Aqui na Unicamp no primeiro semestre de Engenharia Mecânica a gente tem uma disciplina de introdução, que basicamente consiste em palestras semanais para apresentar o curso a quem acabou de entrar. Cada semana vai alguém diferente falar de um tema do qual entenda: professores dos departamentos, engenheiros que trabalham em diversas empresas, representantes das atividades extra-curriculares, etc. Quando eu fiz a disciplina, houve uma palestra que se chamava "O papel da mulher na engenharia". Na época, eu ainda não era feminista (e ainda achava que havia coisas "de homem" e coisas "de mulher"); mas não gostei. Como assim, "papel da mulher na engenharia"??? Por acaso eu marquei no vestibular que queria entrar no curso de engenharia para mulheres?
Felizmente a palestrante foi uma professora a quem admiro profissionalmente e de quem gosto bastante,que começou a palestra dizendo que o papel da mulher era o mesmo do homem, ponto. E daí em diante contou sua jornada acadêmica. Porque o papel é o mesmo, mas naquela época (há - estou chutando - umas duas ou três décadas atrás) as pessoas muitas vezes olhavam estranho para uma menina pequena e novinha em meio a marmanjos, em profissão de homem e tal.
Estava lembrando dessa palestra hoje, porque em 2012, no meu quarto ano, tive o desprazer de ouvir um professor interromper o que falava sobre carros para dizer que as meninas da sala se interessavam mais por lançamentos de fogões e geladeiras. E depois de um tempo falar que as meninas ficavam mais nervosas com mais facilidade. E a aula, que até aí estava indo muito bem, ficou uma droga. E eu fiquei pensando se não havia um modo educado de dizer que ele estava sendo um completo imbecil e que essa piada não tinha a menor graça. Minhas duas amigas sentadas ao meu lado também não estavam achando divertido.
Eu sempre fico abismada ao me dar conta de como algumas das pessoas instruídas e de classe média/alta que me cercam podem ser tão preconceituosas. Somos fruto de um meio preconceituoso, eu sou preconceituosa; então estou tentando 1)trabalhar meus preconceitos e 2)cutucar os preconceitos dos outros sem ser estúpida, porque críticas construtivas e educadas são efetivas com gente sensata e eu preciso aprender a manter a calma.
Mas sério??? Sério mesmo que esse meu professor dá aula há não sei quantos anos e nunca ocorreu a ele que essas piadinhas são... ofensivas? E o pior é que ele não é o único professor a falar isso. São piadinhas recorrentes. Repito: vindas de professores. "As meninas não devem saber nem onde fica o motor do carro". Houve inclusive o caso mais extremo de um professor dizer na frente de uma turma inteira que uma aluna bonita agregava valor. E perguntar porque ela ainda não estava na sala, e dizer que as pessoas do departamento tinham achado ela gostosa, e que sem ela ele teria que dar aula para dragões.
Porque é exatamente para isso que nós, mulheres, estudamos horrores para sermos aprovadas no vestibular, e depois mais horrores ainda para sermos aprovadas nas matérias: para ouvirmos que somos gostosas ou dragões. A universidade é um pretexto, na realidade estamos em um concurso de miss.
Aí eu lembrei da palestra do papel da mulher. Pensem nisso. Uma das maiores universidades do país. Um curso super estrelado. E alguém acha que é uma boa ideia dar uma palestra sobre o papel da mulher. E outras pessoas... concordam. É preciso ressaltar que há um papel para a mulher. Vocês achavam que estudantes eram iguais? Não. Há os e as estudantes, e os papeis para cada um deles/delas. Você pode ter se metido em uma profissão predominantemente masculina, mas fique tranquila, lindinha, que aqui há um lugar para você. Mulheres são lindas e organizadas, coordenam bem. Isso é um elogio, por que você está irritada?
Eu não quero ter um lugar para mim. Eu quero que todos os lugares me sejam alcançáveis, possam ser meus.
PS: Também quero o direito de ser feia em paz no meu ambiente profissional.
Felizmente a palestrante foi uma professora a quem admiro profissionalmente e de quem gosto bastante,que começou a palestra dizendo que o papel da mulher era o mesmo do homem, ponto. E daí em diante contou sua jornada acadêmica. Porque o papel é o mesmo, mas naquela época (há - estou chutando - umas duas ou três décadas atrás) as pessoas muitas vezes olhavam estranho para uma menina pequena e novinha em meio a marmanjos, em profissão de homem e tal.
Estava lembrando dessa palestra hoje, porque em 2012, no meu quarto ano, tive o desprazer de ouvir um professor interromper o que falava sobre carros para dizer que as meninas da sala se interessavam mais por lançamentos de fogões e geladeiras. E depois de um tempo falar que as meninas ficavam mais nervosas com mais facilidade. E a aula, que até aí estava indo muito bem, ficou uma droga. E eu fiquei pensando se não havia um modo educado de dizer que ele estava sendo um completo imbecil e que essa piada não tinha a menor graça. Minhas duas amigas sentadas ao meu lado também não estavam achando divertido.
Eu sempre fico abismada ao me dar conta de como algumas das pessoas instruídas e de classe média/alta que me cercam podem ser tão preconceituosas. Somos fruto de um meio preconceituoso, eu sou preconceituosa; então estou tentando 1)trabalhar meus preconceitos e 2)cutucar os preconceitos dos outros sem ser estúpida, porque críticas construtivas e educadas são efetivas com gente sensata e eu preciso aprender a manter a calma.
Mas sério??? Sério mesmo que esse meu professor dá aula há não sei quantos anos e nunca ocorreu a ele que essas piadinhas são... ofensivas? E o pior é que ele não é o único professor a falar isso. São piadinhas recorrentes. Repito: vindas de professores. "As meninas não devem saber nem onde fica o motor do carro". Houve inclusive o caso mais extremo de um professor dizer na frente de uma turma inteira que uma aluna bonita agregava valor. E perguntar porque ela ainda não estava na sala, e dizer que as pessoas do departamento tinham achado ela gostosa, e que sem ela ele teria que dar aula para dragões.
Porque é exatamente para isso que nós, mulheres, estudamos horrores para sermos aprovadas no vestibular, e depois mais horrores ainda para sermos aprovadas nas matérias: para ouvirmos que somos gostosas ou dragões. A universidade é um pretexto, na realidade estamos em um concurso de miss.
Aí eu lembrei da palestra do papel da mulher. Pensem nisso. Uma das maiores universidades do país. Um curso super estrelado. E alguém acha que é uma boa ideia dar uma palestra sobre o papel da mulher. E outras pessoas... concordam. É preciso ressaltar que há um papel para a mulher. Vocês achavam que estudantes eram iguais? Não. Há os e as estudantes, e os papeis para cada um deles/delas. Você pode ter se metido em uma profissão predominantemente masculina, mas fique tranquila, lindinha, que aqui há um lugar para você. Mulheres são lindas e organizadas, coordenam bem. Isso é um elogio, por que você está irritada?
Eu não quero ter um lugar para mim. Eu quero que todos os lugares me sejam alcançáveis, possam ser meus.
PS: Também quero o direito de ser feia em paz no meu ambiente profissional.
Um comentário:
Pode crer, Mia. Eu como feminista de carteirinha, huuhhuehueh, fico triste e feliz ao mesmo tempo ao ler seu texto. Triste porque enfim, não gosto de saber a cada dia de mais e mais manifestações do machismo. Mas por outro lado, fico feliz de ver mulheres que não aceitam isso com naturalidade. Há um tempo atrás eu mesma achava a cosia mais comum piadas machistas, até as fazia, por convenção.
Acho importante coisas como "discutir o papel da mulher" não porque eu acredite num papel da mulher e outro do homem, nisso eu concordo com vc. Mas acho importante pq infelizmente há realmente um papel IMPOSTO arbitrariamente a cada pessoa de acordo com seu sexo e só vamos superar isso se discutirmo, portanto, omitir não seria o melhor caminho. Discutir, visibilizar para desconstruir é a minha opção.
E enfim, professores machistas não são privilégios de cursos de exatas... convivo com vários! ><
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