Quando eu deixei Belém em 2009, eu estava deixando a minha vida.
Para uma vida para a qual eu estudei por um ano; mas ainda assim havia a dose de medo mesclada na empolgação. Lembro quando vi meu nome no listão da Unicamp, sozinha no sofá da sala. Peguei meu carro feito uma fugitiva e fui ao centro histórico da cidade, olhar a baía tomando sorvete de chocolate enquanto as minhas entranhas se reviravam num inexplicável "fodeu". Tinha dado certo. E eu iria embora.
Adorei fazer mudança. Mas sofri demais. Nos primeiros finais de semana sem a minha família. Nas semanas em que eu achava que os grupinhos da faculdade tinham nascido prontos e eu estava fadada à solidão, porque eu nunca levara muito jeito para a coisa e agora tinha desaprendido de vez a fazer amigos. Nas datas comemorativas. Nos jantares.
Eu me sentia sozinha e sentia falta de tudo.
Mas ao mesmo tempo ia me encantando com a vida nova. Fazendo novos amigos; não sei dizer em que momento eles viraram o que são.
Aprendi a lavar minha roupa na máquina. A limpar banheiro. Que o lixo não sai sozinho do chão.
Aprendi a fazer supermercado. E que eu detesto lavar louça e que cozinhar toma tempo e sai caro, então eu prefiro o bandejão.
Fui aprendendo a conciliar meu tempo. E me vi totalmente dona do tempo; tempo meu.
Me apaixonei.
E nisso já se foram mais de três anos em Campinas, e as cidades mudaram e eu mudei. E nenhuma mudança, por melhor que seja, é isenta da sua dose de dor.
E eu me dei conta, muito assustada, que Belém não é mais a minha Belém.
Depois que deixei a cidade, virei uma daquelas paraenses saudosistas de longe. Depois de um semestre na neve do meu intercâmbio, descobri que amo calor, de verdade. E que a nossa música ruim é muito melhor que a música ruim paulistana. Sempre falo de farofa, cupuaçu e maniçoba. Adoro o Pavulagem e acho de verdade que Ajuruteua é um dos lugares mais bonitos do mundo. E embora eu tenha mudado o meu vocabulário, faço questão de manter meu sotaque, com seu chiado e erres distintos.
Mas Belém, oh Belém!
Minha Belém era um tempo que não existe mais. O tempo do qual mais sinto saudade? Quando eu fazia biologia. Não que eu ainda queira ser bióloga - três batidas na madeira! - ; cada vez mais amo a engenharia e vejo que aqui é meu lugar. Mas eu adorava aquelas pessoas. O pessoal do lab, os amigos da facul, as aulas de taekwondo e piano, as saídas com amigos antigos, os "trabalhos" de final de semana, os almoços em família. Demorei tanto tempo para me dar conta que estava no curso errado porque conheci lá pessoas muito certas. Estava profissionalmente frustrada, mas aquelas pessoas ainda me faziam sorrir.
Belém eram meus amigos, que mudaram e seguem suas vidas. Não acho que tenham deixado de gostar de mim - nunca tive muitos amigos, mas os que tenho, tenho mesmo; - mas de repente somos todos jovens adultos cheios de ocupações e viagens e mudanças. E fica cada vez mais difícil se encontrar. E eu fico cada vez mais sozinha na cidade de onde eu tinha medo de sair porque tinha medo da solidão.
Em Belém tenho minha família, mas enquanto núcle pai-mãe-irmã, somos viajantes. E família somos em todo lugar. Há também a família no sentido amplo, e esta é o que ainda faz Belém valer a pena; mas mesmo esta existe no mundo. Adoro encontrá-los em Belém, mas não preciso ir sempre em Belém para encontrá-los.
Fico em casa e me agonio de ser a menina mimada que sou. De não saber quais camisas estão limpas. Das coisas não ficarem onde eu deixei.
E sinto saudade de Campinas. Da minha casa daqui.
Nunca desejei tanto o fim das férias quanto das últimas.
Não sei mais ficar sem fazer nada, muito menos em Belém. E tudo na cidade me cansava. E eu não queria detestar minha cidade!
Ah Belém... Não é você, sou eu. Eu mudei. E a gente pode se amar de longe, e ser um daqueles casais de amantes que passam anos se vendo apaixonadamente umas poucas e breves vezes, escondidos. Mas agora é verdade. A gente precisa terminar de vez.
(Ou, quem sabe, até eu voltar e passar por um longuíssissimo período de desmudar. Somos tão jovens, você e eu).
Para uma vida para a qual eu estudei por um ano; mas ainda assim havia a dose de medo mesclada na empolgação. Lembro quando vi meu nome no listão da Unicamp, sozinha no sofá da sala. Peguei meu carro feito uma fugitiva e fui ao centro histórico da cidade, olhar a baía tomando sorvete de chocolate enquanto as minhas entranhas se reviravam num inexplicável "fodeu". Tinha dado certo. E eu iria embora.
Adorei fazer mudança. Mas sofri demais. Nos primeiros finais de semana sem a minha família. Nas semanas em que eu achava que os grupinhos da faculdade tinham nascido prontos e eu estava fadada à solidão, porque eu nunca levara muito jeito para a coisa e agora tinha desaprendido de vez a fazer amigos. Nas datas comemorativas. Nos jantares.
Eu me sentia sozinha e sentia falta de tudo.
Mas ao mesmo tempo ia me encantando com a vida nova. Fazendo novos amigos; não sei dizer em que momento eles viraram o que são.
Aprendi a lavar minha roupa na máquina. A limpar banheiro. Que o lixo não sai sozinho do chão.
Aprendi a fazer supermercado. E que eu detesto lavar louça e que cozinhar toma tempo e sai caro, então eu prefiro o bandejão.
Fui aprendendo a conciliar meu tempo. E me vi totalmente dona do tempo; tempo meu.
Me apaixonei.
E nisso já se foram mais de três anos em Campinas, e as cidades mudaram e eu mudei. E nenhuma mudança, por melhor que seja, é isenta da sua dose de dor.
E eu me dei conta, muito assustada, que Belém não é mais a minha Belém.
Depois que deixei a cidade, virei uma daquelas paraenses saudosistas de longe. Depois de um semestre na neve do meu intercâmbio, descobri que amo calor, de verdade. E que a nossa música ruim é muito melhor que a música ruim paulistana. Sempre falo de farofa, cupuaçu e maniçoba. Adoro o Pavulagem e acho de verdade que Ajuruteua é um dos lugares mais bonitos do mundo. E embora eu tenha mudado o meu vocabulário, faço questão de manter meu sotaque, com seu chiado e erres distintos.
Mas Belém, oh Belém!
Minha Belém era um tempo que não existe mais. O tempo do qual mais sinto saudade? Quando eu fazia biologia. Não que eu ainda queira ser bióloga - três batidas na madeira! - ; cada vez mais amo a engenharia e vejo que aqui é meu lugar. Mas eu adorava aquelas pessoas. O pessoal do lab, os amigos da facul, as aulas de taekwondo e piano, as saídas com amigos antigos, os "trabalhos" de final de semana, os almoços em família. Demorei tanto tempo para me dar conta que estava no curso errado porque conheci lá pessoas muito certas. Estava profissionalmente frustrada, mas aquelas pessoas ainda me faziam sorrir.
Belém eram meus amigos, que mudaram e seguem suas vidas. Não acho que tenham deixado de gostar de mim - nunca tive muitos amigos, mas os que tenho, tenho mesmo; - mas de repente somos todos jovens adultos cheios de ocupações e viagens e mudanças. E fica cada vez mais difícil se encontrar. E eu fico cada vez mais sozinha na cidade de onde eu tinha medo de sair porque tinha medo da solidão.
Em Belém tenho minha família, mas enquanto núcle pai-mãe-irmã, somos viajantes. E família somos em todo lugar. Há também a família no sentido amplo, e esta é o que ainda faz Belém valer a pena; mas mesmo esta existe no mundo. Adoro encontrá-los em Belém, mas não preciso ir sempre em Belém para encontrá-los.
Fico em casa e me agonio de ser a menina mimada que sou. De não saber quais camisas estão limpas. Das coisas não ficarem onde eu deixei.
E sinto saudade de Campinas. Da minha casa daqui.
Nunca desejei tanto o fim das férias quanto das últimas.
Não sei mais ficar sem fazer nada, muito menos em Belém. E tudo na cidade me cansava. E eu não queria detestar minha cidade!
Ah Belém... Não é você, sou eu. Eu mudei. E a gente pode se amar de longe, e ser um daqueles casais de amantes que passam anos se vendo apaixonadamente umas poucas e breves vezes, escondidos. Mas agora é verdade. A gente precisa terminar de vez.
(Ou, quem sabe, até eu voltar e passar por um longuíssissimo período de desmudar. Somos tão jovens, você e eu).
Um comentário:
Gostei de ler isso, dá uma vontade enorme de fazer o mesmo, mas pra mim é tão inviável, é bom ver que é possível!
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