sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Entre contos de fada e de Machado

Era sábado ou domingo, e o shopping estava cheio. Eu e meu namorado subíamos rampas intermináveis em busca de uma vaga para estacionar. Carros, carros; que diabos estão fazendo tantos aqui? E então, depois de ponteiros de relógio cansarem de rodar, eis que surge finalmente o vácuo entre duas faixas amarelas neste mundo tomado por rodas. Só havia um problema: era contramão.
Devo logo admitir que o ato de pequena e admirável honradez não partiu de mim, e sim do cavaleiro intrépido e justo desta historinha. Que, ao ver-se tentado pelo errado, virou-se para o outro lado:
- Talvez tenha outro carro que tenha chegado antes da gente e tenha dado a volta. Não é certo. A gente dá o balão, e então estaciona.
Balancei a cabeça, encantada; e demos mais uma volta na floresta de produtores de dióxido de carbono. Não, não havia carros a nossa frente, e a vaga reluzente vaga permanecia. Até faltarem poucos metros. O último trecho antes da vitória.
Foi quando surgiu outro carro, da mesma entrada de onde tínhamos saído. E, sem nenhum pudor (ou talvez simplesmente sem pensar), entrou pela contramão.
Silêncio.
- Isso parece Machado de Assis. - Disse o herói.
Mais rampas e corrida de ponteiros antes de vivermos felizes para sempre até o fim daquela tarde.

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