segunda-feira, 20 de março de 2017

Quase trinta

Ano que vem, quando eu completar trinta anos, vou querer dar uma festa tipo de debutante, só que sem aquele vestido branco-pureza.
Eu poderia ter sido médica, mas não fui. Eu já trabalhei com saúde, mas desisti. Eu sou de uma classe social e uma geração que tem o privilégio da possibilidade de desistência, e ano que vem, quando eu completar trinta anos, eu quero vestir o não-branco dos nãos que eu pude e posso dizer.
Não sei se casarei um dia, e, se casar, com o perdão celestial de minha avós já falecidas que rezavam rosários, não será na igreja. Das datas cristãs, guardo o círio belemense com sua multidão na rua, carimbó e drag queens; e o vermelho da minha saia de maruja que louva um santo preto. O branco, racistamente definido como tão puro, eu deixo para o sincretismo das ondas de ano-novo - e quem sabe para os meus cabelos, já que terei trinta anos.
Ano que vem, quando eu completar trinta anos, vou querer fazer um book como fazem as meninas que completam quinze anos, só que sem aqueles retoques que transformam as modelos de revista em bonecas de plástico. Vou querer documentadas minhas dobrinhas e, quem sabe, uma ruga que resolva que já é hora de surgir.
Ano que vem, quando eu completar trinta anos, vou querer uma festa para debutar o dito fim da minha juventude, e as vitórias da minha maturidade. Não sei quais serão daqui a um ano, mas por hora posso listar:
1- Pagar minhas contas;
2- Saber fazer um bom feijão; e
3- Ter um sofá.
(A questão do sofá é um tanto controversa. Houve um dia particularmente cinza ano passado, no qual quase às lágrimas eu disse a uma amiga que estava cansada daquela vida. Cansada de não ter um sofá.
- Marina, você está correndo contra prazos do mestrado, não sabe onde vai morar semestre que vem e acabou de tomar um fora. Não acho que não ter um sofá seja exatamente o seu problema.
Funguei.
- Marina, pelo amor de deus, tem gente sem teto, tem família morando em um cômodo, para com esse seu drama classe média sofre.
Parei. Mas este ano ela lembrou da conversa, quando contei, toda animada, que na mobília do meu novo apartamento constava um sofá.
- Se tem um sofá, você deve estar feliz. - Disseram também minha irmã, e outros amigos. E me dei conta que havia publicizado muito meu sonho de consumo burguês.
Explico-me, como dedução de Sherlock ou terapia: se tenho sofá, é porque cabe um sofá onde moro, e sofás não são coisas fáceis de serem transportadas. E, se cabe um sofá, cabem também visitas. Na minha mitologia, o sofá é a segurança de que moro numa casa de verdade, que não estou indo embora e que não morrerei de solidão - risco cada vez mais real, agora que já tenho quase trinta.)
Ano que vem, quando eu completar trinta anos, talvez enfim surja em mim o dom familiar da hospitalidade, e como minha avó materna eu e meu sofá aprendamos a dar festas que durem dois dias ou mais.

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