segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Pequenas cenas do tal dever cívico

Seria exagero dizer que é o tipo de coisa que só acontece comigo, porque na verdade aconteceu com todas as outras pessoas que avolumavam enormemente a fila. O fato foi que na minha seção eleitoral – justo na minha! – a urna eletrônica passou a manhã inoperante. Em outras palavras: deu pau. Significando que, ao invés de nove horas, tivemos apenas cerca de cinco para votar. Acarretando a enorme fila citada no primeiro período.
A linha de gente chegava a enrolar-se. E eu lá, parada, já conformada, pensando em o que fazer para matar o tempo. Só que o tempo, como todos percebem ao tentar matá-lo, é uma desgracinha imortal que sequer aceita apressar o passo. Com um pouco de bom humor, por outro lado, dá para distrair-se em sua companhia. E como não havia nada o que fazer além de esperar, fiquei absorvendo os tipos ao meu redor.
À minha frente havia dois caras, entre si amigos, falando alto e rindo-se da desgraça coletiva. Chovia muito e ao nosso lado formou-se rapidamente uma poça com jeito de riacho. Um deles juntou um dos muitos santinhos de candidatos que estavam no chão e atirou-o à água. Gargalhou; fiquei curiosa. Ao seu amigo, ele disse, apontando o papel que flutuava e escorria:
- Olha só, esse candidato já foi por água abaixo...
Divertindo-se, o outro juntou outro santinho do chão e fez o mesmo:
- E este já afundou!
Imediatamente atrás de mim, uma mulher visivelmente incomodada com o tempo perdido parecia incomodar-se também com o fato de outras pessoas não estarem aproveitando a maravilhosa possibilidade de irritar-se como ela, porque dirigia aos dois amigos olhos de metralhadora. E me dava tapinhas nos ombros sempre que a fila se movia, como se eu fosse um animal conduzindo sua carruagem. Como se o curto espaço percorrido pelas minhas pernas fosse alterar o tempo que a separava da urna; ou como se o meu cérebro não entendesse a dinâmica das filas. Muito mais do que a mais de hora que passei esperando meus segundos diante da maquininha de votar, foi aquela mulher que quase me tirou do sério.
As outras pessoas faziam comentários aleatórios, queixosas da política com o desencanto estereotipado e inerte que não posso criticar porque também me pertence. Assim:
- A gente passa esse tempo todo na fila para votar em político ladrão.
- Não tem fiscal nas eleições? Pois devia ter quem fiscalizasse esses caras também, depois de eleitos...
Não se davam conta que deveriam ser este “quem”. E eu me dei conta que, se voto não fosse obrigatório, a maioria daquelas pessoas iria embora simplesmente por se desanimar com a fila. Eu mesma, provavelmente.
Papai chegou, trazendo-me uma revista, compadecido com o meu esperar. Comentou baixinho sobre outro homem à minha frente, com um molequinho não mais tão inho nos ombros:
- Deve ter trazido ele para tentar ser prioridade. Não conseguiu e vai chegar em casa dez centímetros mais baixo.
Riso. É este o Brasil, minha gente.
E logo foi falar ao celular em um canto; eu fiquei lendo e o tempo resolveu ser-me gentil. A fila avolumou-se até 17h; à minha frente os dois amigos continuavam rindo; a mulher ainda me dava tapinhas. Quase 18h consegui finalmente sair da zona (com duplo sentido) portando meu comprovante de voto. Tinha, pois, cumprido meu dever cívico.

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