segunda-feira, 11 de junho de 2018

Um pouco sobre fazer ciência no Brasil

Os tons dos comentários foram bem diferentes, mas havia coisas comum. Reviwer número 1 recusou meu paper fazendo críticas construtivas, disse que meu trabalho deveria ir para uma high level conference, e que eu deveria fazer experimentos para comprovar meu modelo computacional, porque só comparar com os experimentos da literatura não bastavam. Reviwer número 2 aceitou o paper, mas sugeriu fortemente  que eu fizesse experimentos para comprovar meu modelo computacional. Reviwer número 3 recusou meu trabalho dizendo que ele não era inovador o suficiente e que na melhor das hipóteses deveria ser reduzido e apresentado como short comunication, mas ainda assim com cautela; e que eu deveria apresentar experimentos para comprovar meu modelo computacional.

E eu só consegui pensar que parece que é fácil assim: oi, acordei, vou fazer experimentos.

Trabalho experimental é complicado por definição: é difícil montar e configurar bancada, as coisas não saem como esperado. Mas acontece que comigo o buraco foi bem mais embaixo. Não fiz experimentos porque meus reagentes demoraram meses para chegar, e eu tive que lidar com um pedido que chegou errado e o vendedor ficava me chamando de "meu anjo". Não tinha as máquinas necessárias na minha universidade (Unicamp, que é em vários ranks internacionais a melhor do país, olha só) e eu fui até o Paraguai fazer experimentos em máquinas doadas por um laboratório francês, e não consegui porque faltava luz toda semana e teve uma vez que além de luz faltou água e internet por três dias seguidos porque uma torre de transmissão pegou fogo e afetou o sistema todo e eu e meu amigo que pesquisava comigo tivemos que ir dormir em um hotel do outro lado da cidade porque parecia cena de apocalipse, no escuro. E para coroar nesse hotel eu fui assediada pelo dono quando eu estava tomando café, "brasileiras são sexys blablabla".

E no fim eu nem fiquei chateada pelos reviwers, eu fiquei foi com raiva da gente ficar aqui no Brasil lambendo saco de gringo, fazendo a ciência nos moldes deles, salami science, fator de impacto. Quando eu decidi ser engenheira, eu acreditava no potencial transformador da tecnologia. Hoje eu sei que de nada adianta investir em tecnologia nova se a gente não mudar o modo como se relaciona com a tecnologia atual. Eu sei que o problema não é a engenharia, mas o sistema; e isso angustia. Os trabalhos que a gente faz na universidade são ou mão de obra barata para grandes indústrias ou ideias lindas a serem engavetadas. Eu trabalho com combustíveis renováveis, e repito: poderíamos fazer veículos movidos a bons pensamentos e de nada adianta se continuarmos com nosso padrão de consumo, com cultura do automóvel, sem investimento em transporte público. Não dá para culpabilizar o indivíduo que mora longe do trabalho, teria que pegar 3 ônibus e junta uma grana para ter um carro. Mas dá para culpar as grandes indústrias, os investimentos governamentais.

Eu fico profundamente frustrada de fazer ciência com dinheiro público para brigar para publicar paper em inglês em revista paga com tanto problema na minha porta. Honestamente eu não me importaria se meu trabalho não fosse lido na Alemanha ou sei lá o quê. Eu só queria fazer algo útil. Não consegui fazer os experimentos que os reviwers queriam por problemas estruturais, mas acho que há uma lista bastante extensa de problemas mais relevantes do que esse. Precisamos urgentemente decolonizar as ciências exatas, mas eu não faço ideia de como começar.

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