sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Não sou obrigada

Uma das minhas metas nesse 2015 é ser mais simpática. 2013 e 2014 foram anos nos quais eu ouvi muita (mas muita mesmo!) estupidez machista, especialmente no meu meio profissional; e isso zerou minha paciência de tal forma que eu estava com preguiça de conhecer gente nova na engenharia -o que também não é uma atitude nada louvável. Se eu sou contra pelotões de fuzilamento, acredito na bondade das pessoas e não gosto de almoçar sozinha, estava na hora de vestir um sorriso e dar os ouvidos a tapa. Mesmo porque eu tenho boxs amigxs (e até paixões) na engenharia; e achar que não encontraria mais ninguém razoável era, na melhor das hipóteses, pessimismo (e na real era preconceito mesmo).
Comecei a me desarmar lá pelo meio do segundo semestre do ano passado, e acho que o resultado no geral tem sido agradável - bons lembretes de que as pessoas tem nuances e ninguém precisa concordar em tudo; basta não prejudicar ninguém. Então embora eu colecione conversas horrendas (tipo a vez em que um rapaz - super gentil e prestativo, digo antes de tudo - concordou comigo que de fato a mulher sempre se fode mais em caso de gravidez não planejada e disse que "se ela que se fode mais, ela que tem que se proteger"), tenho também algumas risadas, pontos em comum inesperados e até uma vitoriazinha bem de leve ("Eu sou contra casamento gay porque acho que é errado. Mas nunca tinha pensado nessas questões legais de herança e tal, então talvez eu deva pensar melhor..."). Eu estou mudando de ideia o tempo todo, já falei e ainda falo muita merda; não tenho porque crucificar o coleguinha que pensa diferente.
O problema é quando o coleguinha me ofende.
Eu tenho um amigo gay que está num trabalho novo e veio contar meio chocado os comentários homofóbicos que tem ouvido. "Eu acho que eles não sacaram que eu sou gay", ele disse. Eu acho que nada justifica homofobia, mas acho que essas pessoas ficariam absolutamente consternadas se soubessem que estão falando essas coisas na frente de um gay ("eu, homofóbico? Imagina, tenho até amigos gays, e..."). O fato de eu ser mulher, por outro lado, está bem claro para todo mundo, acho eu. E o fato de eu ser paraense é algo que eu divulgo rápido, até para dar uma chance das pessoas guardarem sua xenofobia para mais tarde. Então eu não entendo porque os caras não tem vergonha de falar na minha frente coisas do tipo:
- Fulana é linda, conseguiu o emprego porque era mulher. Sabe como é, pra mulher é tudo mais fácil.
(O emprego era em engenharia, não um concurso de miss)
Ou:
- O mais engraçado da academia é ver mulher falando mal uma da outra, sabe como é mulher.
Ou:
- Fui pra Belém e achei tudo escroto, a comida é nojenta.
Ouvi essas três frases no intervalo de uma semana. Três almoços. 3.
Eu não sou obrigada. Olha, eu juro que eu sou legal, mas você está sendo um completo idiota comigo.
Na primeira conversa eu não consegui responder nada e no dia seguinte preferi almoçar sozinha. Gastei também algum tempo da minha vida pesquisando dados sobre desigualdade salarial (porque não há nada como dados para deixar de ser "a feminazi dando piti"), fiz post no facebook (mas eu não tenho os envolvidos no facebook...) e fiquei me remoendo. Uma amiga minha disse que eu deveria chocar. E se acontecer de novo, eu vou mesmo:
- É, pra mulher é tudo mais fácil, mesmo. Sabe a galera da Comvest? Dei pra todo mundo. Os professores da graduação? Esfreguei minha boceta na cara de cada um deles. Dei pros meus gestores da empresa também, e pro meu orientador... Se você tiver algo pra me oferecer, eu chupo você.
A segunda e a terceira conversa foram em outro almoço, quando eu tinha decidido voltar a tentar (pessoas tem nuances, me calar não resolve nada, etc). A segunda eu mais uma vez não tive pique de rebater ("Que bom que só mulher que fala mal, né?" teria sido uma excelente resposta); a terceira o cara foi levando adiante e eu cortei dizendo que não gostava desse tipo de brincadeira e que ia ser grossa, o que seria desnecessário; e ele disse que eu tinha entendido errado (sempre...) e que eu não precisava me estressar.
Ainda estou almoçando com esse pessoal. Ainda estou tentando ser simpática. E ainda estou esperando um comentário machista pra rebater. Não acho os caras sejam inerentemente ruins. Mas sei que mereço respeito.

PS: Eu de fato tive várias vantagens na vida, como classe social. Não me ofenderia se falassem isso. O que me ofende é que só escuto que tiro vantagem de ser mulher, o que não é verdade - e geralmente quem fala essas coisas compartilha dos meus privilégios de classe...

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