domingo, 9 de outubro de 2011

Pseudoprotesto no Facebook e auto-análise: personagens, princesas e heroínas

Semana passada começou a modinha no Facebook de substituir sua foto no perfil por de algum personagem de quem você gostava quando era criança. Embora o pretexto seja bem bobo ("Protesto contra a violência infantil". Existe esse termo, "violência infantil"? Porque, como eu postei lá, a primeira coisa que me veio a mente foi meu priminho de 4 anos batendo no de 3. E convenhamos que é até mais fácil esse tipo de protesto parar essa violência infantil - "fica quieto e não bata no primo, olha o desenhinho no computador!" - do que a violência contra a criança, mesmo porque eu não acho que alguém a favor da violência contra a criança que porventura esteja no Facebook vá se comover de alguma maneira pelo portesto.), a coisa pegou. Afinal, em primeiro lugar é divertido.
Escolher um desenho que representasse minha infância não foi algo que tenha saído de pronto. Como a Natália, minha cara amiga psicóloga, disse: há muito que se pode tirar das pessoas a partir dos personagens que elas escolheram (ou é isso que pensam as pessoas que pensaram antes de escolher seus personagens).
Antes disso eu lembrei de um post que li há um bom tempo já no Blogueiras Feministas, em que a autora dizia que a Bela (de "A Bela e a Fera") tem síndrome de Estocolmo - afinal, o Fera sequestra o pai dela; para libertá-lo a mantem refém e maltrata; mas por fim ela se apaixona por ele e vice versa e o amor o redime - uma esperança para todas as mulheres que tem relacionamentos violentos! Eu achei essa uma visão um tanto drástica; principalmente porque eu cresci assistindo desenhos da Disney, incluindo "A Bela e a Fera" e sempre gostei de ser respeitada em relacionamentos. Mas é algo que faz pensar nas mensagens que estão em toda a mídia e atividades que a gente participa; e que muitas vezes coisas e comportamentos inocentes podem sim trazer uma mensagem ruim embutida. Quer dizer que você vai se tornar uma pessoa pior? Não necessariamente. Mas eu acho sempre interessante entrar na discussão do que é ou não normal e aceitável; e qual a mensagem implícita.
Com isso na cabeça fiquei pensando nos desenhos que gostava quando criança. Antes de poder me lembrar, sei que gostava da Cinderella. Mas não me pareceu uma ideia condizente ser uma moça loura que canta para passarinhos e espera a fada madrinha ajudá-la a casar com o príncipe. Ainda na fase princesas clássicas, havia a Ariel. Como não querer ser uma sereia ruiva? Meu nome É Costa, Marina, cresci na praia e pincina; e não que eu ponha muita fé em zodiaco, mas sou pisciana. Adoro tudo que seja molhado. Mas... Eu ainda lembro lá pelo final da minha adolescência, quando em algum daqueles momentos aleatórios nos quais você pensa sobre o nada eu me dei conta que a Ariel é uma menina que desobece o pai em busca de um príncipe que ela nem conhece e vai se meter com uma bruxa! Quanta inconsequência, minha gente! Que menina mais desajuizada! Por outro lado, pensando agora, ela sempre teve curiosidade de conhecer a terra, e por mais que a burrada tenha sido em busca de um grande amor imaginário foi uma rebeldia. Ponto para ela pela coragem.
Minha última opção da Disney era a Mulan, minha ídola já de pré-adolescência. Sem dúvida a mais independente de todas as personagens da Disney que agora me ocorrem. Ela finge ser homem para proteger o pai, e se esforça muito para conseguir o que quer. Eu simplesmente amo até hoje a musiquinha do treinamento no acampamento. Ela é a única que conquista um grande feito, além de um grande marido. É até interessante pensar: Cinderella precisa do principe para salvá-la da pobreza; Ariel precisa do príncipe como âncora para a vida que sempre quis. Já Mulan quer é salvar primeiro o pai e depois toda China; o musculoso Xang aparece pelo caminho (que é como eu acho que os amores devem aparecer).
Só não escolhi a Mulan porque eu não tenho olhos puxados, e pelo jeito as pessoas estavam colocando personagens com alguma similaridade física. E que difícil encontrar uma heroina com olhos e cabelos castanhos!
Indo para o critério físico, desprezei rapidamente a Moranguinho - meu apelido de faculdade, pelos cabelos vermelhos que tinha ao entrar. Pensei na Velma do Scooby Doo, com seu jeitinho meio baranga, cabelos curtinho e óculos. Velma é a inteligente, Daphne é a bonita. A vida tem que ser assim? É uma pressão e tanto querer ser as duas coisas, mas mulheres bonitas tem que ser burras? Mulheres inteligentes tem que ser feias? E ainda se falam essas coisas. E, quando não se falam, se pensam. Mesmo sem querer.
Eu gostava mais de O Pequeno Scooby Doo, e não achei no Google nenhum desenho realmente de meu agrado da Velma. Resolvi mudar. As ideias começaram a escacear.
Pensei em outra princesa que gostava, a Anastasia. Bastante virada a moça, querendo descobrir sua família. Mas... Não sou eu.  Pensei na Meg do Hercules, com sua cintura finíssima e histórico de frustração amorosa. Não. Ela nem é a dona do desenho! Pensei na maravilhosa turma da Mônica, faltou identificação com algum personagem específico. Pensei em Pateta o Filme, no Laboratório de Dexter; mas eu gosto mesmo é dos personagens masculinos deles; e, sei lá, eu queria colocar uma garota.
Então eu lembrei da Super Pig. Nossa, como eu a adorava! Uma garota que se transforma em um super-heroi que é um porco. É super frustrada com a aparência, salva todo mundo o tempo inteiro, tem um grupo de amigos malucos. É. Eu não escolhi a Mulan pelos olhos puxados, mas subtamente me dei conta que me identifico com um porco.
Heroína escolhida.

PS: Em inglês, a música do acampamento da Mulan se chama "I´ll take a man out of you"; e os "vão vencer!" do português são "seja homem!" em inglês. A história toda gira sobre a Mulan, mulher, assumindo um papel masculino; mas a tradução brasileira tirou o caráter sexista dessa música. Achei interessante notar.

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