1
Em um dia chato do ano passado, resmunguei para a minha vizinha:
- Até as libélulas encontraram companhia nessa semana e eu não.
- Hã?
- Minha kitnet foi invadida por duas libélulas copulando.
Ela caiu na risada.
- "Copulando".
- É, qual o problema do termo?
- Nenhum. Ah, Marina, dizem que é sinal de boa sorte.
- Duas libélulas fazerem de meu lar seu ninho de amor?
- Não, libélulas só.
- Então é sorte em dobro.
Resolvi rir, porque nem eu me aguento mal-humorada. Certo, sorte. E ainda lembrei daquela música "Façamos... vamos amar..."
2
Hoje a história foi um pouco mais comprida.
Estava falando ao telefone com a minha mãe quando a Vivi passou por mim com um pássaro na boca.
- AI MEU DEUS LARGA ISSO MÃE TE LIGO DEPOIS!!!
A Vivi já pegou carcaça de pombo na rua. Nojento. Também já cheguei em casa e me deparei com dois cadáveres de passarinho no jardim. Mas cadáveres na minha cama seria a primeira vez, e eu não estava disposta a deixar.
Ela já tinha pulado na cama.
- LARGA LARGA LARGAAAAA
Largou, sem entender meu escarcéu. Largou em cima da cama, claro.
Peguei um saco na cozinha para recolher os restos fúnebres. Me aproximei do bicho meio enojada, mas tinha que ser feito...
E nisso o pássaro se mexeu.
Pois não era ainda um cadáver, afinal.
Ai meu Deus.
Eu tinha um passarinho agonizante na minha cama. O que eu faria com ele? Ele provavelmente não sobreviveria... Desejei que a Vivi tivesse terminado o trabalho, para ele sofrer menos. Onde eu deixaria o pobre passarinho? Do lado da minha casa tem um terreno baldio; eu o abandonaria lá para a dor de suas últimas horas?
Me aproximei mais para pegá-lo, e o passarinho agonizante voou desengonçadamente para um cantinho no outro lado do quarto.
Talvez não estivesse tão agonizante, afinal. Coloquei a Vivi pra fora e voltei para recolhê-lo e levar sem dó ao terreno baldio.
Mas cadê o passarinho?
Olhei no meio de coisas jogadas e debaixo de estante e com todo o cuidado do mundo puxei a cama. Nada. A janela estava aberta; conclui que ele estava bem e tinha voado para a liberdade. Um lindo final.
(Ou daqui a três dias eu sentiria um cheiro de putrefação e seria mais fácil achar os restos mortais. Torci para essa não ser a opção correta).
Saí, resolvi umas coisas. Quando voltei para casa, vi que tinha deixado no chão o saco que usaria para recolher o passarinho e fui juntar. E qual não foi a minha surpresa quando o passarinho saiu voando detrás do saco para cima da minha cortina!
Acho inclusive que ele que pegou o saco.
Bom, pelo menos ele estava bem. Nada de putrefação na minha casa. A Vivi já estava em cima da cama, olhando animadíssima o brinquedinho reanimado fora de seu alcance.
Havia uma janelona embaixo dele, não devia ser difícil convencê-lo a sair. Peguei a vassoura e me aproximei cuidadosamente... e ele voou para cima do guarda-roupa. Mais uma vez... e ele foi para cima da cortina. De novo... armário. E assim foi até eu desistir e ir almoçar, deixando o passarinho mais uma vez trancado em casa. Ele ia ficar bem, né?
Na volta, 3h depois, ele continuava em cima da cortina. Aproximei a vassoura e ele nem se incomodou, só mexeu a cabeça. Pensei que ele devia estar tendo um dia ruim, sendo abocanhado e tal. E decidi que ele era minha visita, afinal. Não ia deixar ele morrer em cima da minha cortina depois de tudo isso. Fui no armário da cozinha e peguei uns flocos de cereal para deixar perto dele. Cortei uma embalagem vazia de iogurte e pus um pouco de água. Passarinho, vou até te dar um nome. Você é cinza. Gray, tipo em "Cinquenta tons de Cinza?". Ah não, por favor, que eu nunca nem li então é preconceito mesmo; mas histórias sobre moças inseguras sendo salvas por milionários não me acrescentam nada de bom - eu, que tenho momentos de recalque com libélulas! Outro Gray... Dorian. Título do maravilhoso livro que eu nunca acabo de ler apesar de ter começado umas três vezes. Oscar Wilde exige leitura devagar.
Minha irmã tinha perguntado se era uma passarinha fazendo ninho, e eu tinha dito brincando que não tinha perguntado porque sou contra esse binarismo e chamado a partir de então de passarinhx. Mas decidi que era uma menina e seria chamada de Doriana. Que é nome de margarina, porque a Vivi uma vez roubou e comeu um pote inteirinho de manteiga que estava em cima da mesa (e passou muito mal depois, obviamente); então margarina certamente era algo que ela também abocanharia.
Meu pai disse que o passarinho era sinal de boa sorte. Eita vida comercial de margarina! E eu lembrei de um ditado bobo que teve significados importantes para mim em vários momentos da vida - "se ama algo, deixa-o livre; enfeita o jardim para que venham as borboletas", algo assim (talvez sejam dois que eu tenha juntado em um). Eu bem que queria que Doriana fosse passarinhar por aí. Ser trazida na boca de uma cadela não parece o mesmo que enfeitar jardins.
Tive que sair de novo. Quando voltei, já de noite, Doriana tinha mudado de leve de lugar e estava comendo. Fiquei feliz.
Mais tarde, ela pousou na minha cama e enfim achou a janela.
Seja livre e feliz.
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