sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Mercês

Aviso: Eu sei que é Natal. Eu amo o Natal desde sempre. Mas este é um post muito triste. Eu precisei escrevê-lo. Você não precisa lê-lo. Não na antevéspera de Natal.


Ligaram do hospital dizendo que ela tinha tido uma parada cardíaca.
Minha mãe é medica. Ela sabia o que isso queria dizer. Depois de tanto tempo internada, duas cirurgias e um coraçãozinho que batia por uma medicação pesada. Não teriam ligado se fosse só uma parada cardíaca. Na UTI, paradas cardiacas acontecem o tempo todo.
Mas minha mãe também era tia (a genética diria um parentesco um pouco distinto; prima em algum grau estranho. Mas nós viemos de uma família grande e unida, onde os parentescos são definidos por diferença etária. Uns vinte anos de diferença automaticamente te transformam em tia). E minha mãe não era qualquer tia, mas a tia que não podia sair sem comprar um presente; a que levava para festinhas. A que viu nascer, e acompanhou muito de pertinho os quatro anos e onze meses da minha priminha.
Então quando a gente saiu correndo de casa para pegar minha tia avó e a sobrinha dela, prima da minha mãe e mãe da menininha no hospital; minha mãe ainda acreditava que tinha sido só uma parada cardíaca. Precisava acreditar.
O choro da mãe da minha priminha dizia que não.
- Falei com a médica. Eu queria ouvir dela. Ela confirmou.
Minha mãe só acreditou quando chegamos no hospital.
- Liga pro seu pai. Confirmaram. Evoluiu a óbito.
Evoluiu a óbito. Minha priminha de menos de cinco anos estava morta. E a gente tinha que ligar para as pessoas e contar isso. E enquanto a minha mãe se mantinha fortaleza com seu linguajar técnico, a mãe da minha priminha chorava e dizia isso das maneiras mais indiziveis a uma mãe:
- Meu fio de esperança acabou... Minha filhinha foi embora...Meu bebêzinho não está mais comigo...
Foi a primeira vez que eu vi de perto que morrer não é privilégio de quem tem netos. Nem mesmo de quem tem filhos. De quem teve o primeiro namorado, de quem aprendeu a ler.
Minha priminha ainda não tinha cinco anos. E estava há dois meses na UTI, decorrência de uma leucemia descoberta no início do ano. Uma leucemia que tinha 95% de chance de cura. E 5% de chance de...
Magrinha. Cabeça enfaixada. E o que mais me doeu foi ver que estava mais alta do que da última vez que eu a tinha visto, no meio do ano, quando ela nem parecia doente e correru comigo pela casa e eu e a minha irmã brincamos com os amigos imaginários dela e falamos de baleias, tubarões e vampiros.
E havia os aspectos práticos a serem cuidados. O avô da minha priminha arranjou a funerária. Duas tias avós foram pegar uma roupa. Minha mãe ajustou a vesti-la. E ela foi levada em uma maca sem colchão, dentro de um horrível saco funerário coberto por um lençol para o necrotério do hospital, até a van da funerária chegar para levá-la. E a minha mãe teve que lembrar o que a médica da UTI tinha dito:
- Cuidado ao arrumá-la. Ela está com escaras e a cabecinha machucada. Não mexam nos curativos.
Escaras. É o nome que se dá a feridas que as pessoas ficam por passar muito tempo deitadas.
- Pode ficar tranquila, a gente não vai tirá-la do saco, só escondê-lo. Vamos arrumá-la bem, fazer um trabalho bem digno pra vocês.
E a levaram naquele saco, e a gente foi à capela onde foi o velório, esperar arranjarem um caixão branco de criança - não o de 1,20m; que ela já tinha 1,20m; lá em outra funerária tem o de 1,40m... E depois de um tempo chegou aquele caixãozinho branco, e minha tia avó só deixou abrirem o visor
- Isso de querer abrir tudo é curiosidade do povo. Espera os pais chegarem e a gente decide o que faz.
Os pais. O pai dela estava em Marabá a trabalho e voltou sem ser oficialmente informado do ocorrido, apesar de ter sido enfiado pela empresa às pressas no primeiro avião. A mãe foi buscá-lo no aeroporto para contar. E eles chegaram. E choraram.
A noite foi passando. As pessoas foram chegando. Choro. Silêncio.
Tanta gente. Enfermeiras do primeiro hospital que ela ia, quando ainda corria e ria e conquistou todo mundo com suas histórias. Famílias enormes, amigos dos pais.
- Ela parece que está dormindo...
As pessoas falam isso como um consolo. Eu odeio esse comentário. Não, ela não está dormindo. Ela morreu. Uma tia disse que não queria ver, que preferia lembrar dela correndo. Achei bonito.
 Minha mãe me chamou num canto:
- Você sabe que eu não quero nada disso. Não quero velório, não quero as pessoas me olhando. Eu quero ser cremada. E não esquece de colocar as vitaminas que eu tenho que tomar junto...
- Mãe!
A gente riu. Isso das vitaminas é uma piada nossa - já que a minha mãe fez bariátrica e tem que tomar vitaminas "para o resto da vida e mais três dias".
Minha mãe ficou brava com quem chorou com os pais. Acha que a gente tem que consolá-los, não querer sem consolado.
Vi minha mãe chorar umas duas ou três vezes na vida.
As pessoas começaram a conversar. A morte é tão grande que ninguém quer encará-la. Então a gente vive. E conversa bobeira.
- Será que a fulana está com medo mesmo da Mercês???
Mercês era o nome da minha priminha.
A Fulana no caso é uma tia minha que morre de medo de fantasma e fica com medo de ver quando alguém da família morre. Ela também gosta de fazer careta pra criança. Eu retruquei:
- Eu teria mais medo da Mercês do que de adulto. Ela era criança. Vai que acha engraçado? "A tia me assustava, vou dar um susto nela"...
Rimos.
A noite continuou passando. Muita gente, café. 2h da madrugada, as pessoas foram indo embora. 3h fui também, dormir um pouco. Minha mãe ficou a noite inteira. Saiu só com a mãe da Mercês, para tomar um banho.
Na manhã seguinte foi o enterro. Havia tanta gente. Houve a reza. Os cantos. E o adeus a uma menininha de quatro anos. Na mesma jazida onde estão seus (meus) bisavós e sua avó.
Fomos almoçar. Mamãe finalmente dormiu. Perguntou sobre o Natal.
E há o agora.

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