1
- Eu costumo ficar nervosa antes de viagens - me disse a Nat, grande amiga, que espero que não se chateie de eu estar escrevendo sua metáfora. - Sempre acho que estou esquecendo algo, então as coisas vão dar errado. Aí eu respiro fundo e me lembro: tudo o que eu preciso é da passagem e da minha identidade. - Pausa - Nossa. Não tinha me dado conta do quanto isso é forte. Mas sim, vale pra vida. A gente só precisa da passagem e da identidade. A viagem só vai acontecer quando a gente estiver nela.
Em tempos de ansiedade, nada como uma amiga psicóloga. Em qualquer tempo, nada como as amigas.
2
Em tempos de discurso de ódio, nada como ver o outro como gente. "Em política a gente faz adversários, não inimigos", me ensinou meu pai. A vida vem me ensinando a não confundir a reação do oprimido com a violência do opressor. Sei que falo de uma enorme posição de privilégio, e por isso me acho na obrigação de dialogar; mas às vezes me falta estômago. Oprimido não tem obrigação de ser didático, privilegiado sim.
Longe de mim achar que estou sempre certa. Na verdade, sinto-me perdida. Tudo o que sei é que sim, é golpe. E discurso de ódio não é opinião. Não vou perder meus amigos.
3
Quando não sei o que fazer na vida, mudo o cabelo. Como se a nova Marina no espelho estivesse mais pronta para o mundo.
Num intervalo de duas semanas, foram duas descolorações e três tingidas.
Enfim estou feliz com as mechas que a cada lavagem se alteram entre azul ou verde. São mechas de mar. Aguardo a calmaria.
4
Eu não sei o que vou fazer depois do mestrado, e isso me faz fitar paredes, na mais legítima auto-sabotagem.
- Vou deitar na cama em posição fetal e chorar. Mas não sei em qual cama.
Passagem e identidade. Passagem e identidade. Passagem e identidade.
Consegui entregar a qualificação. Vou apresentá-la com cabelo colorido.
5
Mando mensagens para os amigos feito corrente de spam. Tem horas em que preciso muito de um abraço. Problemas de quem mora só.
Mas tenho me sentido sortuda e querida. De reencontrar quem não via há muito tempo e ver no sucesso a esperança de que uma hora a gente toma jeito. De encontrar quem saiu do mesmo porto e que, mesmo tendo tomado um caminho totalmente diferente do meu, também está um pouco perdido. Passagem e identidade.
Apesar de tudo, tenho me sentido feita de amor. No fim o que importa são as pessoas, e eu não quero energia ruim na minha vida.
Eu quero resgatar amizades.
Eu não vou deixar o patriarcado me fazer brigar com mina.
E eu quero mais é que as pessoas que eu gosto saibam que eu gosto delas. Não há vergonha nenhuma em gostar.
quinta-feira, 21 de abril de 2016
Pequenas observações e causos sobre meu estômago embrulhado
Rabiscado por
Marina
às
17:41
Temática(s): Colecionando Causos
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