Aquela música dos Titãs, "Epitáfio", foi escrita pensando em mim. Nem tanto pelas coisas que o eu-lírico diz que deveria ter feito (porque, tirando a parte de se preocupar menos com problemas pequenos, acho que as faço bem), mas o refrão: "O acaso vai me proteger enquanto eu andar distraído..."
Eu ando sempre distraída.
A primeira vez na vida em que fiquei com os dois joelhos simultâneamente íntegros eu já devia ter quase quinze anos. Na realidade, na minha vida inteira, foram poucos os meses nos quais isso aconteceu. Agora, por exemplo, o esquerdo está em cascão.
- O que foi isso, Morango? - Perguntou meu amigo na sexta, quando o verão me permitiu sair de mini-saia. Meu namorado, que sabia das histórias, riu.
- Uma série de coisas... - Eu respondi. - Primeiro um dia eu estava andando com um pão de queijo na mão e tropecei. Salvei o pão de queijo. Depois eu estava andando para casa e tropecei em uma casca de banana. Sério, eu nem sabia que essas coisas aconteciam de verdade. Eu até vi, sabe; "olha, uma casca de banana; ops, vou pisar nela; ah, será que eu devia desviar? Aaaaaaaaaaaa!". E outro dia eu caí subindo a escada molhada do banheiro...
Meu namorado se preocupa. E agora brinca dizendo que amar é preservar os joelhos.
Uma amiga minha me disse que a gente não pode ter síndrome de Gabriela: "Eu nasci assim, eu cresci assim, vou morrer assim, Gabriela...", mas que eu me lembre eu sempre fui estabanada. Já quebrei cinco copos de uma vez só (quando fui puxar um de um porta-copos na casa da minha avó. O que eu puxei ficou na minha mão. Os outros foram ao chão).
Agora mesmo, também, meu braço direito está com três cicatrizes recentes: uma queimadura de passar meu dobok (o kimono do taekowndo); um corte profundo feito caminhando próxima ao portão da Unicamp que me fez ligar hipocondriaca para minha mãe médica para perguntar se eu ia morrer e se precisava correr ao hospital para tomar a antitetânica (felizmente minha antitetânica está em dia e o corte mortal fechou sozinho em uns 15 minutos, depois de ser bem limpo; e virou uma coisinha ridícula); e uma no pulso que aparou a queda da casca de banana (eu estava com uma caneca de café na mão, aparei a queda com o pulso; "ai meu Deus, meu pulso está sangrando, eu vou morrer! ... Ah, talvez não, parou de sangrar").
Minhas duas unhas do dedão do pé estão quebradas, um dos dedos está esfolado.
Estou no meu sexto celular desde que entrei na Unicamp (março de 2009). Nenhum deles foi roubado. Dois deles ficaram velhos demais (um porque era velho da minha mãe e veio pra mim de quebra-galho; outro porque era ruim demais e eu comprei de quebra-galho); um deles foi comprado e deixado nos Estados Unidos. Os outros dois eu afoguei. E o que mais doi é que eram novos. Menos de seis meses cada.
Já afoguei três celulares na vida: O primeiro foi o meu primeiro celular, quando fui jogada na piscina com ele no bolso; teve jeito, depois caiu na vala e morreu de vez. O segundo caiu na vala (uns sete anos depois, a mesma história). O terceiro eu tirei do bolso ao ir no banheiro, porque já tinha ouvido histórias de pessoas cujo celular cai do bolso na privada. Aí o celular escorregou da minha mão e... caiu na privada.
Que coisa.
Mas já estou com meu celular atual há seis meses. É um marco. Quando o comprei, o vendedor quis me empurrar garantia estendida; não aceitei:
- Você acha realmente que esse celular vai dar problema em dois anos e não vai ser culpa minha?
De fato: eu já joguei ele na privada de casa (tirei, limpei, desmontei e deixei secando); esqueci em restaurante (voltei e continuava lá); afoguei em uma bolsa (me deram uma garrafinha de água mal tampada para guardar, a bolsa era impermeável e virou uma piscina. Desmontei, esperei secar e ele voltou ao normal); esqueci em um banheiro da faculdade antes de uma prova e quando eu sai meu namorado estava com ele (a pessoa que achou o celular levou para o achados e perdidos da unicamp, que ligou para minha mãe lá em Belém, que ligou de Belém para o meu namorado aqui em Campinas promover o resgate).
E ainda assim eu continuo com o celular. Isso sem falar que nunca quebrei um osso. Na verdade, meus machucados mais sérios foram meia dúzia de pontos e uma torção de tornozelo. O acaso me protege.
Por isso decidi que quero retribuir. Quando eu morrer, vou virar protetora de distraídos.
Eu ando sempre distraída.
A primeira vez na vida em que fiquei com os dois joelhos simultâneamente íntegros eu já devia ter quase quinze anos. Na realidade, na minha vida inteira, foram poucos os meses nos quais isso aconteceu. Agora, por exemplo, o esquerdo está em cascão.
- O que foi isso, Morango? - Perguntou meu amigo na sexta, quando o verão me permitiu sair de mini-saia. Meu namorado, que sabia das histórias, riu.
- Uma série de coisas... - Eu respondi. - Primeiro um dia eu estava andando com um pão de queijo na mão e tropecei. Salvei o pão de queijo. Depois eu estava andando para casa e tropecei em uma casca de banana. Sério, eu nem sabia que essas coisas aconteciam de verdade. Eu até vi, sabe; "olha, uma casca de banana; ops, vou pisar nela; ah, será que eu devia desviar? Aaaaaaaaaaaa!". E outro dia eu caí subindo a escada molhada do banheiro...
Meu namorado se preocupa. E agora brinca dizendo que amar é preservar os joelhos.
Uma amiga minha me disse que a gente não pode ter síndrome de Gabriela: "Eu nasci assim, eu cresci assim, vou morrer assim, Gabriela...", mas que eu me lembre eu sempre fui estabanada. Já quebrei cinco copos de uma vez só (quando fui puxar um de um porta-copos na casa da minha avó. O que eu puxei ficou na minha mão. Os outros foram ao chão).
Agora mesmo, também, meu braço direito está com três cicatrizes recentes: uma queimadura de passar meu dobok (o kimono do taekowndo); um corte profundo feito caminhando próxima ao portão da Unicamp que me fez ligar hipocondriaca para minha mãe médica para perguntar se eu ia morrer e se precisava correr ao hospital para tomar a antitetânica (felizmente minha antitetânica está em dia e o corte mortal fechou sozinho em uns 15 minutos, depois de ser bem limpo; e virou uma coisinha ridícula); e uma no pulso que aparou a queda da casca de banana (eu estava com uma caneca de café na mão, aparei a queda com o pulso; "ai meu Deus, meu pulso está sangrando, eu vou morrer! ... Ah, talvez não, parou de sangrar").
Minhas duas unhas do dedão do pé estão quebradas, um dos dedos está esfolado.
Estou no meu sexto celular desde que entrei na Unicamp (março de 2009). Nenhum deles foi roubado. Dois deles ficaram velhos demais (um porque era velho da minha mãe e veio pra mim de quebra-galho; outro porque era ruim demais e eu comprei de quebra-galho); um deles foi comprado e deixado nos Estados Unidos. Os outros dois eu afoguei. E o que mais doi é que eram novos. Menos de seis meses cada.
Já afoguei três celulares na vida: O primeiro foi o meu primeiro celular, quando fui jogada na piscina com ele no bolso; teve jeito, depois caiu na vala e morreu de vez. O segundo caiu na vala (uns sete anos depois, a mesma história). O terceiro eu tirei do bolso ao ir no banheiro, porque já tinha ouvido histórias de pessoas cujo celular cai do bolso na privada. Aí o celular escorregou da minha mão e... caiu na privada.
Que coisa.
Mas já estou com meu celular atual há seis meses. É um marco. Quando o comprei, o vendedor quis me empurrar garantia estendida; não aceitei:
- Você acha realmente que esse celular vai dar problema em dois anos e não vai ser culpa minha?
De fato: eu já joguei ele na privada de casa (tirei, limpei, desmontei e deixei secando); esqueci em restaurante (voltei e continuava lá); afoguei em uma bolsa (me deram uma garrafinha de água mal tampada para guardar, a bolsa era impermeável e virou uma piscina. Desmontei, esperei secar e ele voltou ao normal); esqueci em um banheiro da faculdade antes de uma prova e quando eu sai meu namorado estava com ele (a pessoa que achou o celular levou para o achados e perdidos da unicamp, que ligou para minha mãe lá em Belém, que ligou de Belém para o meu namorado aqui em Campinas promover o resgate).
E ainda assim eu continuo com o celular. Isso sem falar que nunca quebrei um osso. Na verdade, meus machucados mais sérios foram meia dúzia de pontos e uma torção de tornozelo. O acaso me protege.
Por isso decidi que quero retribuir. Quando eu morrer, vou virar protetora de distraídos.
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