(Pensamentos e eventos soltos, porém interligados)
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Escrevo despretensiosamente neste blog há mais de quatro anos. E quatro anos é tempo demais na vida de qualquer pessoa, especialmente na de uma garota de dezenove anos, saindo da adolescência. Neste meio tempo eu mudei de cabelo, de namorado, de curso universitário, de casa, de cidade. Mais de uma vez. Aprendi e desaprendi milhões de coisas. E é claro que isso mudou a minha cabeça também. Acho excelente. Estou sempre tentando ser uma pessoa melhor. Nem sempre consigo, mas é um objetivo.
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Tem algumas coisas que eu postei por aqui que hoje acho inadequadas. Tipo generalizar meninas, dizer que a gente (mulheres) diz não querendo dizer sim (a maior estupídez que se pode dizer para caras - no caso extremo há o cara que quebrou o braço da menina que não quis ficar com ele na balada; mas há tanto mais envolvido, de importunação desnecessária a desrespeito!).
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Do mesmo jeito, acho que ainda haverá muitas coisas que direi aqui e depois mudarei de ideia. Faz parte. Mas estou me policiando para não perpetuar preconceitos ou falar coisas estúpidas (no sentido ruim, é claro. Quem lê o blog conhece meu forte para piadinhas ruins - ruins no sentido de bobas, não de preconceituosas ou algo do gênero)
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Meu feminismo ainda é muito novo. Ainda não sei expressá-lo direito; mas minha tolerância com a intolerância alheia diminuiu exponencialmente. Mais do que igualdade de gênero, o feminismo trouxe para mim uma visão de igualdade ampla como eu nunca tinha tido.
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O que está cada vez maior é a minha surpresa de me dar conta de como vivo num meio preconceituso. Como eu já disse, o primeiro e mais chocante preconceito foi o meu próprio. E estou tentando jogá-lo fora, todo, um por um.
Já quando esbarro no preconceito alheio, não sei o que fazer. Meu primeiro ímpeto ainda é ficar quieta - ou porque se trata de um desconhecido, ou porque se trata de alguém de quem gosto demais. Eu ainda preciso aprender a discutir sem alterar o tom de voz, sem ser desnecessariamente agressiva.
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O pior do preconceito é que a maioria das pessoas não percebe que ele está lá. Acho que quase ninguém se considera preconceituso, e todo mundo é.
Acho que todo mundo devia pensar sobre preconceito. Talvez eu esteja sendo inocente, mas eu acho que (quase) ninguém se orgulha de ser preconceituoso. Então acho que o primeiro passo é descobrir os preconceitos em si.
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Ontem meus amigos me contaram uma história escabrosa: há um menino da minha turma de faculdade que namora uma menina negra. E os amigos dele (da engenharia da Unicamp, galera jovem, classe média ou alta) brincam chamando-o de "senhor de engenho". Eles acham isso engraçado.
Eu, é claro, fiquei chocada. Mas são esses meus mesmos amigos - os meus, que também ficaram chocados; não os da piada escravocrata - que vivem fazendo piadas homofóbicas, o tempo inteiro. Não há xingamento mais ofensivo a um professor do que viado. A viadagem vira o tópico da conversa; a foto no facebook, a maneira de falar, de mover a mão. E há tantas risadas.
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Não há maldade consciente nisso. Mas há todo um histórico de preconceito. Alguém gostaria que ser o que você é fosse usado como um xingamento?
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E eu mesma ainda vivo dizendo que sou muito macho. E minha amiga chama os meninos de damas quando eles tem medo de algo.
Machismo? Não, que é isso...
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Uma amiga minha já foi xingada de hétero em uma rodinha gay. Era brincadeira, é claro. Era engraçado. Há piadas que são piadas entre amigos. É totalmente diferente de quando se ridiculariza alguém não presente, ou uma classe inteira.
E nas piadas entre amigos os papeis sociais ficam bem claros. Homens precisam dizer que são gays para se abraçar.
No meu mundinho simplista de hétero, eu acho engraçado e rio junto. Mas por que tem que ser assim?
Igualdade quer dizer poder agir como você quiser, não como seu gênero manda.
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Eu também já achei o politicamente correto estupidamente chato. Hoje ainda acho que algumas coisas são exagero. Mas entendo que há quem se ofenda com o que parece a outros inofensivo; e não acho que a ideia seja ofender. Sou a favor de fazer as pessoas se sentirem bem.
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Ultimamente tenho achado um despropósito as pesquisas que classificam habilidades e defeitos por gênero. Claro que existem as diferenças de gênero. Mas, como já comentaram minhas amigas psicólogas (eu brinco dizendo que tanto ouvir minhas amigas psicólogas conversando eu deveria ganhar um diploma por correspodência. Na realidade eu jamais seria psicóloga, mas acho fascinante), há "profecias auto-realizadoras": se você se convence que algo será assim, é muito mais provável que você haja para que assim seja. Por exemplo: fico pensando na escassez de meninas nas exatas. A gente sempre escuta que meninas tem mais facilidade para comunicação. Mas será que se elas não escutassem isso, elas não se sentiriam mais estimuladas a se esforçar mais com os números?
(Eu estou no terceiro ano de engenharia e todos os dias acho que nunca desisti por pura teimosia. Eu adoro engenharia, mesmo apanhando tanto. Todo mundo deve fazer o que lhe fizer feliz; e eu sempre gostei do que me é difícil.)
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Chama-se feminismo para opor-se ao machismo, mas podia chamar-se anti-sexismo, por se opor ao sexismo (que é sinônimo de machismo). Eu entendo os rapazes que sem conhecer o feminismo se sentem intimidados pelo nome da coisa; acham que são meninas querendo mandar nos rapazes e tals. Não tem absolutamente nada disso.
Eu só acho que as pessoas deveriam se informar antes de falar mal de algo. Estou realmente tentando trabalhar isso em mim.
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Outro dia, outro amigo meu viu um cartaz da marcha das vadias na faculdade. Pela legalização do aborto.
- Querem matar os bebêzinhos! - Disse.
Argumentei. Eu sou pró-aborto de carteirinha, desde antes de ser feminista. Fetos não são bebês. E mulheres que não querem não devem ser mães.
- Acho que todo mundo tem bom senso e se previne. - Disse ele.
Meu amigo é mesmo muito inocente e vive em um mundo de sonho. Seria tão bom se todo mundo tivesse mesmo bom senso, e se não houvesse estupros!
- Eu até sou a favor do aborto, mas não acho legal ele ser uma opção. - Disse outro amigo.
- Mas já é uma opção. - Eu respondi. E toda aquela história que aborto mata. E eu não acho que nenhuma mulher goste de abortar. Não é fisicamente agradavel; já o moralismo fica por conta de cada um.
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Li no facebook algo como "Enquanto Rafinha Bastos é processado por uma piada idiota que fez, os políticos continuam roubando em Brasília".
E não processar o Rafinha ia resolver a corrupção???
Enquanto mulher, eu me sinto ofendida de alguém dizer que estuprador merece um abraço.
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De resto, sou hétero, branca para os padrões brasileiros, classe média alta. Há muito o que não entendo porque felizmente para mim não vivi, nunca me foi um risco.
Todo dia me surpreendo me lembrando como as pessoas vivem, pensam e são diferentes de mim.
Quero viver em um mundo com menos julgamentos e mais liberdade e possibilidades. Um mundo igual para tanta gente diferente.
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Eu poderia discorrer sobre esse assuntos eternamente, mas amanhã cedo tenho aula e ainda me falta muita leitura e organização (ficou ambíguo. Quero dizer leitura e organização sobre os assuntos do post. Embora precise para a aula, também). Espero ter revirado um pouco a terra na cabeça dos leitore com as minhas minhocas, para que a gente possa brotar plantas e trazer frutos
Termino com duas recomendações de leitura on-line:
1- Uma reportagem da bbc sobre crianças que "desafiam os padrões de gênero". Na verdade, sobre os pais dessas crianças fazendo o que deveria ser natural a todo mundo: aceitando-as e as fazendo ser aceitas, como as pessoas normais que elas são. Interessante que a reportagem fala "de filhos que gostam de brinquedos associados ao gênero oposto ou que desde pequenos se declaram como sendo do sexo oposto". Ou seja: o estereótipo de gênero é tão forte que simplesmente gostar dos brinquedos "errados" ainda pode gerar desepero.
segunda-feira, 24 de outubro de 2011
Cuidado com o que você diz
2 - O blog da Lola, o qual venho lendo muito e muito me tem aberto a cabeça. Claro que eu não concordo com 100% (não concordo nem com 100% de mim!), mas mesmo que você discorde de tudo vai te fazer pensar. Ou é o que eu sinceramente espero.
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