Semestre passado não foi um bom semestre para a Juu (para os que não conhecem, Juu é o meu carro). Foram uma pedrinha na estrada, uma batida do portão automático desregulado, uma ré distraída do motorista da frente e uma curva mal-calculada numa estrada desconhecida à noite. Na somatória custaram um para-choque, um protetor de carter, uma para-brisa e um retrovisor. E como resultado disso eu comecei a gostar do mecânico. Cara simpático, sempre fez um bom serviço e me dava carona de/para a Unicamp quando eu deixava a Juu sob seus cuidados. No final do ano eu até brinquei que ele teria que me convidar para a ceia de Natal, dada a frequencia com aqual estávamos nos vendo.
Daí esse semestre eu bati no portão e desencaixei meu retrovisor. Vou viajar no feriado, então precisava consertar. Estava em período de provas, então deixei para a última hora. Cheguei no mecânico na quinta, e ele estava trocando o retrovisor de outra moça, que coincidentemente tinha o mesmo carro que eu. Sorriu, me cumprimentou, viu qual era o meu problema. Quando ele terminou o serviço, veio tentar arrumar o meu.
E tentou e tentou e tentou por mais de uma hora, e xingou a fábrica que faz as coisas de modo que elas não possam ser consertadas, e assim te forçam a trocar. E tentou mais. E finalmente desisitiu. Disse:
- Vou colocar fita isolante para prender. Fica tranquila que não vai soltar.
Eu, em pânico:
- Mas eu vou viajar manhã...
- O retrovisor vai ficar bem.
- Mas e depois? Eu tenho que trocar ou tem jeito?
- Não estou conseguindo consertar... Ah, já sei! A gente tira o seu e coloca na caixa do da moça que estava trocando mais cedo, e diz que veio desencaixado e pede para a fábrica trocar.
E de repente eu travei, enquanto ele continuava a falar:
- Que horas você vai viajar? Só de madrugada? Dá tempo de ligar, ainda não são seis horas... Aí amanhã eles trazem o novo e eu troco para você...
Eu estava chocada, de verdade. Não sabia o que fazer.
- Mas...
- Vai dar tempo. O retrovisor dela era direito ou esquerdo? Ih, acho que era direito, mas eles não escrevem isso na caixa, não vai dar problema.
- Eu...
- Ô Fulano, liga lá pra eles...
- Não! - Eu disse, e comecei a sussurrar feito uma menininha - Não, desculpa, eu sou uma pessoa honesta, eu não me sinto bem fazendo esse tipo de coisa...
- Ah não, eu também sou honesto. Mas aí eles remontam e revendem, né? Eu sou honesto.
- Desculpa... Não. Não, deixa o meu retrovisor como está, eu... Eu vou falar com meua pais e depois decido o que fazer, tá?
ele me olhava, surpreso:
- Eu estou tentando fazer o melhor pra você. Me liga até amanhã às 11h , ok?
- Ahã... - Eu respondi, e saí assim que o retrovisor estava preso com fita isolante. Profundamente envergonhada. Eu estava errada? De não achar certo mandar para a fábrica um produto que não era deles, um produto usado? De querer gastar uns cem reais em um retrovisor novo? Eu estava sendo otária?
Não. Não. Não. Eu não posso querer um mundo melhor se eu achar isso normal. Acho que existem milhares de leis e normas e regras estúpidas que merecem sim ser desrespeitadas e contestadas. Mas isso? Não é rebeldia, é desonestidade pura e simples. Para mim, transgressões devem ser conscientes e ter um objetivo. Querer levar a melhor em cima de algo ou alguém não é um objetivo válido.
O retrovisor tinha seis meses de uso. Eu dei uma pancada no muro e ele desencaixou. Não veio com defeito, não desencaixou sozinho. Nem sei se era do mesmo lugar que o da outra moça! Eu não posso querer políticos honestos, profissionais honestos, pessoas honestas se eu agir assim.
E eu gosto daquele mecânico. Acho-o boa gente. E ele queria me ajudar. E sim, a fábrica tinha feito o retrovisor para não poder ser encaixado.
E isso me deixou tão mexida - a lógica da fábrica, meu retovisor desencaixado em véspera de feriado, a ideia do mecânico e a naturalidade com a qual ele lidou com ela, eu mesma achando desonesto mas tendo dificuldade em dizer não - que eu chamei meu namorado para conversar e me animar. Me senti uma criança de cinco anos enquanto ele falava que eu não deveria ficar assim. Que eu ainda me depararia muito com esse tipo de atitude de querer levar a melhor de maneiras pouco ou nada corretas, principalmente no mercado de trabalho. Que eu não deveria compactuar, mas que infelizmente mudanças tomam muito tempo e não havia muito o que fazer para mudar.
Será?
O que você faria?
O que você acha que honestidade significa? O que é ser justo e correto para você?
Estou tentando responder, também.
Daí esse semestre eu bati no portão e desencaixei meu retrovisor. Vou viajar no feriado, então precisava consertar. Estava em período de provas, então deixei para a última hora. Cheguei no mecânico na quinta, e ele estava trocando o retrovisor de outra moça, que coincidentemente tinha o mesmo carro que eu. Sorriu, me cumprimentou, viu qual era o meu problema. Quando ele terminou o serviço, veio tentar arrumar o meu.
E tentou e tentou e tentou por mais de uma hora, e xingou a fábrica que faz as coisas de modo que elas não possam ser consertadas, e assim te forçam a trocar. E tentou mais. E finalmente desisitiu. Disse:
- Vou colocar fita isolante para prender. Fica tranquila que não vai soltar.
Eu, em pânico:
- Mas eu vou viajar manhã...
- O retrovisor vai ficar bem.
- Mas e depois? Eu tenho que trocar ou tem jeito?
- Não estou conseguindo consertar... Ah, já sei! A gente tira o seu e coloca na caixa do da moça que estava trocando mais cedo, e diz que veio desencaixado e pede para a fábrica trocar.
E de repente eu travei, enquanto ele continuava a falar:
- Que horas você vai viajar? Só de madrugada? Dá tempo de ligar, ainda não são seis horas... Aí amanhã eles trazem o novo e eu troco para você...
Eu estava chocada, de verdade. Não sabia o que fazer.
- Mas...
- Vai dar tempo. O retrovisor dela era direito ou esquerdo? Ih, acho que era direito, mas eles não escrevem isso na caixa, não vai dar problema.
- Eu...
- Ô Fulano, liga lá pra eles...
- Não! - Eu disse, e comecei a sussurrar feito uma menininha - Não, desculpa, eu sou uma pessoa honesta, eu não me sinto bem fazendo esse tipo de coisa...
- Ah não, eu também sou honesto. Mas aí eles remontam e revendem, né? Eu sou honesto.
- Desculpa... Não. Não, deixa o meu retrovisor como está, eu... Eu vou falar com meua pais e depois decido o que fazer, tá?
ele me olhava, surpreso:
- Eu estou tentando fazer o melhor pra você. Me liga até amanhã às 11h , ok?
- Ahã... - Eu respondi, e saí assim que o retrovisor estava preso com fita isolante. Profundamente envergonhada. Eu estava errada? De não achar certo mandar para a fábrica um produto que não era deles, um produto usado? De querer gastar uns cem reais em um retrovisor novo? Eu estava sendo otária?
Não. Não. Não. Eu não posso querer um mundo melhor se eu achar isso normal. Acho que existem milhares de leis e normas e regras estúpidas que merecem sim ser desrespeitadas e contestadas. Mas isso? Não é rebeldia, é desonestidade pura e simples. Para mim, transgressões devem ser conscientes e ter um objetivo. Querer levar a melhor em cima de algo ou alguém não é um objetivo válido.
O retrovisor tinha seis meses de uso. Eu dei uma pancada no muro e ele desencaixou. Não veio com defeito, não desencaixou sozinho. Nem sei se era do mesmo lugar que o da outra moça! Eu não posso querer políticos honestos, profissionais honestos, pessoas honestas se eu agir assim.
E eu gosto daquele mecânico. Acho-o boa gente. E ele queria me ajudar. E sim, a fábrica tinha feito o retrovisor para não poder ser encaixado.
E isso me deixou tão mexida - a lógica da fábrica, meu retovisor desencaixado em véspera de feriado, a ideia do mecânico e a naturalidade com a qual ele lidou com ela, eu mesma achando desonesto mas tendo dificuldade em dizer não - que eu chamei meu namorado para conversar e me animar. Me senti uma criança de cinco anos enquanto ele falava que eu não deveria ficar assim. Que eu ainda me depararia muito com esse tipo de atitude de querer levar a melhor de maneiras pouco ou nada corretas, principalmente no mercado de trabalho. Que eu não deveria compactuar, mas que infelizmente mudanças tomam muito tempo e não havia muito o que fazer para mudar.
Será?
O que você faria?
O que você acha que honestidade significa? O que é ser justo e correto para você?
Estou tentando responder, também.
Um comentário:
Fulano em visita à cidade maravilhosa.
Trocando um papo com o motorista do taxi, diz que está lá à trabalho.
"Ah, tudo pago pela empresa, é? Quer que eu adicione um cafezinho na conta da viagem?"
Fazendo seu trabalho de pesquisa, Beltrano encontra alguns dados que contradizem decisivamente a hipótese de seu artigo.
O professor?
"Não, não põe isso aí não. É melhor que não saibam."
É indiferente de classe, área profissional e gênero; são atitudes que se encontram em todo lugar.
O que têm em comum? A desculpa de que todos o fazem.
É uma corrente que tem que ser quebrada pelo exemplo.
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