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"Onde não puderes amar, não te demores." Dizem que a frase é da Frida, recentemente descobri que quem disse na verdade foi uma atriz italiana chamada Eleonora Duse. Independente da autoria, é um bom guia para vida - especialmente para quem estava na sua décima quarta casa, como eu. Mudar de casa é caro e estressante, mas depois que a gente aprende como faz (e tem o privilégio de ter uma graninha guardada) é mais fácil fazer as contas e juntar os trapinhos do que continuar num lugar onde não se pode amar. Tenho repetido como mantra, e para tirar da cabeça as duas músicas que grudaram na minha mudança: aquele funk machista "Não dá mais, era uma briga em cima da outra" e aquela música bonita da mina daquela banda com o abusador, Francisco el Hombre: "Que um homem não te define/sua casa não te define/sua carne não te define/Você é seu próprio lar".
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Já faz três anos que parei a terapia, mas sempre que percebo que me meti em uma cilada lembro bem da minha psicóloga perguntando:
- Marina, você se acha uma pessoa ruim? Você acha que fez algo ruim para alguém? Então, por que está se punindo? Por que mantém isso na sua vida?
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Eu moro há três mil quilômetros da minha família, e morava em uma casa com dois ex-desconhecidos, nessa extensão de vida estudantil que é o doutorado. Para o companheiro de casa de quem gostava, falei que estava me mudando porque não aguentava mais o clima ruim com o outro:
- Você tá sempre viajando, meu namorado mora em São Paulo e já passou mais dias em Floripa esse ano que você. Na maior parte do tempo ficamos só eu e o cara com quem tenho problemas, e a gente não consegue ter uma conversa de boa, quando muito a gente se cumprimenta e eu fico super feliz e considero que esses são os dias bons. Sério, eu fiquei genuinamente satisfeita porque ele cumprimentou uma amiga minha e a minha irmã, foi como se tivesse me dado um presente. Aí metade do tempo eu tento respeitar a introspecção dele e acho que estou incomodando de existir, e na outra metade eu tento bancar a simpática e ele não me responde e eu acho que estou incomodando por existir. Normalmente eu me sinto morando em uma casa mal assombrada, sozinha com eventuais ruídos de portas se mexendo; esperando a próxima explosão. Neste ano já tivemos duas brigas feias, uma por um ralo de pia e outra na qual ele me mandou foto de azulejo para dizer que eu não esfregava direito, no dia depois do meu aniversário. Eu me acho meio louca por querer me mudar por ralo de pia e azulejo, mas quero. E não me venha dizer que é porque ele não consegue se relacionar, porque pra trepar com mulher que conhece no tinder ele consegue conversar, mas não consegue ter um diálogo não agressivo com a mina que mora com ele.
- Eu entendo, mas acho que você devia se impor. Responder.
- Cara, não. Eu já respondi e ele continua sendo estúpido comigo. E honestamente, eu tenho que me impor em todos os espaços da minha vida, nesse caralho de engenharia que eu escolhi seguir. Eu consigo, mas eu não quero ter que ficar armada na minha casa. Parece que traz a tona o pior de mim, eu não quero ser essa pessoa. Eu sou fofa e gosto de bater papo furado e de agradar. Eu só quero ficar de boa.
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Estou ainda um pouco enlutada, como quem termina um namoro. Foi triste desistir da casa, e toda a dificuldade de achar algum lugar que aceitasse cachorro fez eu me perguntar se era tão errado amar assim um bichinho. Sempre que passeio com a Vivi e ela vai cheirar outro cachorro e o dono se afasta ou pega o bicho no colo eu me sinto nossa vira-latice como algo ruim, nortista perdida no sul maravilha.
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Mas enfim mudamos, Vivi e eu. Depois de talvez ter ligado para todos os aluga-se da ilha e ter desorganizado toda a minha vida. Voltamos a ser só nós duas, mas antes sós do que mal-assombradas. A kit nova é uma gracinha. Estou querendo comprar umas plantas.
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