O que pode dar ruim numa cidade de praia com flor no nome?
Foi o que eu me perguntei, quando decidi que mudaria de cidade; e levo a pergunta comigo, junto com o mochilão, a coragem e a ansiedade - esta última, minha bagagem mais pesada e difícil de carregar, e olha que meu mochilão é bem vagabundo e não prático. A ansiedade está há meses me cutucando que nem criança perguntando se a gente já chegou. Embarco apenas de quinta pra sexta; mas ela há tempos me tomou, território - o começo é sempre o estômago, meu vodu de coração, revirado do avesso como metáfora da vida ansiada e temida, carta de tarot; depois vem a cabeça engenheira tentando racionalizar; e por fim os dedos, minhas palavras sempre soam melhor se saem dos dedos.
O que pode dar ruim numa cidade de praia com flor no nome?
Tudo o que conheço de Floripa é uma tarde de passagem quando eu tinha 15 anos, mas todo mundo fala tão bem que eu acho bom que seja bom mesmo. Tem mar, nenhuma cidade com mar pode ser tão ruim, tenho um litoral no meu nome e sempre soube que nasci pra morar perto do mar. Tem bairro universitário; passei os últimos oito anos da minha vida em bairro universitário e no fim a Terra do Nunca me agrada. Disseram que o trânsito é caótico, mas poderei me locomover de bicicleta, meu meio de transporte favorito. Todo mundo conhece alguém que mora lá e diz que pode me apresentar, e dentre meus aprendizados de viagens e mudanças está a cara dura de falar com desconhecidos.
Duas amigas doutorandas de engenharia mecânica na Unicamp disseram que eu vou ser muito feliz, porque noutro dia um rapaz de Floripa apareceu em Campinas pedindo doutorado:
- Ma, sabe quando a pessoa não se encaixa no lugar? Todo surfista, bronzeado e dourado. Contou dum dia que um vento lá fez as ondas ficarem boas e eles pararam o experimento e foram surfar. Cê tá entendendo? O menino tinha luz e a gente tão cinza; me deu vontade de mandar ele fugir antes da Unicamp sugar a vida dele.
Noutra ocasião:
- Você vai amar Florianópolis, sou apaixonado por aquela cidade! - Me disse um rapaz que eu queria era que tivesse dito que era apaixonado por mim.
Meu amigo bruxo que passou um ano mochilando a América do Sul me disse que em Floripa tem o pior tipo de hippie, aquele que diz que você precisa se harmonizar e pergunta por que você tem um macbook:
- Eu sou designer, eu preciso de um macbook! - Disse ele, apertando um dos colares místicos que traz sobre a camisa florida comprada em brechó.
Minha prima que morou no Uruguai disse que o problema é que os hippies são argentinos:
- Eu amo a Argentina, mas...
Eu vou anotando tudo na memória; meus ouvidos de colecionadora de causos fazendo um estoque de sobrevivência. Vou construindo uma Floripa de histórias na cabeça enquanto consulto o mapa e os classificados em busca de uma casa que aceite minha cadela gigante:
- Pode ser mais difícil viajar com cachorro, mas é também critério de corte. Quem não aceita o cachorro certamente é menos legal que o pessoal que aceita, então a Vivi vai te levar pra morar num lugar bom. - me disse meu primo que viajou o Brasil com uma cadela pegando carona com caminhoneiro. Eu concordo.
- Sei que vou conhecer gente legal. É meu super poder. - Digo à amiga que fez eu me dar conta do meu estranho dom de materializar na minha frente as pessoas que quero ou preciso encontrar. Já aconteceu vezes demais para ser encarado como coincidência; na hora exata em esquinas onde nenhum de nós precisava passar.
- Mas você vai chegar lá numa sexta? Vai fazer o que no fim de semana? - Perguntou meu pai, e abro meu sorriso de quem sabe se divertir. E no fim sei que vai dar tudo absolutamente certo e terrivelmente errado, alternadamente ou até ao mesmo tempo, porque bem, é a vida, seja lá onde for; e no meu caso será numa cidade de praia que tem no nome "flor".
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