(Peço perdão por ser repetitiva aos que já tem essa discussão bem elaborada há tempos, mas volta e meia um interlocutor me traz ela de novo e por isso escrevo novamente.)
Dia desses me dei conta que conheço e já bebi com os filhos de todos os meus professores desse bimestre - e os conheço porque são meus pares, ambos também pós-graduandos em engenharia. A moça eu conheci em Floripa mesmo, na militância do coletivo feminista do centro tecnológico; o rapaz mora no Rio e eu o conheci em Foz do Iguaçu, em um congresso científico. Como eu também sou filha de professor universitário, não deu para não pensar em como funciona essa tal de meritocracia, que ainda há quem tanto aplauda: nós, "vitoriosos" por compormos a dita elite intelectual brasileira, chegamos onde chegamos depois de noites mal dormidas e toda a sorte de sacrifício de vida pessoal que os meritocratas acham bonito aplaudir.
Pois acontece que para mim, pós-graduação está sendo como fazer uma trilha demarcada: tem lá os seus trechos mais apertados e as pedras mais escorregadias, mas não sou eu que teve que ir primeiro, com bússola e um facão. Já tive minha saúde (física e mental, tratam-se de uma só) prejudicada pela universidade, e por isso critico a estrutura acadêmica; entretanto isso não muda o fato de que estou em posição de privilégio porque tive ajuda. Tive todo o suporte financeiro, afetivo e intelectual. Estudei em boas escolas, tive pais que me estimularam a ser sempre uma boa aluna e que não apenas apoiaram, mas inclusive aplaudiram, quando decidi "parar de trabalhar" para fazer pós graduação (ou seja, pedi demissão do meu emprego em multinacional com carteira assinada e fui viver com uma bolsa com menos de um terço do valor do salário).
"Mas pensa no quanto você se esforçou", disse um amigo meu, pró-meritocracia. Eu me esforcei e me esforço, mas se fracassar minha punição será um baque no ego e uma cama quente na casa dos meus pais enquanto procuro outro rumo. Sei que não ficarei desamparada; e há tantas pessoas que são para os pais amparo! O risco é grande e o caminho é longo, mas posso tomá-lo porque tenho uma rede de segurança. Conheço muitas pessoas que não tem a rede de segurança e ainda assim prosperam; e as admiro muito, porém quero um mundo em que segurança seja regra, e não exceção - para cada história de sucesso "apesar de tudo", existem inúmeros fracassos de talentos por falta de oportunidade ou dificuldades que medianos "bem-nascidos" não possuem. Para escola e graduação, educação é um direito. Para quem deseja fazer ciência, a carreira deveria ser uma opção como outra qualquer, não uma aposta arriscada sem direitos trabalhistas (isso sem entrar na questão de para quem e que tipo de ciência está sendo desenvolvida no Brasil hoje em dia, que rende outro post).
Meus pais me davam livros, meu pai me ensinava matemática avançada por hobby, cresci desenhando na costa de folhas de teses e ouvindo o funcionamento do meio universitário. Não lembro o autor e o google não está me ajudando, mas é verdade: no Brasil a meritocracia é realmente hereditária.
Nenhum comentário:
Postar um comentário