segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Pippo e eu

Percebi que meu cachorro estava velho quando um amigo meu, feliz dono de um fofo filhote, reclamou que o bichinho estava destruindo a casa:
- É coisa de cachorro pequeno. – Eu disse. – O meu roia as minhas barbies.
Pois é.
E como todo senhor, meu animalzinho de estimação agora precisa de cuidados especiais com a saúde. Recentemente, adoeceu terrivelmente; e eu tive de levá-lo ao veterinário freqüentemente. Acontece que meu adorável vira-lata acredita ser a rua seu enorme banheiro, e não me refiro apenas à marcação de território habitual de machos. Ele gosta mesmo é de construir esculturas marrons e fedorentas no meio da calçada; decorador de sapatos de desavisados.
E eu, chata metida a politicamente correta, tinha esquecido o bendito saco plástico.
No meio do ir e vir de gente sob o terrível sol de Belém, parei e abaixei a cabeça, vermelha. Abri minha bolsa; podia recolher a sujeira com papel, mas... Onde eu iria jogá-la? Por que minha cidade tem tão poucos lixeiros? Seria lindo: recolher e ficar andando com aquilo na mão. Ou, melhor ainda, entrar em uma loja e perfumar o ambiente atirando o papel ao cesto de lixo e sair com a maior cara de inocente.
Estava quente demais, eu suava. Meu cachorro feliz, língua à mostra. E aquilo. O que fazer com aquilo?
Eu já estava parada há tempo suficiente para ganhar trocados de estátua humana. Desisti e, com uma tonelada nas costas, segui ao veterinário sem fazer absolutamente nada. E quando voltei, vi uma bem delineada pegada sobre a arte canina; uma pisada tão determinada e certeira que deixava um pequeno rastro.
Que merda.

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