pessoas do sul nunca devem comer abacaxis; o que eu fico pensando é como a gente acha que o lugar natural das frutas é o supermercado. As cidades são feitas para serem dependentes de longas distâncias, e eu fiquei encantada semana passada porque coloquei os caules das cebolinhas que comprei na feira em um vidro d'água e a cebolinha está crescendo. Faço críticas porque sou menina de apartamento e queria saber mais da vida.
Os caminhões pararam, tem menos carros e ônibus, a cidade está com ritmo reduzido, e eu me pergunto se esse não devia ser seu ritmo. Naqueles países nórdicos - os mesmos que poluem a Amazônia para manter sua neve assim tão límpida e pura e branca - a jornada de trabalho já foi reduzida. Eu acredito do fundo do meu coração que daqui há algumas décadas as pessoas ficarão horrorizadas de saber que tínhamos jornadas de 44h de trabalho semanais, como ficamos ao ler sobre as jornadas do início da revolução industrial.
Inútil. Há tanto trabalho inútil.

(Além disso, o que eu vejo nessa greve é o verde-amarelo de junho de 2013, a massa sem liderança com exigência concreta e absolutamente justificada, porém "apolítica", com grande potencial de cooptação pela direita. Depois do impeachment da Dilma, eu não duvido de mais nada, e por isso tenho receios de perda de liberdades políticas. Estou quase viciada, fazendo maratona informacional. Meu namorado diz que é besteira minha, porque a internet é esse mar de desinformação; eu, por outro lado, acho que, como não vou às estradas, tenho como única arma saber de antemão as posições ideológicas das informações às quais tenho acesso.)

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