segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Histórias de Dorinha

Dorinha é minha vó de criação e às vezes me conta as memórias da Amazônia que as pessoas imaginam quando digo em São Paulo que sou de Belém. 
Moraram em várias cidades do Baixo Amazonas.
Ela atava a rede bem alto porque tinha medo de onça. Houve aquela vez que um pai levou seu filho para acompanhar na caçada e o menino sumiu. Todos os homens foram atrás, até acharem e matarem uma onça. No estômago do bicho estavam o restos das roupas e os ossos.
Disse-me que não se pode passar ferro em dia de tempestade. Naquele tempo, quando chovia, se cobriam com lençóis os espelhos, pra não atrair raio. Uma mulher não seguiu a recomendação e morreu eletrocutada, passando. Ela tinha muitos filhos pequenos, e é sabido que mãe de criança, quando morre, volta para visitar a cria. Dorinha e uma amiga roubavam cajus da casa da defunta, e ela a viu, visagem embaixo duma árvore.
- Corre, ela tá ali! - Disse para a amiga.
- Não estou vendo nada! - A amiga respondeu.
Dorinha correu. Tem medo de assombração. E até hoje, em dia de chuva prefere sair amarrotada.
O marido da mãe eletrocutada era um cara muito bruto. A filha adolescente dele engravidou de um peão de fazenda, e ele a puxou pelos cabelos e os cortou com um terçado. Depois forçou-a a casar.
Contou também a história da mulher que abriu a barriga do marido com uma faca:
- Ele batia muito nela. Um dia, chegou bêbado em casa e a puxou pelos cabelos. Quando ia bater a cabeça dela na mesa, ela alcançou o facão. As tripas foram para todos os lados.
Minha vó estava grávida e teve desejo de laranja. Meu avô foi buscar, eram dois dias de barco. Ficaram na casa só Dorinha, minha vó e um tio avô, que na época era criança. Estavam com medo de dormirem sozinhos. A mulher que matou o marido passou, e vovó a convidou para passar a noite.
- Mas ela matou o marido! - Disse a criança. - O que pode fazer com a gente?
Ninguém dormiu, com medo; e recusaram quando ela se ofereceu para fazer companhia no dia seguinte.
Pensei que naquele tempo não era fácil ser mulher, e me perguntei se meu cabelinho curto não é um método de defesa ancestral.

3 comentários:

Unknown disse...

Marina, a Dorinha tem muito orguho de vc e da Livia...vcs não poderiam ter saído mais a cara dela...um grande beijo de quem te admira muito

Artemísia disse...

dorinha era uma mulher fantástica.

Nairton Oliveira Costa disse...

Mulher guerreira, eu à conhecia desde quando eu era criança, saudades da Dorinha